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Capa do romance Amor de Motoqueiro

Amor de Motoqueiro

Maria batalhou muito para abrir seu restaurante, sua maior paixão. Após ser salva de um assalto por Miguel, o dono do bar vizinho, uma forte atração surge entre a chef e o motoqueiro viúvo. Enquanto ele busca compromisso, ela prefere algo casual. No entanto, o pai de Maria desaprova o romance devido à diferença de idade e ao enteado, ameaçando tomar o negócio dela. Agora, Miguel precisa decidir entre o amor deles ou proteger o sonho profissional de Maria.
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Capítulo 1

Você já se apaixonou? Sabe aquele tipo de amor que parece transcender tudo? Que não importa quantos altos e baixos aconteça, basta você avistar ele que tudo parece valer a pena?

Eu já! Minha grande paixão é cozinhar. Aprendi desde cedo a fazer o básico observando minha vó, dona Nice, ela me deixava lá no cantinho da cozinha onde eu não poderia atrapalhar e às vezes me deixava mexer uma coisa ou outra. O tempo foi passando, eu fui crescendo e cada vez mais ela ia me delegando tarefas, até que qualquer almoço, comemoração em família estávamos nós duas na cozinha trabalhando juntas.

Mas meu pai nunca aceitou que cozinhar fosse uma profissão boa.

— Faça uma carreira ele! — sempre dizia.

E foi por esse motivo que me formei em contabilidade, com o peito apertado querendo estar em uma cozinha me dediquei aos livros e os estudos que o deixariam orgulhoso.

Conquistei meu espaço, uma trabalho bom onde poderia crescer, mas nada me tirava o gostinho de aos finais de semana correr pra casa deles e cozinhar com minha vó.

Um ótimo hobbie era o que ele pensava, mal sabia que era tudo o que me fazia feliz.

Então em um belo dia vovó se foi, uma morte tranquila, sempre acreditei que ela sabia que estava chegando sua hora. Sabe por que penso isso? Uma semana antes, no meu aniversário e assim que cheguei em casa pronta pra curtir a cozinha com ela eu tive uma surpresa.

Vovó me entregou uma caixa de presente e assim que abri estava lá seu velho caderno de receitas e seu avental preferido. Meus olhos encheram de lágrimas sem eu entender o motivo para ela me dar aquilo.

— É seu presente de aniversário, de agora em diante eles e essa cozinha são seus!

Ela tinha feito meu dia, na verdade minha vida, com aquelas palavras, mesmo que uma semana depois eu tivesse que estar me despedindo dela.

O tempo passou e eu usava as receitas dela apenas em ocasiões especiais, o avental permanecia pendurado no meu quarto como um lembrete dela. Mas a angústia no peito era de mais, eu precisava dar um jeito naquilo, me resolver com essa parte da minha vida. Foi aí que me inscrevi no curso e fui fazer o que eu amava pela primeira vez na vida.

Intercalando os estudos com o trabalho disse para mim mesma que era só pra conseguir um diploma para pendurar na parede, sabendo que isso a deixaria orgulhosa, mas eu não consegui parar por aí.

Comecei a procurar um emprego na área e consegui, meu pai surtou e tivemos a nossa pior briga em todos os anos. Ficamos meses sem se falar e eu me mantive firme em minha decisão de largar a contabilidade para viver da culinária, pegava um cliente aqui e outro ali para compensar as contas no final do mês, mas estava transbordando de felicidade.

Meses depois ele apareceu com um pedido de desculpas e um convite para dar uma volta no centro da cidade, enquanto andávamos meu pai parou em frente a um prédio antigo, com dois andares, parecia ter sido uma loja no passado e agora estava desocupada. Nós entramos demos uma olhada no lugar e no final ele me perguntou o que eu achava do lugar, porque era meu e não tinha volta.

Ele tinha me dado o que eu tanto queria, minha própria cozinha.

Então depois de muita reforma, entre trancos e barrancos, meses de dificuldades e apenas alguns dias de glória o Cantina da Nice existia há dois anos, um restaurante calmo, aconchegante e bem apessoado, em um bairro bem movimentado no centro da cidade.

Meu xodó era rodeado de prédios e escritórios, meus clientes na maioria das vezes passavam na correria do horário de almoço e eu fazia o possível para trazer um pouco de luz para o dia deles, afinal já estive desse outro lado.

E é esse amor que estava me mantendo, ás duas da manhã de um sábado, na cozinha testando uma massa nova. O restaurante não abria aos domingos e eu aproveitava para testar novas receitas para o cardápio até tarde, geralmente estaria em casa, mas a cozinha do restaurante era bem mais espaçosa para toda aquela bagunça que eu estava fazendo.

Me virei pegando um pedaço do brownie jogado na bancada escorrendo chocolate por entre os dedos quando mordi e voltei a bater a massa no mesmo ritmo que balançava os quadris com a música na rádio.

O som me distraiu por um momento, mas assim que a batida em meus fones encerrou, dando fim a música, eu escutei um barulho estranho na porta dos fundos.

Tentei apurar os ouvidos arrancando os fones e os cochichos se tornaram mais nítidos. A conversa, que parecia acontecer entre três homens mostrava que eu estava muito ferrada por estar aqui a essa hora da noite e sozinha, justo no dia em que decidiam invadir meu restaurante para roubar!

Meu medo durou um segundo até que a realidade do que estavam fazendo aqui me atingiu. Eles iam roubar meu restaurante!

Filhos de uma vaca! Me perdoe a mãe deles, mas eles iam aprender hoje que não se brinca com Maria Nascimento!

Peguei o rolo da massa e testei o peso em minha mão, não ia fazer estrago suficiente. Então troquei para uma faca enorme que estava na pia, eu não queria matar alguém a última coisa que precisava era de alguns anos na cadeia. Decidi por fim pegar uma frigideira grande, pesada o suficiente para desacordar alguém sem matar o infeliz. Perfeito!

Me posicionei ao lado do corredor que daria na cozinha e esperei que quem quer que fosse saísse da área de funcionários e viesse me enfrentar.

Assim que o ladrão colocou o pé na minha cozinha eu bati com toda a força a frigideira na sua nuca o fazendo despencar no chão como jacá podre.

— Isso é pra você aprender que com Maria não se mexe! — falei me sentindo vitoriosa por ter conseguido acabar com isso sem grandes estragos.

— Acho melhor você pensar de novo moça. — a voz rouca atrás de mim me mostrou que eu tinha me esquecido de algo.

Puta que pariu Maria, como foi se esquecer do outro. Na verdade outros. Os dois homens me encaravam com caras nada boas.

— Solta a panela ai dona. — o outro avisou apontando um pequeno revólver em minha direção.

Aquilo não estava nos meus planos, não estava mesmo. Talvez eu devesse ter ficado com a faca?

— Tá tudo bem, eu solto, solto agora. Só abaixa esse negócio ai, por favor! — murmurei apreensiva.

Pior do que passar uns dias na cadeia era passar o resto da vida morta. Entenderam alguma coisa? Nem eu.

Soltei a frigideira imediatamente no chão e, cá entre nós, se eu tivesse calculado não teria saído tão perfeito. O objeto acertou em cheio o pé do homem com a arma o fazendo gritar e apertar o gatilho em reflexo, antes de se abaixar para segurar o pé.

O problema maior veio depois, seu amigo nem um pouco feliz e totalmente burro me deu um belo soco. Minha cabeça virou para o lado oposto e eu perdi o equilíbrio. Resultado? Eu pisoteei a mão do cara machucado antes de despencar de bunda no chão.

— A moça não sabe cooperar não. — o único que permanecia intacto gritou. — Amarra ela ai!

A ameba em forma de homem se aproximou me empurrando contra a parede e eu me encolhi, dessa vez o medo se espalhando por minhas veias. Nenhum resquício da coragem diante da arma apontada para minha cabeça.

Senhor onde que eu fui me meter? Prometo que se me livrar dessa eu vou ser uma pessoa mais ajuizada. Dou um jeito de pagar essa promessa, juro que dessa vez eu falo sério! Implorei em pensamento com os olhos fechados com muita força, como se isso fosse intensificar minha oração eu torcia que algum santo, anjo, duende, qualquer coisa ouvisse minhas preces a e me tirasse dessa com vida.

Foi aí que eu senti o homem que me amarrava se afastando de mim e abri um olho só apreensiva com o que poderia ser agora, mas o que vi foi ele caindo contra meu armário de panelas. Algumas delas despencaram caindo no chão, assustando qualquer um pelo barulho ensurdecedor, mas me chamando a atenção para o meu salvador.

Algumas pessoas podem dizer que quando conheceram o cara da sua vida ouviram sinos tocar, eu ouvi panelas bater. Talvez fosse um sinal de vovó Nice.

O homem, alto e aparentemente forte de mais, se abaixou no chão puxando pelo colarinho o ladrão que carregava a arma, e que já se atrapalhava para levantar do chão, com mais um soco ele o largou inconsciente ali mesmo.

Na próxima ele aprende a ficar na frente e levar a panelada pra não sofrer tanto!

Então quando meu salvador se virou eu vi que já o conhecia. Não havia sido enviado por vovó coisa nenhuma, tinha vindo era do outro lado da rua, do bar de motoqueiros.

O cabelo grande e loiro, caindo nos ombros de forma sempre desordenada, a barba cheia e chamativa, eram a marca registrada do dono do estabelecimento em frente ao meu. Isso sem contar os braços e pescoço repletos de tatuagens, e se eu ousar imaginar sei que todo o corpo dele, até a bunda branca estão cobertos de desenhos também. E não me deixem esquecer o colete de couro apertado sobre o corpo, com o que parecia ser uma logo ou Patch como chamam.

Já tínhamos nos visto várias vezes, mas nunca falamos nada além de bom dia, isso quando acontecia o milagre de nos vermos, já que nossos horários não eram em nada parecidos.

— Você está bem? — a voz forte me atingiu do outro lado da cozinha me fazendo voltar para terra de foguete.

Como podia uma pessoa ter uma voz tão grave assim? Não parecia ser possível, o timbre do homem retumbou dentro de mim. Isso... isso... estava prestes a pedir que ele falasse de novo só para testar se aconteceria de novo, mas o olhar que ele me deu foi como se eu estivesse morrendo agachada no chão.

— Eu estou... Quer dizer acho que estou. — resmunguei tentando focar na pergunta dele. — Pensei que podia lidar com eles, mas não esperava três deles.

— Não sei se você é maluca ou corajosa de mais. — o ouvi resmungar se abaixando e passando um cinto em volta das mãos dos homens os mantendo algemados. Não me passou despercebido o insulto, mas eu estava concentrada de mais em sua desenvoltura em imobilizar os homens com o cinto para retrucar. — Aqui, liga pra polícia.

Antes mesmo que eu pudesse responder ele jogou um celular na minha direção, eu o encarei confusa ainda sentada no chão, sei que parecia uma criança perdida, mas não confiaria nas minhas próprias pernas, depois de hoje não deveria confiar no meu julgamento também.

Deslizei o dedo sobre tela que se desbloqueou sem precisar de mais. Confusa ergui meus olhos para ele, que seguia concentrado amarrando os homens. Que tipo de homem não usa senha Brasil?

Sacudi a cabeça e foquei em falar com a atendente.

— Já estão a caminho. — murmurei quando o homem tatuado se aproximou me puxando pelos braços.

— Te acertaram feio. — a voz parecia ainda mais grossa assim de perto, mas seus dedos tocaram meu rosto com delicadeza, o virando de um lado para o outro analisando o machucado do soco.

Ele me manteve apoiada contra seu corpo e tão perto do jeito que estávamos eu era capaz de reparar melhor em todas as tatuagens e nos pelos espalhados pelo rosto. Era uma confusão de cabelos grandes, sobrancelhas grossas e a barba grotesca.

Não que ele não fosse bonito, ele era e dava para ver de longe, mas o meu tipo de homem era algo bem mais delicado do que aquele homem das cavernas a minha frente.

A comoção do outro lado da rua foi grande, quando a polícia chegou, conseguimos atrair a atenção do bar inteiro.

— Vem, vamos lá dentro tomar alguma coisa pra você se acalmar. — meu salvador tatuado falou e só então eu me dei conta que ainda estava sobre seus cuidados.

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