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Capa do romance A viscondessa Clementine

A viscondessa Clementine

Clementine de Barros tornou-se viúva aos 20 anos após um casamento arranjado com o Visconde de Lohan. Diante da chegada de Lorde Guimarães, herdeiro das propriedades e de seu destino, ela promete resistir ao desconhecido. Contudo, um encontro acidental sob chuva apresenta-lhe um rapaz que compreende seus anseios por liberdade. Enquanto uma paixão floresce, Clementine descobre que o homem que ama é justamente o primo que jurou odiar e enfrentar.
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Capítulo 1

Ela não derramou uma lágrima. Quando recebeu a notícia ficou parada nos degraus da mansão, a mão apertando o corrimão, o coração batendo forte no peito, o sangue sumindo de seu rosto. Mas ela não sentiu seus olhos marejarem. Ela voltou ao quarto com a ajuda de sua fiel governanta, que a sentou na cama, segurando sua mão e pedindo para uma das ajudantes trazer uma xícara de chá.

- Senhora, está bem? - disse em um tom baixo, como se falar alto fizesse com que ela finalmente despertasse do torpor. Mas Clementine, ou a Viscondessa de Lohan tinha ouvido muito bem. 

- Leia a carta outra vez, por favor - ela pediu com a voz doce.

A governanta assentiu, abrindo o envelope que tinha guardado no bolso do avental - "Honrada Viscondessa de Lohan, lamentamos informar que o Visconde de Lohan, Antonio Siqueira, faleceu essa manhã de uma peste que acometeu toda a comunidade onde estávamos. Fizemos tudo que estava ao nosso alcance para o salvar, mas sua piora só foi agravando dia após dia, até que não era possível nem chegarmos perto sem sermos contaminados. Infelizmente ele partiu inconsciente, felizmente sem dor alguma. Lamentamos sua perda." Sinto muito senhora. - Clementine assentiu - Vou tirar os vestidos pretos dos armários, já estão começando a preparar o memorial...

- Memorial? - ela levantou a cabeça.

- Para as pessoas virem lhe dar as condolências.

- Isso é realmente necessário? 

- Temo que sim, senhora. - Clementine fechou os olhos - Venha senhora, sente-se aqui. 

Em automático, ela se levantou, indo sentar em sua penteadeira, a mesma que tinha acabado de sair quando foi chamada para a sala porque tinha chegado uma carta endereçada a ela. Pouco a pouco a governanta foi tirando todos os grampos de cabelo de sua cabeça, desfazendo seu meio coque, que caia em camadas de sua cabeça ate o meio de suas costas em um castanho mel que brilhava no sol, virando um coque sem graça no alto de sua cabeça. Os brincos de pérola pendurados em suas orelhas também foram tirados, assim como seu colar que tinha um ponto de luz. 

A governanta molhou um pano e passou em seu rosto, tirando o leve rubor de tinta que ela tinha passado aquela manhã para dar um toque de saúde em seu rosto. E então seu vestido azul claro tinha sido tirado de si, substituído por um preto pesado, que ia ate os pulsos, com gola alta, acompanhado com um adorno de cabeça. Ela se viu no espelho e não se reconheceu. 

Aos 20 anos, viúva. 

Ela estava esperando o momento que desabaria.  Seu então marido, Antônio, não tinha sido um marido ruim. Os dois anos de casamento tinham mostrado isso. Ele não era muito presente, vivia viajando, mas dava a ela além do que ela achou que um dia teria, uma vida de luxo e riquezas dignas de uma viscondessa de classe. Ela era respeitada por onde passava, invejada, e ainda cortejada. Clementine tinha uma beleza que hipnotizava, a pele rosada misturada com mel, olhos escuros e grandes, lábios proeminentes e nariz pequeno. Era cobiçada por todos em sua estreia na temporada, e claro, conseguiu o melhor partido. Ela já sabia, estava em seu destino.

Ela nunca fora muito ambiciosa a respeito de desejos próprios, não quando já sabia de toda sua vida antes mesmo de vivê-la. Mas se vendo assim, no espelho, toda de preto, viúva, ela soube, pela primeira vez ela soube que ela não sabia de nada. Ela não sabia um passo a sua frente. Ela não sabia o dia de amanhã. Ela não sabia nem o que aconteceria com ela quando descesse as escadas.

Ela nem teve tempo de respirar quando a levaram pra baixo e sua casa já estava cheia de gente. Gente que ela nunca tinha visto. Golpistas querendo o dinheiro. Invejosas vindo rir de sua derrota. Ela ainda estava catatônica sentada no sofá. E ainda não chorara. Era sorte dela que o véu preto cobria seu rosto e não mostrava a falta de emoção em seu rosto. 

Ela sabia que não amava Antônio mas... ela sentia algo, certo? Era uma pena ele morrer tão cedo, era bonito, o sorriso era bonito, tinha um abraço gostoso, e merecia uma vida mais longa, então, porque não conseguia chorar? 

Depois que todos foram embora, Clementine estava sentada a beira da janela do escritorio do marido, bebendo uma taça de vinho quando seu pai entrou. 

- Nunca pensei que isso fosse acontecer - ele disse indo se sentar a frente dela, pegando uma taça também.

Ela deu uma risada, a primeira emoção do dia - Nem eu. 

- Você não esta desamparada Clementine, você sabe disso não sabe? - ela olhou o pai - Você continua viscondessa, e o parente mais próximo do visconde já foi avisado da situação e esta vindo para resolve-la.

- O que quer dizer com isso? - Ela se sentou mais ereta na cadeira.

- Ele esta vindo da Inglaterra, pra resolver sua situação.

- Minha... situação? - ela perguntou e se levantou - que situação? 

- Você não pode continuar viuva, não pode continuar um titulo sozinha, tem que ter filhos...

- Sou uma situação agora? Eu vou ser jogada na mão de outro homem pra... procriar? Por causa de um título?

- Você nunca foi contra isso Clementine, porque esta sendo agora? - seu pai ainda falava calmamente sentado.

- Porque não achei que teria que passar por isso duas vezes... por acaso o que sinto não importa para o senhor? Eu acabei de ficar viuva, hoje... e o senhor já esta falando em me dar em casamento a outro pra ter filhos... 

- O título...

- O título que se exploda! - ela disse exasperada.

- Clementine! - Seu pai a repreendeu.

- Saia da minha casa - ela ordenou.

- Vou respeitar seus acessos hoje pois imagino o que esteja passando, mas não pode fugir disso Clementine, é o seu destino. - ele se levantou e saiu do escritório fechando a porta.

Clementine respirou fundo e soltou um grito, jogando a taça na porta e caindo no chão, sentindo um aperto no peito, sufocante. sua governanta entrou logo depois a abraçando, e então, pela primeira vez no dia, por ela, ela chorou.

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