
Aliança com o Mafioso
Capítulo 3
Ainda sonolento, sinto o toque firme em meu ombro, acompanhado pela voz grave do soldado de meu pai. Ele me acorda nas primeiras horas da manhã, rompendo o véu do sono com urgência. Meus olhos se abrem lentamente, enquanto minha mente luta para se livrar do torpor noturno.
- Seu pai quer ver você agora - Aos poucos, percebo a gravidade em sua expressão e a seriedade em suas palavras. Ele me informa que meu pai está me aguardando e que é necessário que eu vá imediatamente encontrar ele.. Um arrepio percorre minha espinha, se misturando à surpresa e ao nervosismo que emergem de meu subconsciente. O que poderia ter acontecido para meu pai precisar de mim com tanta urgência?
Deixando a sonolência para trás, salto da cama e começo a me vestir rapidamente. Enquanto coloco minhas roupas, minha mente se enche de questionamentos e especulações. Será que há algum problema? Será que meu pai está em perigo? Uma mistura de preocupação e determinação começa a crescer dentro de mim.
Agora vestido e pronto para partir, encontro o soldado do lado de fora do meu quarto, impaciente. Seu olhar sério me lembra da importância de minha presença imediata. Sigo ele rapidamente, com o coração acelerado, tentando antecipar o que me aguarda.
Enquanto caminhamos pelos corredores, a casa ainda está mergulhado em silêncio. Apenas o som abafado de nossos passos ecoa pelas paredes de pedra. Minha mente se perde em pensamentos, tentando entender a urgência desse encontro com meu pai. Será uma reunião estratégica? Uma situação de guerra? Ou algo pessoal, relacionado à nossa família?
Finalmente, chegamos à sala onde meu pai está me aguardando. Ele está de pé, imponente e orgulhoso como sempre, mas vejo uma sombra de preocupação em seus olhos. Seus traços enrugados contam histórias de batalhas passadas, mas também revelam o amor e a proteção que ele tem por sua família.
Ao entrar na sala, meu pai se vira para mim e seu semblante se suaviza levemente. Ele me chama pelo nome e, nesse momento, sinto uma mistura de alívio e apreensão. Ele me pede para me sentar, e seu tom grave e firme ecoa pela sala.
- Aí está você.
- O que aconteceu de tão importante para me tirar da cama uma hora dessa? – pergunto com o cenho me aproximando, diminuindo os passos ao ver uma mulher desmaiada aos pés do meu pai.
Olho com preocupação para a mulher de cabelos loiros escuros que está desmaiada à minha frente. Seu rosto está oculto pelos fios de cabelo que caem sobre ele, tornando difícil identificar de imediato. No entanto, não posso ignorar a situação em que ela se encontra.
Meus olhos percorrem seu corpo e noto que suas mãos e pés estão amarrados com firmeza. É evidente que quem a capturou queria garantir que ela não pudesse escapar facilmente. A visão das cordas apertadas em torno de seus pulsos e tornozelos faz com que eu sinta uma pontada de raiva diante de tamanha covardia.
Rapidamente me ajoelho ao lado dela, estudando cada detalhe de sua aparência. Observo sua respiração calma e regular, indicando que ainda está inconsciente. É um alívio constatar que ela está apenas adormecida e não ferida.
Com cuidado, examino as amarras que a mantêm presa. A corda é grossa e bem amarrada, evidenciando a intenção de manter ela cativa. Suspiro, percebendo que será necessário algum esforço para libertar ela. Uma mistura de determinação e preocupação toma conta de mim enquanto pondero sobre a melhor maneira de proceder.
Decido começar desfazendo as amarras em seus pulsos, trabalhando meticulosamente para soltar os nós apertados. A cada movimento cuidadoso, evito causar qualquer desconforto adicional. Enquanto desfaço os laços, minha mente busca respostas sobre quem ela é e como chegou a essa situação, mas as respostas ainda estão ocultas.
Com as mãos finalmente livres, continuo a desamarrar suas pernas com a mesma atenção e delicadeza. Levo algum tempo para garantir que as cordas estejam soltas o suficiente para permitir sua liberdade quando ela despertar.
Assim que termino de desamarrar ela, me afasto ligeiramente para observar sua reação quando acordar. Fico atento aos primeiros sinais de consciência, esperando que ela desperte gradualmente e se sinta segura em minha presença.
Enquanto ela retorna à consciência, minha prioridade é garantir que ela se sinta protegida e acolhida. Estendo minha mão gentilmente, oferecendo apoio e auxílio. Meu objetivo é mostrar que estou ali para ajudá-la e que pode confiar em mim.
A medida que seus olhos se abrem e seu olhar se encontra com o meu, sinto algo mudar dentro de mim, só não sabia o que exatamente, ao sustentar aquele olhar confuso e amedrontado.
- Gostou do presente?
- O quê? – digo baixo, erguendo a cabeça encontro o olhar do meu pai fixo em mim, percebendo que o sorriso em seu rosto se ampliou.
- Ela é meu presente para você.
Fico momentaneamente atordoado com as palavras do meu pai: "ela é meu presente para você". As nuances e implicações dessa declaração se desdobram em minha mente, me deixando perplexo e confuso. É difícil processar a ideia de alguém ser oferecido como um presente pessoal.
Enquanto tento compreender o significado por trás dessas palavras, meu olhar busca a mulher que está diante de mim, que havia voltado a desmaiar. Uma mistura de emoções contraditórias preenche meu peito, oscilando entre a perplexidade, a incerteza e até mesmo a indignação.
Agora que considero a possibilidade de ser presenteado com uma pessoa, minha mente começa a formular várias perguntas. Quem é essa mulher? Por que meu pai a trouxe até mim? Qual é o propósito por trás desse gesto? Essas questões se multiplicam, mas não encontro respostas imediatas.
Olho novamente para o rosto adormecido da mulher, tentando decifrar alguma pista em sua expressão. No entanto, suas feições permanecem imóveis, revelando pouco sobre sua identidade ou intenções. Me sinto dividido entre a curiosidade e a desconfiança, sem saber se devo aceitar esse "presente" ou questionar as motivações obscuras por trás dele.
Meu olhar se volta para meu pai, cuja expressão aguarda uma reação minha. Sua expectativa intensifica a pressão que sinto no momento, exigindo uma resposta de mim. Respiro fundo, buscando equilíbrio em meio ao turbilhão de emoções e pensamentos conflitantes.
- Como assim? Do que esta falando? – questiono.
- Ela é sua para fazer o que quiser.
- E... de onde ela veio? – pergunto baixo.
Ouço ele se aproximar de mim.
- Não se preocupe, Alexei. Não é nenhuma prostituta. Não acho que ela seja pura, mas acredito que poucos homens a tocaram – Levanto, olhando dentro dos olhos dele, travando meu maxilar.
- Quem é ela? – digo pausadamente.
- Isso realmente importa?
- Importa.
- Pois bem – Ele suspira – Giorgina Caccini.
Ao reconhecer a mulher diante de mim como Giorgina Caccini, meu coração dispara com um misto de surpresa, fascínio e apreensão. A reputação de sua família como inimiga de longa data da minha é bem conhecida, passando de geração em geração. Ouvir seu nome ecoar entre as histórias e rumores ao longo dos anos me fez criar uma imagem dela em minha mente.
Giorgina Caccini personifica a conexão direta com uma linhagem que, de alguma forma, influenciou e moldou minha própria vida. Ainda assim, a realidade de ter ela diante de mim é algo completamente novo e desafiador.
Os meus olhos se voltam para ela, e sinto um turbilhão de emoções. A hostilidade herdada entre nossas famílias ressoa em minha mente, mas também há uma curiosidade inegável. Como uma pessoa pode carregar tanta história e significado? Como a história de sua família se conecta com a minha?
- Se ela está aqui... – começo – cadê o restante da família dela?
- Finalmente mortos – diz ele orgulhoso – Precisamos de um séculos para conseguir exterminar de vez os Caccini da face da Terra.
Uma onda de choque percorre todo o meu ser ao ouvir as palavras que confirmam a morte de toda a família de Giorgina. O impacto dessa revelação é avassalador, desafiando todas as expectativas e pressupostos que eu tinha até aquele momento.
O silêncio preenche o espaço entre nós, enquanto minha mente processa a enormidade dessa informação. A rivalidade ancestral que permeou nossas vidas, alimentada por gerações, agora se desvanece na escuridão da história. A realidade desse fato me faz refletir sobre a futilidade de tantos anos de confronto e desavenças. Mas agora estava acabado e não havia nada que eu pudesse fazer.
- O que vai fazer com ela?
- Ela é sua, Alexei. Faça o que quiser – Ele coloca uma mão em meu ombro – Espero que saiba aproveitar, nossos ancestrais ansiaram muito por isso.
Enquanto fixo meus olhos em Giorgina, um turbilhão de pensamentos e emoções se entrelaça em meu interior. A percepção de que não machucar ela seria uma traição aos princípios que me foram transmitidos pelos meus ancestrais começa a tomar forma dentro de mim. É uma sensação poderosa e conflitante, pois até então eu havia sido alimentado pela raiva e pelo rancor que envolviam a rivalidade entre nossas famílias.
A verdade é que eu não conhecia Giorgina pessoalmente e não tinha motivos para nutrir a mesma raiva que havia sido passada de geração em geração. Era uma emoção herdada, um legado de animosidade que nunca questionei até agora. Perceber que ela era apenas uma vítima desse ciclo interminável de ódio e sofrimento faz com que meu coração se encha de compaixão e empatia. Entretanto, não era isso que meu pai esperava de mim.
- Obrigado pelo presente – murmuro, sem olhar para ele, mesmo assim percebo que continua a sorrir.
Ao deixar o cômodo, sinto-me inundado por uma mistura de incerteza e determinação. A presença de Giorgina desperta em mim uma série de questionamentos sobre o que farei a seguir. Embora eu tenha abandonado a ideia de machucar ela ainda não tenho um plano definido sobre como lidar com essa situação inesperada.
Caminho pelos corredores, deixando minha mente divagar enquanto tento encontrar clareza em meio à confusão. A responsabilidade de decidir o destino de Giorgina pesa sobre meus ombros, e me sinto compelido a encontrar uma solução que seja justa, respeitosa e que leve em consideração os interesses e a segurança de ambos. E que ainda por cima, agrade o meu pai e que não obrigue ele a fazer “ o que eu deveria fazer”, já que não estava nem um pouco disposto em fazer o último membro vivo da família Caccini sofrer e desejar com todas suas forças uma morte rápida e indolor.
Eu não mataria Giorgina Caccini e acreditaria que nada me faria mudar de ideia, se não ela mesma.
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