
Abandonada no Asfalto Molhado
Capítulo 3
O meu filho.
Era só nisso que ela pensava.
Olhei para lá do ombro dela. Miguel estava parado no corredor, o rosto pálido. Ao lado dele, Sofia choramingava, agarrada ao braço dele como se fosse a sua tábua de salvação.
Ela não tinha um único arranhão.
Eu perdi o meu filho.
O médico entrou no quarto, o seu olhar sério silenciou a fúria de Helena.
Ele dirigiu-se a mim, ignorando os outros.
"Lara, lamento imenso. Devido ao trauma do acidente, não conseguimos salvar a gravidez."
As palavras dele pairaram no ar, pesadas e finais.
O mundo pareceu abrandar. Eu ouvia o som da máquina de monitorização cardíaca, um bip constante e solitário no quarto silencioso.
Helena bufou.
"Um bebé? Que bebé? Ela nunca me disse nada."
Miguel finalmente entrou, mas os seus olhos não encontraram os meus. Ele foi direto para a mãe.
"Mãe, por favor, agora não."
Sofia seguiu-o, os olhos dela cheios de lágrimas de crocodilo.
"Helena, a culpa foi minha. Eu não devia ter ligado ao Miguel para nos encontrarmos. Se eu não estivesse lá..."
A voz dela era suave e cheia de uma falsa culpa.
Miguel pôs um braço à volta dos ombros dela.
"Não digas isso, Sofia. Não tiveste culpa de nada. Foi um acidente."
Ele olhou para mim pela primeira vez. Não havia dor nos olhos dele. Havia irritação.
"Lara, porque é que não lhes contaste sobre a gravidez? Estavas a esconder?"
A pergunta dele sugou o pouco ar que me restava nos pulmões.
Eu não estava a esconder. Estávamos à espera do exame das doze semanas, para ter a certeza de que estava tudo bem. Era o nosso segredo.
Um segredo que agora estava morto.
"Eu... nós íamos contar", consegui dizer.
Helena riu-se, um som cruel.
"Claro que iam. Provavelmente nem era verdade. Só para prender o meu filho."
Eu fechei os olhos. Queria que eles desaparecessem. Queria que o mundo inteiro desaparecesse.
A enfermeira, vendo a situação, interveio com firmeza.
"A paciente precisa de descansar. Peço que saiam, por favor."
Helena olhou para ela com desdém, mas Miguel puxou-a pelo braço.
"Vamos, mãe. Deixa-a descansar."
Enquanto saíam, ouvi Sofia dizer a Miguel num sussurro alto o suficiente para eu ouvir.
"Estou tão preocupada contigo, Micas. Tu é que foste o herói, a sair do carro para me ajudar."
Ele não a corrigiu.
Ele deixou-a pintar o retrato dele como um herói.
Um herói que deixou a sua mulher grávida a sangrar para ir consolar outra pessoa.
Fiquei sozinha com o bip da máquina e o vazio na minha barriga.
A decisão formou-se na minha mente, clara e fria como o gelo.
Acabou.
Tudo tinha acabado.
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