
A Vingança Fria da Esposa Estéril
Capítulo 3
Ponto de Vista de Helena:
Heitor não voltou para casa naquela noite. Eu não esperava que voltasse. As palavras sussurradas de Lorena, "minha gravidez está progredindo bem", ecoavam em minha mente, um lembrete constante de sua traição. Enquanto eu estava acordada na casa silenciosa, ele estava, sem dúvida, com ela, fazendo o papel de pai dedicado para o filho em desenvolvimento deles. O pensamento era uma marca em brasa, mas também alimentava minha determinação.
A luz da manhã trouxe uma aparência de calma, mas meus nervos ainda estavam à flor da pele. Meu celular vibrou, uma distração bem-vinda. Era Benício.
"Helena? Tudo pronto para a transferência da patente?" Sua voz era baixa, cautelosa.
"Sim, pai. Heitor assinou ontem à noite, disfarçado de acordo de separação. Ele nem leu." Uma satisfação sombria torceu meus lábios. "A tecnologia foi formalmente transferida para as Indústrias Vasconcelos."
"Excelente. Jayme cuidará disso a partir de agora. Ele já começou o trabalho preliminar para integrar sua patente. Mas sobre o outro assunto... as provas contra eles." Benício fez uma pausa. "Meu pessoal está tendo problemas. Heitor cobriu seus rastros meticulosamente. Não conseguimos encontrar nenhuma evidência direta dele causando intencionalmente seus abortos. Nenhum rastro de papel, nenhuma transação suspeita para médicos."
Meu coração afundou. Eu esperava que a gravação fosse suficiente, mas era apenas uma confissão verbal entre conspiradores. Provava a intenção, sim, mas a ação direta era mais difícil de provar. "Então, e agora?" Minha voz estava tensa de frustração.
"Precisamos de algo mais. Algo de seus dispositivos pessoais. Seu computador particular, talvez. Ele é arrogante o suficiente para manter detalhes incriminadores lá, pensando que ninguém jamais olharia."
"O escritório dele é muito público. Mas ele tem um escritório seguro em casa. Eu sei as senhas dele." Um pensamento arrepiante se formou em minha mente. "Eu posso conseguir."
"Tem certeza? É arriscado," Benício alertou.
"Eu serei cuidadosa. Eu tenho que ser. Pelo meu bebê." Minha mão instintivamente foi para minha barriga ainda lisa. "Quando posso fazer isso?"
"Esta noite. Ele estará na gala da Almeida Corp. Lorena estará lá também, é claro." Sua voz estava tingida de desgosto. "É a janela perfeita."
"Entendido." Eu estava prestes a desligar quando meu outro celular, um descartável que eu mantinha para emergências, vibrou freneticamente. Minha mãe biológica.
Hesitei, depois atendi. "Mãe?"
"Helena! Oh, graças a Deus! Eles me pegaram! Eles me pegaram!" Sua voz era estridente, aterrorizada.
Um pavor frio me dominou. "Quem te pegou? Do que você está falando?"
"São os agiotas! Eles me encontraram! Estão exigindo dinheiro, Helena! Por favor, você tem que me ajudar!" Ela lamentou, sua voz falhando.
Então, uma voz masculina e rude interrompeu. "Escuta aqui, garota rica. Sua mamãe nos deve muito dinheiro. Cinquenta milhões. Você tem até a meia-noite. Sem polícia. Tente qualquer coisa, e ela desaparece. Entendeu?"
Minha mente disparou. Cinquenta milhões. Era uma quantia enorme, mas não impossível para mim. Minha mãe biológica, que me abandonou ao nascer e só se reconectou para sugar a riqueza do meu pai adotivo, estava agora em perigo. Apesar dos anos de manipulação e decepção, um instinto primitivo de protegê-la se agitou dentro de mim. Ela ainda era minha mãe, de alguma forma distorcida. Meu pai, Benício, sempre a desprezou e a minha família biológica por sua ganância. Mas eu sempre senti um senso de dever filial, um desejo desesperado por sua aprovação, por mais fugaz que fosse.
"Eu entendo," eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Onde eu levo o dinheiro?"
Ele recitou um endereço, um distrito de armazéns desolado na periferia da cidade. "E lembre-se, sem truques. Ou sua mamãe já era."
Desliguei, meu coração uma batida frenética no peito. O laptop de Heitor podia esperar. Esta era uma ameaça imediata. Liguei para Benício de volta, explicando a situação em frases curtas e secas.
"Helena, ela nunca te trouxe nada além de problemas," Benício disse, sua voz tingida de exasperação. "Deixe a polícia cuidar disso."
"Não, pai. Eles disseram sem polícia. E... eu não posso simplesmente deixá-la morrer. Ela ainda é minha mãe." As palavras pareciam vazias, mas verdadeiras de uma forma que eu não conseguia articular. Era uma dívida que eu sentia que devia, por razões que eu ainda não conseguia compreender totalmente. Talvez fosse a conexão biológica, um membro fantasma de anseio que se recusava a ser cortado.
Benício suspirou, um som de derrota. "Tudo bem, vou providenciar o dinheiro. Mas você vai com uma equipe. Meus seguranças te encontrarão lá."
"Não. Eles disseram sem truques. Eu tenho que ir sozinha. Só eu e o dinheiro." Eu sabia que era tolice, mas senti uma compulsão inexplicável. Uma necessidade de provar algo, talvez. Para mim mesma, para ela.
Uma longa pausa. "Helena... tenha cuidado. Por favor. Você está grávida." Sua voz suavizou, um toque de preocupação superando sua frustração.
"Eu terei, pai. Eu prometo."
Em uma hora, uma maleta transbordando de notas novas foi entregue à minha porta. O peso dela parecia impossível, tanto física quanto metaforicamente. Eu nunca tinha segurado tanto dinheiro na minha vida. O pensamento de levá-lo para um local escuro e desconhecido me encheu de um pavor frio, mas os gritos abafados da minha mãe no telefone ainda ecoavam em meus ouvidos.
Dirigi até as coordenadas, minhas mãos escorregadias no volante. O distrito de armazéns era um labirinto de aço corrugado e janelas quebradas, banhado pelo brilho amarelado e doentio dos postes de luz distantes. A cada solavanco na estrada, uma dor aguda atravessava meu baixo-ventre. Meu corpo já estava frágil, os abortos repetidos cobrando seu preço. Eu tinha que ser forte. Por este bebê.
Parei no armazém designado, sua enorme porta de metal ligeiramente entreaberta. Saí, a maleta pesada fazendo meus braços doerem. O ar estava denso com o cheiro de poeira e decomposição. Eu podia ouvir gemidos de dentro.
"Mãe?" chamei, minha voz tremendo apesar dos meus esforços para controlá-la.
Uma figura emergiu das sombras. Minha mãe, desgrenhada e aterrorizada, com as mãos amarradas. Seus olhos se arregalaram quando me viu. "Helena! Você veio!"
"O dinheiro está aqui," eu disse, levantando a maleta. "Deixe-a ir."
Três homens corpulentos saíram de trás dela, seus rostos obscurecidos pela luz fraca. Um deles, a voz rude do telefone, deu um passo à frente. "Passe pra cá."
Coloquei a maleta no chão, empurrando-a em direção a eles com o pé. "Agora, deixe-a ir."
O homem abriu a maleta, seus olhos brilhando ao ver as pilhas de dinheiro. "Bom. Muito bom, garota rica." Ele estalou os dedos, e seus companheiros desamarraram minha mãe.
Ela tropeçou em minha direção, seu rosto manchado de lágrimas. "Minha filha! Você me salvou!" Ela jogou os braços ao meu redor, agarrando-se com força.
Senti uma onda de desconforto. Seu abraço parecia menos de alívio e mais de posse.
"Espere um minuto," disse o homem rude, seus olhos se estreitando ao me olhar. "Você é Helena Ferraz. A filha adotiva do bilionário da tecnologia. E esposa de Heitor Almeida."
Minha mãe, ainda agarrada a mim, deixou escapar: "Sim, ela é rica! Minha Helena é tão rica! Ela pode dar mais a vocês! Ela herdou milhões de seu pai adotivo!"
Um lampejo de pânico me atravessou. Idiota. Apertei a mão dela, um aviso silencioso. Mas era tarde demais.
Os olhos do homem se iluminaram com ganância renovada. "Bem, bem, bem. Parece que tiramos a sorte grande. Cinquenta milhões não vão ser suficientes agora, princesinha. Queremos mais. Muito mais."
"Não! Vocês não podem!" Minha mãe gritou, sua voz falhando. "Vocês disseram que me deixariam ir!"
"Os planos mudam, velhota," ele zombou. "Especialmente quando um prêmio maior entra direto na nossa armadilha."
Senti uma raiva fria crescendo dentro de mim. Minha própria mãe, me traindo novamente. Me vendendo.
"Deixe-nos ir," eu disse, minha voz perigosamente baixa. "Vocês têm o dinheiro. Não abusem da sorte."
Ele riu, um som áspero e irritante. "Ou o quê? Você vai chorar para o seu papai bilionário? Ou para o seu marido traidor?"
Essa última palavra, "traidor", foi uma faísca. Acendeu um fogo em mim. Vi minha chance. Enquanto o líder dos bandidos estava distraído com sua própria piada cruel, empurrei minha mãe para longe de mim, em direção à porta de metal ligeiramente aberta. "Corra, mãe! Agora!"
Então, com uma explosão de adrenalina, chutei a maleta, espalhando dinheiro por toda parte. Os homens xingaram, momentaneamente distraídos pelo dinheiro voando. Usei a distração, agarrando o braço da minha mãe e puxando-a em direção à saída.
"Corra!" insisti, minha voz rouca.
Saímos correndo do armazém, os gritos dos homens ecoando atrás de nós. Passos batiam no concreto, cada vez mais perto.
Um tiro estalou na noite. Senti uma dor lancinante no ombro. Minha mãe ofegou, um soluço aterrorizado rasgando sua garganta. Seu peso era uma âncora morta em meu braço, seus movimentos desajeitados de medo.
Corremos por um beco estreito, os sons da perseguição se aproximando. Meu ombro latejava, uma dor quente e ardente, mas eu a ignorei. Meu foco estava no bebê. O bebê dentro de mim.
"Mais rápido, mãe! Temos que ir mais rápido!" implorei, minha voz tensa.
Ela gemeu, seu aperto em meu braço se intensificando. "Eu não consigo, Helena! Eu não consigo!" Ela tropeçou, me puxando para baixo com ela.
Gritei, perdendo o equilíbrio. Caímos por um pequeno e íngreme barranco de concreto, aterrissando com força em um monte. Uma dor aguda e agonizante rasgou meu baixo-ventre, uma sensação familiar e aterrorizante. Não. De novo não. Por favor, de novo não.
Instintivamente, encolhi-me em posição fetal, protegendo minha barriga com os braços. Uma umidade quente e pegajosa se espalhou entre minhas pernas. Minha visão turvou.
Um leve tremor. Um movimento minúsculo e desesperado de dentro. Meu bebê. Meu precioso e inocente bebê. Eles ainda estavam lutando.
"Não, não, não," gemi, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Lembrei-me das palavras da médica: Seu corpo não aguenta muito mais. Minha visão começou a embaçar, o mundo desvanecendo para um cinza opaco.
A última coisa que vi foi o rosto de Heitor, seus olhos arregalados com uma paródia grotesca de preocupação, enquanto ele corria em minha direção, empurrando os bandidos. Ele se ajoelhou ao meu lado, suas mãos me alcançando. "Helena! O que aconteceu? Meu Deus!"
Ele me puxou para seus braços, seu toque abominável. Mas eu estava fraca demais para lutar contra ele. Fraca demais para fazer qualquer coisa além de ofegar por ar, a dor me consumindo por inteiro. Meu corpo se contraiu, uma contração final e brutal.
Então, a escuridão. Doce e abençoada escuridão.
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