
Amor e Humilhação: O Preço
Capítulo 2
A chuva fina e gelada batia no visor do capacete, misturando-se ao suor que escorria pela testa de João.
Ele costurava entre os carros, empurrando a moto velha até o limite, o motor protestando com um ruído rouco.
Cada segundo perdido era um centavo a menos no bolso, uma preocupação a mais na cabeça.
O aplicativo zumbia com a notificação de atraso, uma luz vermelha piscando que parecia gritar "fracasso" em seu rosto.
Finalmente, ele chegou ao prédio de luxo, um gigante de vidro e concreto que parecia zombar de sua moto surrada e da sua mochila de entregas desbotada.
O porteiro o olhou de cima a baixo, um desprezo mal disfarçado no rosto, antes de liberar a entrada.
No apartamento da cobertura, a porta se abriu antes mesmo que ele pudesse tocar a campainha.
Um homem, Carlos, o esperava, com os braços cruzados e uma expressão de impaciência. Ele era o tipo de cara que parecia ter nascido em berço de ouro, com roupas de marca e um sorriso que não alcançava os olhos.
"Você está atrasado" , disse Carlos, a voz cortante como vidro.
"Desculpe, senhor, o trânsito estava impossível por causa da chuva" , João tentou explicar, tirando a mochila das costas.
Carlos ignorou a desculpa, seu olhar fixo na embalagem que João tirava da mochila.
"Um 'kit intimidade' ," Carlos leu em voz alta, pegando o pacote da mão de João com um gesto de nojo, "Você tem noção do que você fez? A noite toda esperando por isso."
Ele balançou o pacote pequeno, que continha apenas uma caixa de preservativos, como se fosse um troféu de incompetência.
Uma mulher, Sofia, apareceu atrás de Carlos, vestindo um robe de seda. Ela tinha uma beleza calculada e um ar de drama.
"Amor, ele estragou tudo" , ela disse com uma voz chorosa, se aninhando no ombro de Carlos.
João sentiu o rosto queimar, uma mistura de vergonha e raiva. Ele era apenas um entregador, fazendo seu trabalho.
"Senhor, eu realmente sinto muito pelo atraso, mas eu não tenho culpa do trânsito..." , ele começou a dizer.
"Não tem culpa?" , Carlos o interrompeu, dando um passo à frente, "Você não tem culpa? A minha noite romântica foi para o lixo por sua causa! Você sabe o quanto eu paguei por isso? Pela entrega expressa?"
A voz dele ecoava no apartamento gigantesco e silencioso.
"Eu vou reclamar no aplicativo, vou fazer você ser demitido" , Carlos ameaçou, apontando o dedo para o rosto de João, "Gente como você precisa aprender a ter responsabilidade."
João engoliu em seco, a ameaça de perder o emprego era um soco no estômago. Aquele trabalho era tudo o que ele tinha para sustentar a si mesmo e a sua avó.
"Senhor, por favor, não faça isso, eu preciso do trabalho" , ele pediu, a voz baixa e trêmula.
Carlos sorriu, um sorriso cruel.
"Ah, agora você está com medo? Tarde demais."
Ele pegou a carteira, tirou uma nota de valor baixo e a amassou na mão.
"Isso é pela sua 'corrida' " , disse ele, mas em vez de entregar o dinheiro a João, ele o jogou no chão.
O dinheiro caiu no tapete felpudo, uma humilhação final.
João ficou parado, olhando para a nota no chão, o sangue pulsando em suas orelhas.
Ele queria gritar, queria dizer tudo o que pensava daquele homem arrogante, mas o medo de perder tudo o paralisou.
Lentamente, ele se abaixou, o corpo inteiro rígido de humilhação.
Ele pegou o dinheiro amassado.
Quando se levantou, Carlos e Sofia o observavam com sorrisos vitoriosos.
"Agora pode ir" , disse Carlos, como se estivesse dispensando um cachorro.
João se virou sem dizer uma palavra, sentindo os olhos deles queimando em suas costas.
Ele caminhou pelo corredor luxuoso, desceu pelo elevador espelhado e atravessou o saguão suntuoso.
Cada passo parecia pesado, carregado com o peso daquela humilhação.
Lá fora, a chuva tinha engrossado, mas João mal sentiu.
Ele subiu na moto e partiu, a imagem da nota amassada no tapete gravada em sua mente.
Aquela noite não era apenas sobre uma entrega atrasada, ele sentia isso.
Era o começo de algo muito pior.
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