
Adeus, Meu Filho
Capítulo 2
O telefone tocou, um som agudo que cortou o silêncio pesado do corredor do hospital. Ricardo atendeu, a mão tremendo um pouco enquanto segurava o celular velho e rachado contra a orelha. A voz do outro lado era calma, profissional, mas cada palavra caía como uma pedra em seu estômago.
"Senhor Ricardo? Estamos ligando sobre seu filho, Felipe. Ele sofreu um acidente de moto."
O mundo de Ricardo parou por um instante. Ele olhou para as paredes brancas e estéreis ao seu redor, o cheiro de antisséptico enchendo seus pulmões.
"Acidente? Ele está bem? Onde ele está?"
A voz hesitou por uma fração de segundo, o suficiente para o pânico começar a subir pela garganta de Ricardo.
"Ele foi trazido para o Hospital Central. O senhor precisa vir para cá. A situação é grave."
Grave. A palavra ecoou em sua mente. Ele desligou sem se despedir, o coração martelando contra as costelas. Ele precisava de Sofia. Ele precisava de sua esposa.
Ele discou o número dela, uma, duas, três vezes. Caixa postal. A mesma mensagem gravada, a voz dela soando estranhamente distante e alegre.
"Oi, aqui é a Sofia. Deixe seu recado que eu retorno assim que puder!"
"Sofia, atende o telefone", ele murmurou, a voz rouca de desespero. "É o Felipe. Ele sofreu um acidente. Pelo amor de Deus, atende."
Ele tentou de novo. E de novo. Nada. A frustração se misturou ao medo, criando uma bile amarga em sua boca. Onde ela poderia estar? Ela sabia que Felipe estava fazendo entregas extras naquela noite para ajudar com as contas. Ela deveria estar em casa, preocupada, como ele.
Na décima tentativa, a chamada finalmente completou. Mas o que Ricardo ouviu não foi a voz preocupada de sua esposa. Foi o som de música alta, de risadas, de gente comemorando. Um barulho de festa.
"Alô?", a voz de Sofia soou irritada, abafada pelo barulho. "Quem é? Não dá pra ouvir nada aqui!"
"Sofia, sou eu! Ricardo!", ele quase gritou, tentando se fazer ouvir por cima da música. "O Felipe! Ele sofreu um acidente de moto, estou no hospital! Você precisa vir pra cá agora!"
Houve uma pausa. Ricardo podia ouvi-la se afastando do barulho, a música ficando um pouco mais baixa.
"Um acidente?", ela repetiu, o tom ainda impaciente. "Mas foi grave? Eu tô no meio de uma coisa importante aqui, Ricardo. É a final do campeonato do Lucas, ele ganhou! Estamos comemorando."
Lucas. O filho do ex-namorado dela. A raiva subiu pela espinha de Ricardo, quente e rápida, mas o medo por Felipe era maior.
"Grave, Sofia! O médico disse que é grave! Que parte de 'grave' você não entendeu? Deixa essa festa e vem pra cá!"
Ele ouviu um suspiro do outro lado da linha, um som de puro aborrecimento.
"Tá, tá bom. Eu vejo o que eu posso fazer. Me manda o endereço por mensagem."
Antes que Ricardo pudesse responder, ela desligou na cara dele. Ele ficou parado, o telefone ainda na orelha, ouvindo o silêncio. A música da festa dela ainda ecoava em sua cabeça, um contraste doentio com o silêncio mortal do hospital. Ele olhou para o celular em sua mão, a tela rachada mostrando a foto de Felipe, sorrindo, cheio de vida. Uma sensação fria e terrível começou a se instalar em seu peito, um pressentimento de que ele não tinha perdido apenas seu filho naquela noite. Ele tinha perdido tudo.
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