
Alicia entre o Céu e o Inferno - 2º versão
Capítulo 3
Sophia não foi para a escola no dia seguinte, e nem no próximo, eu fiquei esperando por ela no portão, queria pedir desculpas, mas ela não apareceu, pedi para Helena sobre ela e ela disse que Sophia tinha decidido fazer uma viagem, que ela precisava respirar outros ares, tentei aceitar isso bem, talvez fosse melhor mesmo deixar ela processar tudo, esfriar a cabeça e talvez voltar a ser a Sophia de antes, mas eu tinha certeza, certeza absoluta de que isso não aconteceria, Sophia não voltaria a ser a doce Sophia de antes.
Alguns dias se passaram e Sophia ainda não tinha voltado da sua viagem, eu realmente já estava começando a me sentir muito mal com isso, Caled continuava a vir me buscar todos os dias e passava a maioria das tardes comigo, para a preocupação de Helena que não gostava muito disso, e eu não podia culpa-la, afinal sabia o quanto ela tinha sofrido com tudo o que tinha acontecido, no fundo ela só estava preocupada comigo, estava fazendo o papel de mãe, mãe que eu nunca tive.
Depois de duas semanas fiquei sabendo que Sophia estava de volta, me animei, fui para a escola entusiasmada, eu daria um jeito de falar com ela, de me desculpar, eu tinha tudo na ponta da língua, literalmente tinha ensaiado em frente ao espelho, eu não queria perder nossa amizade, ela era mais que uma amiga para mim, era a irmã que eu não tinha, eu precisava dela do meu lado, mas Sophia não foi à escola.
No dia seguinte, também não e no terceiro mais uma vez não.
Era sexta feira e eu já estava saindo da escola quando vi o carro do motorista de Sophia passando, olhei para o lado e vi Caled parado me esperando, ele sabia que eu tinha visto, caminhei até ele.
- Era o motorista dos Bill... Sophia estava no banco de trás!
Caled olhou para baixo.
- Ele foi busca-la na escola como sempre.
Pisquei várias vezes tentando compreender, só então entendi, Sophia também tinha trocado de escola, ela não queria mais estudar comigo, mordi o lábio inferior me sentindo enganada.
- Esse tempo todo, me ouvindo falar dela e você não me contou?
- Desculpa Alicia, pensei que fosse melhor se deixasse isso para trás.
- Ela é minha amiga! Minha irmã! Eu me quebrei em mil pedaços por vocês, para esconder coisas que nem eu tenho certeza se são certas ou não!
- Alicia, acalme-se...
- Por quê? Porque eles ainda estão de olho? Eu quero que eles se explodam! Eu perdi a Sophia para sempre por causa dessas mentiras...
- Ali... Eu sinto muito...
Eu podia ver nos olhos dele que ele estava arrependido por não ter me contado a verdade, me afastei mesmo assim.
- Eu preciso de um tempo, eu preciso respirar, eu preciso ir para casa...
- Eu levo você.
- Não Caled, eu vou pegar um táxi, te vejo amanhã.
Eu me afastei dele e segui sozinha até o ponto de táxi, eu amava Caled amava muito, mais que minha própria vida, tinha mentido por ele, tinha me transformado em outra pessoa por ele, mas não aceitaria que ele mentisse para mim, ele sabia o quando Sophia era importante para mim, ele sabia que Sophia era como uma irmã, e eu não a perderia assim tão facilmente.
Durante a tarde Helena ficou na casa dos Bill me disse que tinha umas contas para fechar e que acabaria se atrasando para o jantar, olhei pela janela e vi o tempo nublar e pesar, respirei fundo, sentia falta de ter alguém com quem conversar, talvez eu devesse ligar para Caled e pedir para ele vir me ver, eu não conseguia ficar longe dele por muito tempo, ele era a cocaína que meu corpo viciado precisava.
Vi os arbustos se mexerem do lado de fora e algo sair deles, estranhei assim que percebi que era um gatinho, um lindo gato preto de pelo brilhante, ele olhou para casa como se soubesse que eu estava ali e miou, quem teria jogado um gatinho ali? Aquilo era uma floresta, um gato indefeso como aquele não sobreviveria ali, decidi sair e pegá-lo, iria alimentá-lo e depois veria com Helena o que fazer, mas assim que eu saí ele pareceu se assustar de mim e acabou correndo para dentro da trilha, tentei segui-lo, mas ele correu ainda mais rápido.
- Ora, vamos gatinho... Seja menos arrisco, só quero te ajudar...
Ele parou e me olhou como se me entendesse, apressei o passo agora eu o pegaria, porém quando estava quase chegando até ele, mais uma vez ele correu, parecia mesmo que ele queria que eu o seguisse, nesse instante eu parei, como assim ele queria que eu o seguisse? Isso estava estranho demais, talvez eu devesse voltar para casa, porém quando eu já estava dando as costas para ele eu o vi subir no beiral da ponte, olhar para mim e mais uma vez miar, voltei a olhar assustada, ele acabaria caindo ali, meu Deus eu precisava tirar aquele animalzinho dali, tentei andar rápido, mas sem fazer movimentos bruscos para não assustá-lo, tinha medo que ele acabasse caindo, eu o estava quase alcançando, mais uns vinte centímetros e poderia segurá-lo, mas então seus olhos me olharam como se desse risada de mim e então ele saltou para dentro do vapor que subia da cachoeira caindo no cânion.
Pulei tentando agarrá-lo, mas não consegui mais vê-lo, permaneci um tempo olhando para o nada, até que ouvi uma voz atrás de mim.
- Animais tristes e insignificantes os gatos, quase tão tolos quanto os humanos...
Olhei para trás e encontrei os olhos de um senhor de meia idade, ele estava muito bem vestido, com ser terno preto alinhado, os cabelos penteados para trás e um rosto belo demais para ser normal, e não era, seus olhos como os de um gato eram tão amarelados quanto os de Caled, aliás, tinha muitas outras semelhanças com Caled ali, senti um arrepio percorrer minha espinha.
- Quem é você?
Ele riu como se eu tivesse feito uma piada.
- Realmente, nada diferente do esperado, os humanos são realmente criaturas ingênuas, perguntam "quem é você"? Esperando ouvir a verdade, como se o assassino fosse revelar sua verdadeira face assim tão facilmente, "olá, sou seu assassino e vou te matar"...
Tremi, esse homem não era meu amigo.
Ele se aproximou de mim como se quisesse tocar em meu rosto, mas seus dedos pareceram sentir dor antes mesmo de se aproximarem, então afastou a mão, mas manteve o olhar frio.
- Interessante, é uma garota realmente interessante, não me impressiona que ele tenha caído de amores por você...
Dei um passo para trás pensando em correr para longe dali, mas nesse instante ouvi a voz do meu salvador que tinha chegado a tempo.
- Papai, afaste-se dela.
Como fumaça Caled se pôs entre nós, eu tentava me concentrar em meus poderes para se caso fosse necessário ajudar Caled a lutar, porém meu coração estava disparado e a única coisa que minha mente focava era naquela frase "papai, afaste-se dela"... "Papai"... Era assim que ele o tinha chamado, então, esse era o pai de Caled? Esse era Asmodeus?
- Filho, eu gostaria de abraça-lo, mas tem algo em você que me irrita, esse cheiro, seu corpo está diferente, eles mudaram você.
- Eles me salvaram!
- Não eles mudaram você, transformaram você em outra coisa, eles nem ao menos deixam você usar todo o seu poder, quanto é que eles te ofereceram? 30... Talvez 40%? Eu nunca limitei você, eu sempre o deixei livre para ser quem era e olha só o que aconteceu... Tudo por causa dessa garotinha aspirante a anjo!
- Eles não teriam precisado me modifica se você tivesse conseguido segurar o Ágares!
- Cale-se! Ágares foi um fiel seguidor! Ele tentou me alertar sobre você, mas eu não acreditei, eu achei que você estava agindo dessa forma por que tinha um plano maior para nós e veja só o meu erro, os planos não eram seus, eram deles!
- O que você quer afinal pai?
Asmodeus sorriu de canto e se afastou um pouco.
- Nada além do que me deve ser dado por direito, eles roubaram o meu ceifador, agora vou pegar um dos deles para mim, mande o aviso para os seus, estamos de lados opostos agora filho, e eu não vou parar até ter o que eu desejo.
Segundos depois ele desapareceu diante dos nossos olhos como em um a nuvem de fumaça, um frio percorreu todo meu corpo e eu o abracei com força.
- O que foi isso? Ele não estava morto ou preso, ou algo assim? Miguel não o tinha lacrado?
- Lacrou, mas ele se libertou há algum tempo.
- Como?
- Asmodeus se alimenta de maldades, de pessoas rancorosas, invejosas, pessoas capazes de tudo para alcançar objetivos, ganancia, luxúria, ira, isso é o que o fez estar de volta.
- Então os maus estão vencendo? É isso que está dizendo?
- Sabe aquilo que ele me chamou?
- Sim... Ceifador, o que significa?
- Quando alguém se torna muito mau, quando alguém passa de todos os limites, um ceifador é enviado, eu era um ceifador, por que podia ler as mentes mais sujas e me infiltrar nos lugares mais impuros, eu ajudei a libertá-lo Alicia, levando pessoas que estavam no fundo do poço até ele.
Eu mordi o lábio, Caled tinha cometido muito mais erros que eu poderia imaginar, tantos anos vagando pela terra daquela forma, não tinha como imaginar tudo que ele já tinha feito.
Caled me acompanhou em silêncio até em casa e paramos em frente à casa de Helena.
- Por que estava lá Alicia?
- Ele me atraiu com um gato, não pensei que fosse uma armadilha, até chegar até a ponte.
- Um gato? Foi fácil assim? Não sabia que gostava tanto de gatos.
- Desculpa.
Ele suspirou.
- Desculpe a mim, estou um pouco irritado com tudo isso e descontando na pessoa errada obviamente.
- Aquilo que ele falou na ponte, sobre seus poderes, é verdade?
Caled olhou para baixo com as mãos nos bolsos.
- Eles ainda não confiam totalmente em mim, é normal me limitarem.
- E acha que um dia confiarão?
- Não sei, mas estou tentando me mostrar disposto e merecedor.
Eu fiz um carinho em seu rosto.
- Senti tanta sua falta hoje.
Ele me abraçou com força.
- Por favor, não diga mais que quer um tempo, quase me destruiu antes.
- Eu estava com raiva, desculpa.
Ele me beijou longamente, um vento forte nos acertou nos fazendo nos afastar, Caled olhou para as árvores que sacudiram com o vento e para a claridade que veio do meio delas.
- Preciso ir.
- Como assim?
- Estão me chamando.
- Não estou ouvindo nada.
Ele sorriu.
- Nem todos ouvem.
Eu o vi se afastar e entrar em meio à floresta e fiquei parada o observando desaparecer, como assim "nem todos ouvem" eu era um deles não era? Eu deveria ouvi-los melhor do que o próprio Caled que não era totalmente aceito.
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