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Capa do romance Amor Em Estoque

Amor Em Estoque

Nesta envolvente trama contemporânea, Amor Em Estoque apresenta uma jornada marcada por sentimentos profundos e reviravoltas inesperadas. A narrativa foca na redenção e no poder do amor verdadeiro para superar traumas de outrora. Ao enfrentar os dilemas do presente, os protagonistas descobrem que o destino depende de escolhas corajosas. Uma história cativante que resgata a esperança e a conexão humana em meio ao caos, provando que o afeto pode transformar vidas.
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Capítulo 3

Os primeiros dias na casa da minha mãe foram como andar sobre brasas. A atmosfera lá estava mais tensa que um fio de cabelo prestes a arrebentar. Eu e ela, tentando dançar em volta de assuntos espinhosos, evitando cutucar feridas antigas. Cada palavra era um campo minado, e a gente, malabaristas tentando não deixar nenhum prato cair.

— Mãe, você viu onde deixei as chaves do carro? — perguntei, tentando soar casual, entretanto, a tensão pairava no ar como uma tempestade prestes a desabar.

Ela levantou os olhos do jornal, e por um momento, pensei ter visto relâmpagos faiscando em seu olhar.

— Não sei, Clara. Talvez estejam no mesmo lugar onde você deixou sua consideração por mim. — a resposta foi mais cortante que uma navalha afiada.

Caminhei pela sala, sentindo o chão se desmanchar sob meus pés. Eu só queria as chaves, porém, sabia que ali, entre os móveis e os retratos de família, estava um campo minado de emoções não resolvidas.

— Você pode não acreditar, mãe, mas eu só estou tentando ajudar. — soltei as palavras como balas de uma metralhadora, esperando não acertar nenhum ponto vital.

Ela bufou, um som carregado de anos de desentendimentos.

— Ajudar? Sua ajuda tem um preço muito alto, Clara. Sempre teve.

Caminhei até a janela, olhando para fora como se encontrasse respostas no horizonte.

— Sei que as coisas não foram fáceis entre a gente, contudo, eu mudei, mãe. Podemos tentar recomeçar, não podemos?

Ela me encarou, os olhos carregados de uma mistura de mágoa e desconfiança.

— Recomeçar? Isso não é tão simples assim, minha filha. Palavras não consertam o passado.

A sala ficou em silêncio por um momento, a tensão crescendo como um acorde dissonante.

— Eu só queria as chaves, mãe. Não estou pedindo um tratado de paz. — minha voz soou mais áspera do que eu pretendia.

Ela se levantou, as rugas em seu rosto parecendo mais profundas do que nunca.

— As chaves estão na mesa da cozinha. Porém, isso não resolve nada entre nós.

Peguei as chaves, sentindo o peso do metal em minha mão. Aquilo não era apenas um objeto, era um símbolo de todas às vezes que nos perdemos no labirinto de nossos próprios desentendimentos.

— Talvez não resolva tudo, mãe, no entanto, é um começo. — murmurei, mais para mim mesma do que para ela.

Ela voltou a se sentar, o silêncio retornando à sala como uma sombra persistente.

— Um começo, Clara. Veremos se é mesmo.

Saí da sala, as chaves na mão, porém, o coração ainda pesado com a bagagem de anos de desencontros. Recomeçar, pensei, era como tentar costurar um tecido desgastado. Não sabia se as linhas seriam suficientes, mas ao menos eu estava disposta a tentar. O campo minado continuava ali, mas talvez, passo a passo, pudéssemos encontrar um caminho através dele.

Deixei a casa da minha mãe com o carro, uma mistura de alívio e apreensão ainda borbulhando dentro de mim. Precisava de um momento, um respiro, algo para dissipar a tensão que parecia ter se instalado permanentemente entre nós. O destino acabou sendo a praça da cidade, um refúgio conhecido da minha infância.

Estacionei o carro perto da entrada e, ao sair, senti o ar fresco da tarde acariciar meu rosto. A praça estava viva, crianças rindo, brincando, e o som suave do vento nos galhos das árvores proporcionava um contraste reconfortante com a atmosfera pesada que deixei para trás.

— Ei, vocês aí! — chamei um grupo de crianças que corria em volta de um playground improvisado.

Elas se aproximaram, olhando-me com olhos curiosos e sorrisos cheios de energia infantil.

— Oi, tia! O que você tá fazendo aqui? — perguntou um garotinho com os olhos brilhando de curiosidade.

Sorri, sentindo-me repentinamente leve.

— Vim dar uma volta, ver como anda a praça. E vocês, o que estão fazendo por aqui?

— Estamos brincando de pega-pega! — exclamou uma menininha com as bochechas rosadas. Como que aguento tanta fofura? Juro que não sei!

— Pega-pega é sempre divertido, né? Posso brincar com vocês? — propus, e os olhinhos das crianças se iluminaram ainda mais.

Passamos algum tempo correndo e rindo, como se o mundo lá fora não existisse. Cada gargalhada parecia carregar um pedacinho da tensão que eu trouxera da casa da minha mãe. No meio da brincadeira, esqueci as palavras afiadas, esqueci as feridas antigas. Naquele momento, éramos apenas crianças, perdidas no encanto simples da diversão descomplicada.

— Tia, você é legal! — disse o garotinho enquanto tentava me pegar.

— Vocês também são demais! — respondi, ofegante, enquanto escapava da captura iminente.

O sol começou a ficar mais intenso. Sentamo-nos em um banco, recuperando o fôlego entre risadas. Eu precisava daquele momento descontraído, aquelas crianças, não tinha noção do quanto me fizeram bem. Às vezes gostaria de voltar ser criança e esquecer dos problemas, embora meus pais tenham se divorciado quando eu tinha apenas dez anos. Morar com o meu pai não foi fácil, contudo, pensando bem, tenha sido o melhor para minha saúde mental.

— Tia, por que você tava triste quando chegou? — perguntou uma menininha com uma franja rebelde caindo sobre os olhos.

Encarei os olhos inocentes da criança, surpresa pela percepção aguda dela.

— Às vezes, adultos têm seus próprios problemas, porém, vocês me fizeram esquecer deles por um tempo. Obrigada por isso. — respondi, sorrindo genuinamente.

Eles trocaram olhares cúmplices e, de repente, a conversa sobre chaves perdidas e palavras afiadas parecia um capítulo distante.

O momento na praça trouxe uma clareza, uma perspectiva diferente. Talvez a chave para reconstruir as coisas com minha mãe não fosse apenas em palavras e acordos complicados, mas também em momentos simples de leveza e alegria. Olhei para o carro da minha mãe estacionado ali, um símbolo físico do passado, como também uma ponte para o futuro.

Decidi voltar para casa com um coração mais leve, carregando não apenas as chaves do carro, como também a lembrança de como a simplicidade de uma manhã na praça poderia ser um bálsamo para a alma. A discussão com minha mãe ainda estava lá, esperando para ser resolvida, mas, por enquanto, escolhi afastar-me das sombras do passado e me permitir absorver a luz daquele instante fugaz de felicidade.

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