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Capa do romance A Virgem Negociada - Uma flor para o Don

A Virgem Negociada - Uma flor para o Don

Na cidade onde Vito Lucchese dita as leis, a jovem Juliette é entregue como quitação de uma dívida. Levada ao lar de um mafioso implacável e vinte anos mais velho, ela se depara com um homem marcado por traumas e cicatrizes. Enquanto ela jura resistir a qualquer toque, o Don promete proteção absoluta sob sua possessividade letal. Entre a rebeldia dela e o olhar frio dele, surge um embate perigoso onde o amor pode significar a salvação ou a ruína final.
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Capítulo 2

Julliete.

Slapt! O forte tapa causou um zumbido no meu ouvido. 

— Cala a boca, puttana. — Irritado, Gaspar mandou.

Toquei a minha face, que ainda queimava, evitando olhar diretamente pra ele.

— Me ajuda... — Desta vez, falei fracamente.

A mão de Gaspar cobriu a minha boca, sufocando os meus berros.

— Relaxe, vai doer um pouco no começo... — disse ele, roucamente —, mas depois, você vai gostar.

 Logo, o som da fivela do cinto e do zíper se abrindo entrou nos meus ouvidos enquanto ele tentava se colocar no meio das minhas pernas. Num acesso de desespero, eu me debati. Ele era grande demais, mas estava lento e embrutecido devido à bebida alcoólica.

Apavorada pra me livrar do peso daquele homem, eu mordi o ombro dele com toda força até sentir o gosto do sangue. 

— Figlia di una puttana! — Gaspar soltou um rugido. 

Ele me ergueu e atirou-me contra a parede. O impacto fez minha cabeça girar. Por um segundo, senti a vertigem tentando derrubar os meus sentidos. Não sei por quanto tempo fiquei zonza, mas despertei assim que senti o peso do corpo dele sobre o meu outra vez.

— Seja boazinha, não vou te machucar! — Gaspar chamou rispidamente. — Vem cá! Você vai gostar disso. — Ele empunhou aquela coisa grande, nojenta e dura. — Relaxa, você vai se acostumar.

De repente, três batidas secas vieram da porta da frente.

Gaspar paralisou. A luz que entrava pela janela expôs o semblante cavernoso do meu padrasto. 

— Abra essa porta ou vamos queimar sua casa com você dentro, Gaspar! — O homem ameaçou. — Viemos em nome de Vito Lucchese.

Aquele homem era um dos maiores chefes da máfia de San Luca, um pequeno vilarejo nas montanhas da Calábria, que era conhecido como o local de origem e um reduto chave da 'Ndrangheta.

— Merda! — Gaspar cuspiu. — Fique aqui... já volto para continuarmos brincando de gato e rato. — Falou maliciosamente e saiu, deixando a porta entreaberta.

Eu me arrastei para o canto, chorando.

Tentei me acalmar enquanto meus olhos passeavam por cada canto, pensando numa forma de escapar. 

— Signor Gaspar, non abbiamo tempo per i tuoi giochi! — O sotaque napolitano veio lá debaixo.  

"Ah, não!" Era a voz de um dos capangas do Don Vito.

— O meu chefe exige que pague sua dívida hoje! — A voz grave cortou o ar.

— Ainda não consegui o dinheiro, mas vou arrumar amanhã. — Gaspar tentou ludibriar.

Ouvi um barulho de algo pesado caindo no chão, seguido do gemido patético de Gaspar. Eu sabia que eles estavam batendo nele.

— Tenho uma oferta pra fazer pro Don Lucchese! — A voz do meu padrasto estava mais desesperada.

Houve um silêncio até que Gaspar começou a propor:

— A minha enteada é uma linda francesa, tem olhos azuis da cor do céu, cabelos pretos e uma pele de porcelana. Ela acabou de fazer dezoito anos e ainda é virgem! — Gaspar estava me oferecendo para aqueles mafiosos como se fosse uma mercadoria. 

Ainda lembro quando minha mãe segurou a mão do Gaspar há três semanas e pediu que ele cuidasse de mim e me protegesse. Não precisou de muito tempo pra aquele verme asqueroso quebrar a promessa.

— Ela pode trabalhar no clube do Vito! — Gaspar continuou. — Muitos vão querer pagar um bom dinheiro por uma garota virgem.

A raiva me queimou, superando o medo. Minha mãe prometeu uma vida nova na Itália, e eu me tornei mercadoria. Não podia aceitar aquilo.

— Você, vá até o carro e chame o chefe! — O mafioso falou com outro capanga.

— Leve essa foto dela. — Foi Gaspar quem falou. 

Deve ter pegado o único porta-retratos com a última fotografia que tirei com minha mãe.

Tudo o que ouvi depois foi o som de passos, risadas e alguns cochichos em napolitano que eu não entendi muito bem. 

— Don Vito aceitou, mas quer que levem a ragazza virgem pra casa dele — disse o outro capanga.

Com a roupa rasgada e os pés descalços, eu deslizei para fora do quarto. 

— Traga a ragazza, Gaspar!

— Ela não está em casa, Gianni! — O meu padrasto mentiu. — Foi passar alguns dias na casa da avó doente.

"Que sacana!" Franzi o cenho. Nasci e morei na França por anos e nunca conheci minha avó.

— Amanhã, voltarei para buscar a garota... — desta vez, ouvi a voz do tal do Gianni. — Tenho certeza de que o Don Vito vai querer conferir o selo da ragazza. Torça para que ela realmente seja virgem, caspita! 

— Ela é! — Gaspar assegurou.

— Andiamo... — Gianni chamou os outros homens. 

Antes que o meu padrasto retornasse ao quarto, fui correndo para o banheiro, onde fechei o trinco.

— Apareça, ratinha! — O berro dele ecoou. — Vou te ensinar a fazer algumas coisas com a boca que o Don Vito vai gostar.

Sentada no chão do banheiro, chorava e usava a minha mão para sufocar meus soluços.  Tinha que dar um jeito de fugir dali. 

— Abra essa porta, ratinha! — A voz veio junto aos socos que ele dava na madeira.

____________________________

Don Vito Lucchese.

O gelo estalou no meu copo de whisky. 

Estava sentado, olhando para a cidade lá embaixo, uma colcha de retalhos de luzes que, para mim, era apenas território. 

Por uma fração de segundos, reparei na cicatriz em meu rosto e baixei o olhar para a tatuagem que cobria os meus antebraços, escondendo algumas marcas de queimaduras de cigarro.

— Chefe! — Gianni chamou do outro lado.

— Caspita, entre logo... — mandei sem me virar.

A porta abriu. Gianni não faz barulho quando entra, ele surge. Aquele cara era um dos meus melhores capangas.

— O velho Gaspar cedeu, chefe — Gianni deixou um envelope sobre a mesa de mogno. — A dívida será quitada com a ragazza virgem.

A ragazza virgem era um investimento. Não para o Clube, mas para mim. 

— Ela é bonita? — perguntei, dando uma golada no uísque em seguida.

— Veja, senhor! 

Devagar, virei no segundo em que Gianni veio, trazendo consigo um porta-retratos.

— Inclusive, o Ricardo e Miguel já viram ela... — comentou.

Dei um sorriso contido quando reconheci a ragazza que roubou remédio na farmácia dias atrás. Na foto, ela estava num campo de lavanda ao lado de uma mulher mais velha que tinha a mesma cor dos olhos dela.

— A mãe dela concorda? — Olhei de esguelha para Gianni.

— Parece que morreu há alguns dias. — A voz de Gianni é direta, sem floreios. — Como sempre, o Gaspar estava bêbado, com cheiro de esgoto. 

— Trouxe a ragazza? — perguntei.

Deixei o porta-retratos sobre a mesa e peguei meu copo e sorvi um gole do whisky.

— O Gaspar disse que ela estava na casa da avó doente — Gianni mencionou.

Continuei focado naquela fotografia sobre a minha mesa. Aquelas pupilas da ragazza virgem tinham um tom azul que parecia roubado do céu, contrastando com os cabelos escuros. 

Era o tipo de beleza que não se via diariamente pela cidade. Simples, sem as maquiagens pesadas das garotas da boate. Ela parecia ser pura.

— Nunca vi essa ragazza pela cidade — comentei, avaliando o ativo.

— É francesa.

— Quantos anos? — Encarei Gianni.

— Acabou de fazer 18.

Terminei o whisky e deixei o copo na mesa antes de dizer:

— Voltem à casa do Gaspar e tragam a ragazza virgem imediatamente. 

— Mas ela está com a nonna dela!

— Pegue o Gaspar e obrigue-o a mostrar o local.

— Sim, chefe!

— E garanta que todos os envolvidos entendam que a ragazza é minha e eu não permito que ninguém toque no que é meu. — O aviso não era para Gianni, mas para os outros descarados do meu bando. 

— Entendido, chefe.

Eu o dispensei com um aceno. Olhei para a foto, ansiando ser o primeiro a marcar aquela ragazza.

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