
Amor e Ódio: O Recomeço
Capítulo 3
No dia seguinte, Sofia apareceu na casa paroquial.
Eu a vi da janela da cozinha enquanto ela saía de um táxi. Ela usava um vestido branco, simples, que a fazia parecer pura e delicada. Seus cabelos longos e loiros balançavam com a brisa.
Ela era exatamente como João a descrevia: um anjo.
Na minha vida passada, eu a odiava com todas as minhas forças. Eu a via como a rival que roubou o coração do homem que eu amava.
Agora, olhando para ela, eu só sentia pena. Pena dela, e pena do homem que a idealizava tanto.
Quando ela entrou, seus olhos me encontraram. Havia um brilho de triunfo neles, mal disfarçado por um sorriso educado. Ela sabia quem eu era. Sabia do meu lugar na vida de João.
"Você deve ser a Maria Eduarda", ela disse, a voz doce como mel. "João fala muito de você. A sobrinha querida."
A palavra "sobrinha" foi dita com uma ênfase sutil, uma forma de colocar-me no meu devido lugar.
Eu apenas assenti, sem dizer uma palavra.
Naquela noite, durante o jantar, Padre João fez o anúncio. Minha avó e meu avô, seus pais adotivos, estavam na mesa.
"Mãe, pai", ele começou, segurando a mão de Sofia sobre a mesa. "Eu tomei uma decisão. Eu vou deixar o sacerdócio."
Minha avó engasgou. Meu avô franziu a testa.
"E por quê?", meu avô perguntou, a voz severa.
"Por causa da Sofia", João disse, olhando para ela com uma adoração que me revirou o estômago. "Nós nos amamos. Vamos nos casar."
O silêncio na mesa era pesado.
Então, os olhos de João se voltaram para mim.
"Duda", ele disse, o tom agora frio e formal. "Com a Sofia se mudando para cá, acho que seria melhor para todos se você encontrasse outro lugar para morar. Talvez voltar para a casa dos seus avós."
Eu senti os olhos de todos em mim. A humilhação era pública, calculada.
Na vida passada, eu teria chorado, teria implorado. Teria me sentido traída e abandonada.
Desta vez, eu apenas olhei para o meu prato.
"Tudo bem", eu disse calmamente.
Sofia, ao lado dele, começou sua performance.
Ela apertou a mão de João e olhou para ele com os olhos marejados.
"João, querido, não seja tão duro com ela", ela sussurrou, alto o suficiente para que todos ouvissem. "Ela é só uma menina. Deve estar sendo muito difícil para ela."
Ela então olhou para mim com uma falsa simpatia.
"Duda, eu sinto muito se isso te magoou. Eu e João não queríamos..."
"Não me magoou", eu a interrompi, minha voz ainda calma e uniforme. "Eu já estava planejando me mudar de qualquer maneira. Quero focar nos meus estudos para o vestibular."
A máscara de Sofia vacilou por um segundo. Ela não esperava essa reação.
João, no entanto, ficou visivelmente irritado com a minha calma. A minha dor alimentava o ego dele, e a minha indiferença o desarmava.
"Maria Eduarda, tenha mais respeito!", ele disse, elevando a voz. "Sofia está tentando ser gentil com você. E eu ainda sou seu tio e o chefe desta casa. Você vai fazer o que eu digo."
A autoridade na voz dele, que antes me fazia tremer, agora soava vazia.
Eu levantei o olhar do meu prato e o encarei diretamente pela primeira vez.
"Sim, senhor", eu disse. E então, voltei a comer, como se nada tivesse acontecido.
Mais tarde naquela noite, enquanto eu estava no meu quarto, fazendo as malas, ele bateu na porta.
Eu não respondi.
Ele entrou mesmo assim.
"Por que você está agindo assim?", ele perguntou, parado na porta.
"Assim como?", perguntei, sem me virar, continuando a dobrar minhas roupas e colocá-las na mala.
"Tão... fria. Distante. Você nem olhou para mim durante o jantar."
Eu podia sentir seus olhos queimando nas minhas costas. Ele se aproximou.
"Duda, olhe para mim."
Instintivamente, eu dei um passo para o lado, evitando seu toque quando ele tentou segurar meu braço.
O movimento foi pequeno, quase imperceptível, mas para nós, foi um terremoto. Em toda a minha vida, eu nunca o havia evitado. Eu sempre busquei seu toque, sua proximidade.
Ele parou, a mão suspensa no ar.
"O que foi isso?", ele perguntou, a confusão genuína em sua voz.
Eu finalmente me virei para encará-lo, meu rosto uma máscara de neutralidade.
"O que foi o quê, tio João?", perguntei, usando o título para reforçar a distância entre nós. "Estou apenas fazendo minhas malas, como você pediu."
Ele me olhou por um longo tempo, tentando decifrar a pessoa que estava à sua frente. Ele não conseguia. A Maria Eduarda que ele conhecia, a garota boba e apaixonada, havia morrido naquele porão.
E ele não fazia ideia.
Você pode gostar





