
Amor e Dor: O Fim de Miguel
Capítulo 3
Lucas não se contentou, ele se aproximou de Miguel novamente, o desprezo em seu rosto se aprofundando.
"O que foi, o gato comeu sua língua, caipira? Ou o champanhe caro te deixou sem palavras?", ele provocou, empurrando o ombro de Miguel com o dedo. "Você não entende, não é? Você não pertence a este mundo, você é só um brinquedo para a Isabela, algo que ela usa quando está entediada".
Cada palavra era um golpe, projetada para ferir, para desmoralizar.
Miguel sentia a cabeça latejar, uma dor aguda atrás dos olhos, o cheiro forte do álcool o deixava enjoado, as luzes do salão começaram a girar, as vozes se tornaram um zumbido indistinto.
Fragmentos de imagens passavam por sua mente, flashes desconexos, um carro capotado, o som de vidro quebrando, o rosto de uma mulher chorando, mas ele não conseguia segurar as memórias, elas escapavam como areia por entre os dedos.
Sua cabeça doía, uma dor familiar que o assombrava desde o acidente, ele apertou as têmporas, tentando clarear a visão.
Ele se lembrou de outra vez, não muito tempo atrás, estava chovendo, uma tempestade forte.
Isabela o havia deixado na beira da estrada, ferido, depois de um "acidente".
Lucas estava lá também, observando de dentro do carro de luxo, com o mesmo sorriso satisfeito que tinha agora.
"É para o seu bem, meu amor", Isabela havia dito, as lágrimas em seus olhos parecendo tão genuínas. "Eu preciso fazer isso para garantir nosso futuro, confie em mim".
Ele confiou, ele sempre confiava, mas por que o deixaram lá? Por que Lucas estava envolvido? A injustiça daquela lembrança o atingiu com força, uma onda de confusão e dor.
O empurrão de Lucas se tornou mais forte, desequilibrando Miguel, ele cambaleou para trás, em direção à grande porta de vidro que dava para a área da piscina.
"Saia da minha casa, seu lixo", Lucas gritou, e com um empurrão final e violento, ele o jogou contra a porta.
O corpo de Miguel bateu com força no vidro, mas a porta não quebrou, ela se abriu com o impacto, e ele caiu para fora, no pátio frio e úmido.
Antes que pudesse se recuperar, Lucas estava sobre ele novamente, o rosto contorcido de fúria.
Com um movimento rápido, Lucas o empurrou em direção à beira da piscina iluminada, a água azul parecendo um abismo escuro na noite.
"Acho que você precisa de um banho de verdade", Lucas sibilou, e o empurrou com toda a força.
Miguel gritou enquanto caía, o ar sendo arrancado de seus pulmões, o choque da água gelada foi um golpe violento em seu corpo já abalado.
Ele afundou, a água invadindo sua boca e nariz, queimando seus pulmões, o peso de suas roupas encharcadas o puxava para baixo, para o fundo.
Ele lutou, seus braços e pernas se debatendo em pânico, tentando encontrar a superfície, mas a dor em sua cabeça explodiu em uma agonia branca e ofuscante.
Ele podia ver as luzes distorcidas da festa acima da superfície, podia ouvir os gritos e risadas abafados, ninguém viria ajudá-lo, ele estava sozinho, afogando-se em um mar de luxo e crueldade.
A escuridão começou a tomar conta de sua visão, seus movimentos ficaram mais lentos, mais fracos.
O desespero o engoliu, a vida se esvaindo de seu corpo em bolhas de ar que subiam para a superfície, seu último pensamento foi para ela, Amora, um nome que era ao mesmo tempo sua âncora e sua maldição.
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