
Alma Partida, Sonhos Quebrados
Capítulo 3
Os dias que se seguiram foram um borrão de dor e raiva. Lucas se recusava a sair de casa, transformando nosso lar em um campo de batalha silencioso e tenso. Ele tentava agir normalmente, preparava o café da manhã, perguntava sobre o meu dia, mas suas tentativas de normalidade só aumentavam meu nojo. Cada gesto de carinho parecia uma manipulação.
"Duda, precisamos conversar sobre a Sofia," ele disse uma manhã, enquanto eu me servia de café, evitando seu olhar.
"Não há nada para conversar. Ela é minha filha."
"Ela é nossa filha," ele corrigiu, a voz carregada de uma falsa paciência. "Você não pode me afastar dela. Pense no que um escândalo, um divórcio, faria com ela. Ela precisa de nós dois."
A menção de Sofia era sua arma mais poderosa, e ele sabia disso. Ele estava usando nossa filha como um escudo, como uma âncora para me manter presa a ele.
"Você devia ter pensado nela antes de se casar com outra mulher!" cuspi as palavras, o café tremendo na minha xícara. "Você é a última pessoa que pode falar sobre o bem-estar da Sofia agora."
Eu me virei e saí da cozinha, mas suas palavras ecoaram na minha mente. A verdade é que eu estava aterrorizada. Sofia já estava sentindo a tensão. Ela começou a ter pesadelos, a chorar sem motivo. E a humilhação não estava confinada às paredes da nossa casa.
Meu celular não parava de apitar com notificações. Fotos minhas e de Lucas, lado a lado com fotos dele e de Camila, circulavam online. Os comentários eram cruéis. "A outra" , "destruidora de lares" , "interesseira" . As reservas no "Sabor & Alma" foram canceladas em massa. Minha reputação profissional, construída com tanto suor, estava sendo demolida tijolo por tijolo. Recebi e-mails de ódio, mensagens nas redes sociais me chamando dos piores nomes. As pessoas me julgavam sem conhecer a história, pintando-me como a vilã. Eu me sentia sufocada, encurralada pela opinião pública.
Numa tarde, a frustração transbordou. Lucas estava no escritório, falando ao telefone, provavelmente tentando conter os danos em seus próprios negócios. Eu entrei no nosso quarto, o quarto que compartilhamos por três anos, e comecei a arrancar suas roupas do armário. Camisas, ternos, gravatas, tudo foi jogado no chão em uma pilha disforme. Peguei um vaso de cristal que ele me dera de aniversário e o atirei contra a parede. O som do vidro se quebrando me deu uma satisfação momentânea e doentia.
Lucas entrou correndo no quarto, o telefone ainda na mão. Ele olhou para a bagunça, para o meu rosto manchado de lágrimas e raiva, e desligou a chamada.
"Duda, o que você está fazendo? Se acalme."
"Me acalmar?" gritei. "Minha vida está destruída e você me pede para ter calma? Saia da minha casa! Agora!"
Ele não se moveu. Apenas ficou ali, olhando para mim com uma expressão de dor e cansaço. Ele não gritou de volta, não tentou me impedir. Sua passividade era enlouquecedora. Era como se ele estivesse esperando a tempestade passar, acreditando que depois tudo voltaria ao normal. Mas nada voltaria ao normal.
No dia seguinte, exausta de lutar em casa, decidi ir até o escritório dele. Eu precisava de respostas, de uma solução, e ele não me daria isso em casa. Peguei o carro e dirigi até o imponente prédio comercial onde ficava sua empresa de exportação de café.
Quando cheguei à recepção, a secretária, uma jovem que sempre me cumprimentou com um sorriso, me barrou.
"Sinto muito, Sra. Maria Eduarda, mas o Sr. Lucas não pode recebê-la agora."
"Eu sou a esposa dele. Eu vou entrar."
Tentei passar, mas ela se colocou no meu caminho, o rosto contorcido em desconforto.
"Ele deu ordens estritas para não ser interrompido. Por ninguém."
A humilhação de ser barrada na empresa do meu próprio marido foi a gota d'água. Ele estava me controlando, me isolando, me tratando como um problema a ser contido. Eu me senti impotente, uma estranha na minha própria vida. Voltei para o carro, derrotada, a raiva se transformando em um desespero frio.
Mas o pior ainda estava por vir.
Fui buscar Sofia na escola mais cedo naquele dia. Encontrei-a encolhida em um canto do pátio, chorando baixinho. Seu rostinho estava vermelho e ela tinha um arranhão na bochecha.
"Meu amor, o que aconteceu?" perguntei, agachando-me ao lado dela.
Ela soluçou e se agarrou a mim.
"Eles disseram que o papai tem outra mamãe. E que você é má."
Meu coração se partiu em mil pedaços. A toxicidade do escândalo tinha alcançado minha filha, manchando sua inocência. Abracei-a com força, tentando protegê-la do mundo que eu não conseguia mais controlar.
Enquanto a consolava, vi um menino se aproximando. Ele parecia ter a mesma idade de Sofia, talvez um pouco mais velho. Ele era o filho de Camila. Eu o reconheci das fotos que circulavam online. E então, algo me atingiu com a força de um trem.
O menino. Ele era a imagem cuspida e escarrada de Lucas. Não apenas uma semelhança passageira, mas os mesmos olhos, o mesmo formato do rosto, o mesmo jeito de inclinar a cabeça. Era como olhar para uma versão em miniatura do meu marido.
O ar me faltou. Aquela criança não era apenas filho de Camila. Era inegavelmente filho de Lucas. A bigamia não era apenas legal, era real, concreta, com uma criança como prova viva. A promessa dele de que "não era o que parecia" soou como a mais cruel das piadas na minha cabeça. A verdade estava ali, na minha frente, no rosto de uma criança que não era a minha.
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