
Aliança Quebrada, Segredos Bilionários: Veja-me Brilhar
Capítulo 2
O cheiro a atingiu antes que ele terminasse de falar.
Era gardênia. Pesado, enjoativo, doce. Era o perfume que Kátia Bartô usava desde os dezenove anos. Grudava no casaco de lã de Quion, irradiando dele em ondas, preenchendo o espaço entre eles.
Elódia levantou-se. Seus olhos travaram no colarinho dele.
Lá, nítido contra a goma branca e impecável da camisa, havia uma mancha vermelha. Não era uma transferência sutil. Era uma marca deliberada.
Quion viu que ela olhava. Não recuou. Esfregou a têmpora com dois dedos, o rosto se contorcendo em uma careta de exaustão.
- Não me olhe assim, Elódia - disse ele, passando por ela em direção ao bar. - Foi apenas um jantar de negócios. Os investidores eram grudentos.
- Negócios - repetiu Elódia. Sua voz estava rouca.
- Sim. Negócios. - Quion serviu-se de uma água. - Algo que você não entenderia.
Elódia não se moveu para pegar o casaco dele. Não perguntou se ele estava com fome. Abaixou-se até a mesa de centro e pegou a pasta azul.
Deslizou-a pela superfície de mármore. Fez um som seco e áspero.
Quion olhou por cima da borda do copo. - O que é isso? Dona Lia pediu demissão? Ou é um novo cardápio para a semana?
- São os papéis do divórcio - disse Elódia. - Eu já assinei.
Quion congelou. O copo parou na metade do caminho até a boca. Ele piscou, processando as palavras, e então uma risada curta e incrédula escapou de seus lábios.
- Papéis do divórcio? - Ele colocou o copo na mesa, com um pouco de força demais. A água transbordou. - Elódia, sério? Essa é a nova estratégia? Ameaçar ir embora para me fazer prestar atenção em você?
- Não estou ameaçando - disse ela. - Estou indo embora.
- Porque cheguei tarde em casa? - Quion balançou a cabeça, olhando para ela com pena. - Você está sendo histérica. Tome um Xanax e vá dormir.
- Espero que você e Kátia sejam felizes - disse Elódia. - Não precisam mais planejar festas de gala secretas. Pode levá-la em público.
O rosto de Quion escureceu instantaneamente. A diversão desapareceu, substituída por uma raiva fria e afiada.
- Você andou me espionando? - acusou ele, aproximando-se. Ele se agigantava sobre ela, usando sua altura como arma.
- Não precisei espionar. Você deixou seu iPad na mesa. Ele sincronizou.
- Não tenho tempo para esse ciúme - retrucou Quion. - Tenho uma empresa para administrar. Tenho problemas reais.
- Não mais - disse Elódia. Ela se abaixou e pegou a bolsa de lona.
Quion a observou levantar a bolsa barata. Seus olhos se estreitaram.
- Se você sair por aquela porta - disse ele, a voz caindo para um registro baixo e perigoso -, eu vou cortar tudo. O fundo fiduciário. Os cartões de crédito. O motorista. Tudo para no segundo em que você cruzar aquela soleira.
Elódia jogou a bolsa no ombro. - Faça isso.
- Você não vai durar uma semana nesta cidade - zombou Quion. - Você não tem habilidades. Não tem emprego. Você não tem nada sem o sobrenome Naider.
- Vou arriscar.
Ela caminhou ao redor dele.
Quion entrou na frente dela, bloqueando o caminho para o saguão. - Leia o acordo pré-nupcial, Elódia. Se você sair, não leva nada. Nem um centavo. Vou garantir que você passe fome.
Elódia olhou para cima, para ele. Pela primeira vez em três anos, não viu um deus. Viu um homem com uma mancha no colarinho e medo nos olhos.
- Não preciso do seu dinheiro, Quion - disse ela suavemente. - Guarde-o. Kátia tem um gosto caro para bolsas.
Ela desviou dele. Ele não a agarrou. Estava chocado demais.
Elódia abriu a pesada porta de mogno. O ar frio da noite invadiu, mordendo seu rosto exposto.
- Não venha rastejando de volta quando perceber que não consegue pagar uma passagem de metrô! - gritou Quion atrás dela.
Elódia não se virou. Puxou a porta, fechando-a atrás de si.
Boom.
O som ecoou pela casa enorme.
Lá dentro, Quion ficou sozinho no saguão. Seu coração martelava contra as costelas, um ritmo frenético que ele não conseguia explicar. Era apenas uma birra. Ela estaria de volta no café da manhã.
Lá fora, Elódia caminhava.
A entrada da garagem tinha quatrocentos metros de comprimento. O vento cortava através de sua jaqueta fina, mas ela não parou. Caminhou até chegar à estrada pública.
Pegou o celular e abriu o aplicativo do Uber. Não ligou para o serviço privado. Pediu um Toyota Camry.
Dez minutos depois, estava sentada no banco de trás de um carro que cheirava a purificador de ar de pinho e cigarros velhos.
- Para onde? - perguntou o motorista. Era um homem mais velho com sotaque carregado.
- Centro - disse Elódia. - Edifício Sterling.
O celular vibrou na mão dela. Uma notificação do banco.
ALERTA: Cartão Suplementar final 4098 foi suspenso pelo Titular da Conta Principal.
Ele não tinha esperado nem cinco minutos.
Elódia não entrou em pânico. Não chorou. Colocou o polegar no aplicativo do banco e trocou de perfil.
A tela atualizou. A interface mudou da conta conjunta do Chase para um painel seguro e criptografado.
Conta: Cooperativa de Crédito Suíça / Titular: Solaris
Saldo: 1.540.000.000 CHF
O número se estendia pela tela, uma soma de dez dígitos acumulada de investimentos iniciais em Bitcoin e taxas de licenciamento silenciosas de seus algoritmos. Era o suficiente para comprar a propriedade dos Naider dez vezes.
Ela fechou o aplicativo.
Abriu seus contatos. Rolou até "Marido".
Tocou em Editar. Apagou a palavra "Marido" e digitou Quion Naider.
Então tocou em Bloquear Chamador.
De volta à mansão, Quion chutou a lata de lixo na sala de estar. Ela bateu contra a parede, espalhando seu conteúdo.
Uma bola amassada de papel brilhante rolou pelo tapete. Era a foto do ultrassom.
Quion olhou para ela, presumiu que fosse um recibo ou um lenço de papel, e passou por cima.
Pegou o telefone e ligou para Arlindo Breu.
- Cancele os cartões dela - latiu Quion ao telefone. - E diga à segurança no portão que, se ela tentar voltar esta noite, não deve ser admitida. Deixe-a dormir na rua.
No banco de trás do Uber, Elódia observava o sol começar a sangrar no horizonte, pintando o horizonte de Manhattan em tons de roxo machucado e ouro.
Ela respirou fundo. Doía, mas o ar era dela.
Você pode gostar





