
Adeus, Pedro: Minha Vida Começa Agora
Capítulo 3
Entrei no quarto do hospital e o cheiro a antissético invadiu-me as narinas. O meu pai estava deitado na cama, pálido e frágil, ligado a várias máquinas que apitavam ritmicamente. A sua respiração era superficial.
A minha irmã, Sofia, estava sentada ao lado dele, a segurar-lhe a mão. Os seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. Quando me viu, levantou-se e abraçou-me com força.
"Ele esteve à tua espera," sussurrou ela.
Aproximei-me da cama. O meu pai abriu os olhos lentamente. Eram os mesmos olhos azuis penetrantes que eu lembrava, mas agora estavam turvos de dor e cansaço.
"Eva..." a sua voz era um murmúrio fraco. "Tu vieste."
"Eu estou aqui, pai." As palavras saíram com dificuldade. As lágrimas que eu estava a segurar começaram a cair.
Ele tentou levantar a mão, e eu peguei nela. Estava fria.
"Onde... onde está o teu marido?" ele perguntou, com esforço.
Engoli em seco. A última coisa que queria era perturbar os seus momentos finais com os meus problemas.
"Ele... ele não pôde vir. Tinha trabalho."
O meu pai olhou para mim, e por um instante, vi um brilho da sua antiga perspicácia. Ele sempre conseguia ver através das minhas mentiras.
"Ele tratou-te bem?"
Assenti, incapaz de falar. A mentira pesava na minha língua.
De repente, a porta do quarto abriu-se com um estrondo.
O Pedro estava ali, ofegante, com o cabelo despenteado. Os seus olhos encontraram os meus, cheios de uma fúria contida.
"Eva! Que raio estás a fazer? Desapareces e não dizes nada a ninguém?"
Ele nem sequer olhou para o meu pai. A sua atenção estava toda em mim.
"Eu disse-te que vinha ver o meu pai," respondi, a minha voz a tremer de raiva e humilhação.
"E o divórcio? Era a sério? Vais deitar fora cinco anos de casamento por causa de um erro? Um erro que eu estava a tentar consertar!"
"Um erro?" A minha voz subiu. "Tu arruinaste-nos, Pedro! E mentiste-me!"
"Parem..." A voz do meu pai era fraca, mas cortou a nossa discussão.
O Pedro finalmente pareceu reparar no homem na cama. O seu rosto mudou, adotando uma máscara de falsa preocupação.
"Senhor Gomes, peço desculpa. Não queria incomodar. A Eva e eu tivemos um pequeno desentendimento, é tudo."
Ele aproximou-se da cama, tentando parecer o genro dedicado. "Como se sente?"
O meu pai ignorou-o. Os seus olhos estavam fixos em mim.
"Ele mentiu-te," disse o meu pai, não como uma pergunta, mas como uma afirmação. "Sobre o quê?"
As lágrimas corriam livremente pelo meu rosto agora. Eu não conseguia mais fingir.
"Ele hipotecou a casa. A casa da avó. Para dar o dinheiro à ex-namorada dele."
Um silêncio pesado encheu o quarto, quebrado apenas pelo som das máquinas. O rosto do Pedro ficou pálido.
O meu pai fechou os olhos por um momento. Quando os abriu novamente, a sua voz, embora fraca, tinha um fio de aço.
"Fora."
O Pedro olhou para ele, confuso. "Desculpe?"
"Eu disse, fora da minha vista," repetiu o meu pai, a sua respiração a ficar mais agitada. "Sai do quarto da minha filha."
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