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Capa do romance A viscondessa Clementine

A viscondessa Clementine

Clementine de Barros tornou-se viúva aos 20 anos após um casamento arranjado com o Visconde de Lohan. Diante da chegada de Lorde Guimarães, herdeiro das propriedades e de seu destino, ela promete resistir ao desconhecido. Contudo, um encontro acidental sob chuva apresenta-lhe um rapaz que compreende seus anseios por liberdade. Enquanto uma paixão floresce, Clementine descobre que o homem que ama é justamente o primo que jurou odiar e enfrentar.
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Capítulo 3

Gabriel desceu do cavalo, olhando desconfiado a cena. A chuva atrapalhava seus olhos, seu cavalo relinchava, protestando, assim como o cavalo da mulher, que mesmo inquieto, não saia do lado da dona. Gabriel chegou mais perto, tentando sentir ver se estava viva, se abaixou, virando o corpo molhado pra cima, tirando as folhas que estavam grudadas em seu rosto e as mexas do cabelo. Era linda. E mesmo com o cheiro da chuva seu perfume o inundou, um cheiro doce de tangerina. Gabriel amava tangerina. - Ei... - ele tentou acordar a mulher - Ei... - a chacoalhou levemente, tentou ver se tinha algum corte na cabeça, mas não tinha nada, como ela tinha parado ali desacordada? 

- O que aconteceu? - ele ouviu um murmurado baixinho e a mulher se remexer em seus braços.

- Te encontrei desmaiada, você ta bem? - perguntou tentando protege-la da chuva com seu corpo.

- To meio tonta... - disse ainda sem abrir os olhos. Gabriel olhou em volta, vendo uma árvore mais fechada ali perto, pegou a mulher no colo e atravessou ate ela, a colocando no chão. As folhas impediam que a chuva atravessasse de maneira forte, deixando só que algumas gotas chegassem até eles.

- Você ta meio pálida... vai ficar doente... - Gabriel disse indo ate o cavalo que tinha o seguido e pegando o cantil com água que tinha levado, o abriu e levou até os lábios dela, que apenas movimentou a boca devagar - Beba, por favor... - ele pediu de forma mansa e a mulher obedeceu, abrindo os olhos.

Ela engoliu a água em dois goles e então respirou fundo - Você é um nobre... - disse colocando a mão no pescoço onde a renda preta chegava ate seu queixo. Era uma roupa de luto, ela devia servir na casa do primo. 

- Sim, eu sou. - disse vendo o medo surgir no rosto da moça. Sim, ela parecia apenas um moça, nova. - Calma, não vou te machucar. Só quero ajudar... você desmaiou? Bateu a cabeça? Quando foi a última vez que comeu? 

- Eu... não me lembro... - ela respondeu ainda mexendo na renda do pescoço, respirando rápido, ainda com seu cheiro de tangerina. Se ela queria se proteger não estava ajudando.

Gabriel se levantou de novo e foi ate o cavalo, tirando da bolsa de couro uma outra bolsinha com um pedaço de pão - Aqui... - disse se abaixando e entregando a ela - Come - ele tentava dizer sem ser autoritário, sem usar sua voz de comando, até porque não era isso que queria, mas havia algo naquela moça que fazia seu instinto querer falar mais alto, que queria a proteger, que queria gritar com ela sobre o porque não estar se alimentando, do porque sair cavalgando sem comer, sendo que qualquer um poderia ter a encontrado caída ali, sozinha, desacordada. 

A moça pegou timidamente o pão da mão dele e o levou a boca, comendo um pedaço, tomando a água logo depois, ficaram alguns minutos em silêncio enquanto ela comia e Gabriel olhava para o nada. A chuva abrandava e os cavalos estavam mais tranquilos. - O que esta fazendo nas terras do Visconde de Lohan? - ele ouviu a moça dizer.

- Eu estava cavalgando, devo ter perdido a fronteira por causa da chuva. O que foi sorte sua, te encontrei desacordada no meio da floresta, sabe o quanto isso é perigoso para uma moça? - ele falou.

- Porque? Só porque sou uma mulher? Só porque sou uma mulher acha que não posso cuidar de mim mesma sozinha? - ela se levantou.

- Você tava desmaiada no meio da chuva, sozinha, já prova que não. 

- Você não sabe nada sobre mim. 

- Não eu não sei - Gabriel se levantou - Mas você estava desacordada na chuva, consegue entender isso? Me desculpe se fiz pensar que não sabe cuidar de você mesma, mas foi o que pareceu! 

A moça engoliu em seco - Eu só queria... só queria um pouco... um pouco de paz... nem vi que sai sem comer ou que fazia tempo que não tinha comido... os dias tem sido difíceis...

- Eu imagino... fiquei sabendo da morte do Visconde... 

- Quem é você? - ela perguntou o olhando.

Gabriel poderia dizer quem era, mas assim que dissesse ela voltaria correndo com a informação de que o novo visconde, o substituto estava nas terras, e não queria isso - Sou Gabriel - disse apenas.

- Gabriel... só Gabriel? - perguntou confusa.

- Sim, e você? 

Ela olhou para as terras, para longe - Clementine. 

- Clementine, só Clementine? - perguntou com um meio sorriso. 

- Sim - ela respondeu no mesmo tom. 

Gabriel soltou uma risada baixa e se aproximou, passando um dedo no canto da boca de Clemeentine - Tinha farelo de pão - disse de forma simples.

Clementine ficou vermelha - Eu... preciso voltar, já devem ter sentido minha falta, não sei quanto tempo passei...desmaiada como você disse - falou indo ate seu cavalo e pegando a rédea.

- Espero que não muito tempo, troque de roupa, tome um banho quente e uma sopa quente, espero que não fique doente. - disse enquanto o via subir no cavalo.

- Também espero - disse virando o cavalo - e ah - se virou novamente - obrigado só Gabriel, quem sabe nos esbarramos de novo quando você perder a fronteira. 

Gabriel sorriu de forma travessa - Esperarei por isso só Clementine. 

A sorriu de volta e então partiu com o cavalo, indo em direção ao casarão do Visconde, deixando o rastro de seu cheiro de tangerina pra trás, fazendo o coração daquele pobre homem bater mais forte e se perguntar quando poderia arrumar a desculpa de que tinha se perdido na fronteira novamente. Porque sim, já tinha conhecido tantas mulheres lindas com cheiros hipnotizantes, mas nenhuma tinha mexido tanto consigo do que aquela. 

Só Clementine. Ele riu. Parecia que, assim como ele próprio, a tal Clementine também tinha segredos a esconder. E foi com um sorriso no rosto que ele montou seu cavalo e voltou para a estrada, rumo a cidade. 

Sua família ia ter que o perdoar, mas ele não ia se casar com a viúva do primo. Não quando ele descobriu que seu coração podia bater de forma frenética como estava batendo naquele momento.

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