
Adeus, Diogo: O Despertar da Rainha
Capítulo 3
Na manhã seguinte, a casa parecia um campo de batalha silencioso.
Diogo preparou o pequeno-almoço para a Sofia. Serviu-lhe café na cama, a nossa cama.
Eu estava na cozinha, a beber um copo de água, e ele agia como se eu fosse invisível.
A minha presença era um incómodo na minha própria casa.
Ouvi-os a rir no quarto.
"Ela vai assinar os papéis?" perguntou a Sofia, a voz alta o suficiente para eu ouvir.
"Claro que vai," respondeu Diogo. "Ela faz tudo o que eu quero."
Entrei no quarto. Eles pararam de rir.
Diogo estava sentado na beira da cama, e Sofia estava recostada nas almofadas, com o bebé a dormir ao seu lado. Pareciam uma família feliz.
"Onde estão os papéis do divórcio?" perguntei. A minha calma era a minha armadura.
Diogo ficou surpreendido. Ele provavelmente esperava mais gritos, mais lágrimas.
"Vou tratar disso hoje," disse ele, um pouco desnorteado.
"Ótimo."
Mais tarde nesse dia, ele chegou com um envelope.
"Aqui estão," disse ele, entregando-mo. "Lê com atenção."
Eu nem li. Peguei numa caneta e assinei onde ele indicou.
"Já está," disse eu, devolvendo-lhe os papéis.
A sua confiança era insultuosa. Ele realmente pensava que tinha ganho.
"Vês? Não foi assim tão difícil," disse ele com um sorriso condescendente.
Sofia observava-me da porta do quarto, um brilho de triunfo nos olhos.
Ela aproximou-se de mim quando Diogo foi para a sala fazer uma chamada.
"Agora que vais sair do caminho, eu e o Diogo podemos finalmente ser felizes," disse ela, com veneno na voz. "Ele nunca te amou. Só estava contigo pelo dinheiro da tua família."
"Fico feliz por te livrares dele," respondi eu, sem emoção.
A minha indiferença irritou-a.
Ela empurrou-me. Com força.
"Tu achas que és melhor que eu, sua vaca rica?"
Perdi o equilíbrio e caí para trás, batendo com as costas na quina de uma mesa.
Uma dor aguda atravessou o meu abdómen.
Sofia gritou. Mas não foi um grito de preocupação. Foi um grito de acusação.
Ela pegou no seu próprio bebé e deixou-o cair deliberadamente no tapete macio, simulando uma queda.
Diogo entrou a correr.
Ele viu-me no chão e depois viu o bebé da Sofia a chorar.
"O que é que fizeste?!" gritou ele para mim, correndo para pegar no filho dela.
"Ela empurrou-me!" gritou a Sofia. "Ela tentou magoar o meu filho!"
Eu olhei para baixo. Havia sangue nas minhas pernas.
"Diogo," sussurrei, em pânico. "Estou a sangrar."
Ele olhou para o sangue, depois para mim, e a sua expressão não era de preocupação. Era de fúria.
"Isto é culpa tua! Sempre a criar problemas!"
Ele pegou no bebé da Sofia e correu para a porta.
"Vou levá-lo ao hospital! E quando eu voltar, quero que peças desculpa à Sofia!"
E ele saiu.
Deixou-me ali, no chão, a sangrar, a talvez perder o nosso filho.
Sozinha.
A dor e a traição foram tão intensas que por um momento não consegui respirar.
Mas depois, uma clareza fria tomou conta de mim.
Este era o fim. O fim absoluto.
Com dificuldade, levantei-me. A dor era terrível, mas a minha determinação era maior.
Chamei um táxi e fui para o hospital. Sozinha.
O médico disse que era uma ameaça de aborto. Precisava de repouso absoluto.
Enquanto estava deitada na cama do hospital, o meu telemóvel tocou. Era o Diogo.
Atendi.
"Onde estás?" gritou ele. "O bebé da Sofia está bem, felizmente! Mas ela está em choque! Exijo que venhas aqui pedir-lhe desculpa!"
Eu ri. Um riso seco, sem alegria.
"Diogo," disse eu, a minha voz mortalmente calma. "Acabou."
"O que queres dizer com acabou? Não sejas dramática, Clara. Eu não me vou reconciliar contigo se não pedires desculpa."
"Não haverá reconciliação. Estou no hospital. Estou a sangrar. O nosso filho pode morrer. E tu abandonaste-me."
Houve um momento de silêncio.
"Não acredito em ti," disse ele. "Estás a inventar isso para te fazeres de vítima."
Desliguei.
Naquele momento, finalizei tudo.
Liguei para o meu advogado. "Retire todo o investimento da empresa do Diogo. Imediatamente."
Liguei para o meu chefe no museu. "Estou a demitir-me. Vou para o Brasil."
Ele ficou triste, mas compreendeu. "A sua família sempre falou do seu talento, Clara. O seu pai ficaria orgulhoso da sua força."
As palavras dele deram-me um conforto inesperado.
Sofia enviou-me uma mensagem. Uma fotografia dela e do Diogo com o bebé, a sorrir.
A legenda dizia: "Uma família feliz. Desaparece das nossas vidas."
Eu apaguei a mensagem. Ela já não importava.
Diogo esperava um pedido de desculpas. Ele estava em casa, a ser consolado pela Sofia, convencido de que eu não tinha para onde ir.
Ele ligou-me várias vezes. Eu não atendi.
Bloqueei o número dele.
No dia seguinte, tive alta do hospital. O bebé estava estável, por enquanto.
Fui para casa buscar o resto das minhas coisas. O apartamento estava vazio.
Deixei a chave em cima da mesa. E a minha aliança de casamento ao lado.
O meu voo era nessa tarde.
O táxi para o aeroporto passou pela Conservatória do Registo Civil de Lisboa.
E lá estavam eles. Diogo e Sofia. A sair do edifício.
Ele ia casar com ela. Naquele mesmo dia.
Ele viu-me no táxi. Correu na minha direção, a sua cara uma máscara de fúria.
"Clara! Estás a seguir-me? Vieste para estragar o meu casamento?"
Sofia agarrou-se ao braço dele, a fingir-se de vítima assustada.
Eu baixei o vidro.
"Diogo," disse eu, com um sorriso cansado. "Eu não me importo. Vim do consulado brasileiro. Estou de partida."
A sua expressão mudou de raiva para confusão, e depois para um pânico lento.
"O quê?"
"Adeus, Diogo."
O táxi arrancou, deixando-o ali, parado no meio da rua, a olhar para o carro que me levava para longe dele para sempre.
No avião, olhei pela janela enquanto Lisboa ficava para trás.
Toquei na minha barriga.
Uma nova vida estava a começar. Para mim e para o meu filho.
Você pode gostar





