
Além da Expectativa
Capítulo 3
Juliana estava no carro do pai dela, fomos para um restaurante que estava bem movimentado quando chegamos, e o lugar parecia ser chique demais para o meu gosto, ao entrar parecia que a maioria dos olhares estavam indo em nossa direção, não sou acostumada a usar salto, estava tentando me fazer e me manter plena, mas estava me sentindo nervosa e desengonçada.
Falei entredentes para ela:
“Estou me sentindo super desengonçada andando com esse salto, parece que vou estabacar no chão a qualquer momento.”
“Para com isso, você está linda, está andando perfeitamente, não coloca isso na cabeça, só vamos seguir andando, as pessoas estão olhando porque você está deslumbrante minha amiga.”
O garçom falou que tivemos sorte, porque naquele instante havia saído um casal que estavam em uma determinada mesa lá, e ele nos colocou nela.
“A dama de preto e a dama de branco, aproveitem a noite, vou deixar o cardápio com vocês, só ressaltando que após às 23 horas o restaurante fecha, e passamos a funcionar como boate, as bebidas só serão entregues se for feito pedido de combos, ou bebidas especiais, esses elencados no cardápio, para os demais deve ser feito o pedido e a retirada direto lá no bar, qualquer coisa é só me chamar, sou o Lucas.”
Não havia nem me dado conta, mas é verdade estávamos como a dama de preto e a dama de branco, a Juliana estava com um vestido branco, ela estava linda, aliás ela é linda, com o cabelo preto solto, um liso escorrido na altura do ombro, ela era a personificação da mulher elegante.
“Bi, você tem que ver, isso aqui quando fecha o restaurante para abrir espaço para o modo boate, fica simplesmente sensacional, acho que você vai amar.”
“Assim eu espe....não acredito Juliana, tu viu os preços das coisas.”
Quase caí para trás, um drink mais barato dava para eu comer lanche a semana inteira, oh céus, calculei mentalmente o que poderia fazer, beber ou comer ali, mas estava tenso, no final, as contas não iriam fechar.
“Para com isso Bianca, hoje é seu aniversário, se dê de presente esses momentos, não fica pensando nisso não, para de bilolar por isso ou aquilo, você nunca sai, trabalha um duro que só, mas não investe nada em você, o que faz é para pagar conta e enviar para sua família, amiga eu até te entendo, mas você precisa se priorizar também.”
“Ah Ju, você sabe que minha realidade não convém isso, e não reclamo, já estou acostumada, mas me esforço ao máximo para viver melhor, lá na frente, mas hoje vou tentar ficar mais leve, só que com esses preços é realmente complicado não pensar.”
Analisei até, o cardápio, pra ver o que de mais barato poderia pedir, e caramba eu estava com fome também, mas comer ali, seria um arrombo.
“Pronto, já decidiu, podemos pedir?”
“Vou pedir só um Chopp.” Não sei quanto tempo iremos passar ali, se eu pedir esses drink's de valores exorbitantes, e beber no máximo uns dois ou três, meu orçamento já vai ficar descontrolado, então é melhor ir de Chopp, que rende mais e é mais barato.
“Ah não Bianca, deixa que eu peço algo aqui então.”
“Não Ju, pra mim vai ser só um Chopp mesmo, pra ti pega o que achar melhor.”
“Está bem!”
Fizemos sinal para o Lucas, e ele prontamente veio nos atender.
“Pois não damas de preto e branco!”
Ele era uma gracinha, e estava claramente flertando com a Ju, ela fez os pedidos apontando para ele lá no cardápio, e ele anotou.
Apesar de cheios, o atendimento deles era bem rápido, não demorou muito ele chegou com dois drinks e uma porção, hum mas trouxe o pedido errado, pensei, por isso a rapidez, pois seria um chopp e um drink, e não pedimos porção, pelo menos eu não pedi.
“Você trouxe o pedido errado, Lucas.’
“Errado, sério, mas o que pediram não foi...”
“Sim está certo, ela que está confundindo Lucas, pode deixar aqui.”
“Mas eu não pedi drink Juliana, pedi Chopp, e como ou onde ele anotou nossos pedidos, cadê a comanda?”
“Aqui e pelo número da pulseira que recebemos amiga, tá vendo aqui, ele viu o número da minha e colocou nela, quando formos sair, pagamos de acordo o registrado aqui.”
“Entendi, Juliana, eu te falei que o meu seria um Chopp!” falo em tom de advertência.
“Desencana dona Bianca, vai, vamos brindar, hoje é seu dia, vamos celebrar, esquece contas por uns momentos, e viva a vibe do ambiente e do dia.”
A Ju tem uma forma tão leve de viver a vida, acho isso admirável, talvez seja por ela ser mais nova, com seus 21 anos, por não ter mil e uma preocupações com contas, mora no conforto de um apartamento grande, com seus pais, apesar de terem uma relação meio conturbada na família, ela está sempre de bem com a vida, ela fala que pelo menos eles arcam com as despesas dela, financeiramente são bem estruturados, ela costuma dizer que isso camufla a guerra que eles vivem, o pai e a mãe dela, por isso ela vive saindo pra espairecer, e sempre diz que eu preciso fazer o mesmo.
Às vezes ela me deixa pirada, mas ela foi o melhor acontecimento em minha vida desde que cheguei aqui, foi a pessoa que me acolheu, a desengonçada da roça, com um sotaque do interior, eu percebia, as outras meninas fazendo piada do meu jeito de vestir, de falar, a Ju não, ela com aquele ar moleca dela, foi se apresentando, falou para eu não dar importância para aquelas mimadas imbecis, haha, e nisso viramos uma dupla, inseparável na faculdade, ela que me ajudou a montar o currículo, a conseguir o trabalho, a quitinete para morar, porque os parentes que eu tinha vindo para ficar na casa deles na verdade se puseram bem hostis, então só fiquei lá até conseguir arrumar um trabalho e ter condições de alugar um local para ficar, e foi a melhor coisa que fiz, ter saído de lá, não quero soar ingrata, mas a forma como minhas primas me tratavam, minha tia, viviam jogando indiretas para mim, e só faltavam cuspir no meu prato.
Aprendi muito nesse período que vim para cá, nem todos possuem um coração bom, e disposto em ajudar, e que família, família mesmo, nem sempre vão ser os de sangue. A mãe da Jú, me deu mais acolhimento que minha própria tia, minhas primas, elas me tratavam de forma tão grosseira, ficavam falando nas minhas costas, mas hoje vejo que com o intuito de eu ouvir mesmo, que eu era uma burra da roça, que não sabiam o que eu estava pensando em vim pra cidade querer procurar estudar, que eu iria aguentar muito ali uns 6 meses, estourando um ano, que meu fim seria voltar a trabalhar feito mula igual meus pais e meu irmão, aquilo me doeu bastante.
Não contei para meus pais o motivo de sair de lá, só falei que encontrei um local que seria mais próximo do trabalho e da faculdade, e assim, me mantive longe deles, e venho sobrevivendo nesses dois anos depois, superando à expectativa deles.
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