
A Vingança do Magnata
Capítulo 2
A noite havia caído quando Valentina se deitou na cama, incapaz de silenciar a tempestade que se desenrolava em sua mente. O rosto de Alejandro Montenegro ainda pairava em sua consciência, imponente, como uma sombra que se recusava a desaparecer. O homem que ela amara, o homem que deixara para trás, agora era o mesmo que a observava com a frieza de um estranho. Já se haviam passado anos, mas sua presença ainda era tão real quanto na primeira vez em que o conhecera.
Ela voltou a olhar a carta que Alejandro lhe entregara naquela tarde. Cada palavra escrita parecia fincar uma agulha em seu peito. Como ele podia ser tão... cruel? Ou talvez, apenas talvez, fosse ela quem não entendia as regras do mundo dele. Alejandro Montenegro nunca fora um homem sentimental. Sempre fora um estrategista, um homem de negócios. E se havia decidido voltar agora, não era apenas por vingança, mas por algo mais profundo. Algo que ela não compreendia, mas sentia com cada fibra do seu ser.
A porta do quarto se abriu lentamente. Era sua mãe, com aquele olhar preocupado que sempre tinha quando algo não estava bem.
- Filha, está acordada? - perguntou com suavidade, notando a expressão tensa no rosto da filha.
Valentina assentiu, permitindo que a mãe se aproximasse e se sentasse ao seu lado na cama. O silêncio se instalou entre as duas, como um entendimento tácito de que a situação estava fora de controle. Por fim, foi a mãe quem quebrou o silêncio.
- Não sei o que fazer, Valentina. Não sei se devemos aceitar o que ele propõe ou rejeitar. Tudo isso me preocupa muito. Você sabe como está a situação da empresa, não conseguimos continuar sem ajuda. E aquela carta... aquela proposta... não sei se é uma bênção ou uma condenação.
Valentina observou sua mãe, com os cabelos já brancos e as mãos trêmulas, como se cada um daqueles anos tivesse cobrado seu preço. A família Duarte nunca fora rica, mas sempre fora honrada, com um nome respeitado no mundo dos negócios. Agora, tudo isso estava à beira da falência. A ameaça de perder tudo o que haviam construído era real, e a proposta de Alejandro parecia ser a única salvação. Mas a que preço?
- Eu sei, mãe. Mas eu não posso aceitar isso. Não posso fazer isso com a minha vida... comigo mesma. O que ele pede é demais.
A mãe a encarou com um olhar firme, uma mistura de preocupação e sabedoria.
- Às vezes, Valentina, a gente precisa tomar decisões difíceis. Nem tudo na vida é preto no branco. Talvez essa seja a nossa única chance. Sempre te disse que, nos negócios, às vezes é preciso ceder para conquistar algo maior.
Valentina respirou fundo, sentindo o peso daquelas palavras. Sua mãe tinha razão. Estava presa em uma encruzilhada, uma onde nenhuma saída parecia limpa.
No dia seguinte, Valentina foi até o escritório da mãe. O negócio da família, uma pequena mas sólida rede de armazéns e distribuição, estava prestes a colapsar por conta de uma série de más decisões financeiras. Valentina havia tentado de tudo para salvá-lo, mas as dívidas se acumulavam rapidamente e as oportunidades de investimento eram cada vez mais raras.
O telefone sobre a mesa vibrou com força. Era uma mensagem de Alejandro:
"Te espero às três no meu escritório. Preciso da sua resposta."
As mãos dela tremeram ao ler. Ele não estava disposto a esperar mais. Valentina olhou para o relógio, consciente de que o tempo estava se esgotando.
Às três em ponto, ela chegou ao imponente prédio da empresa Montenegro. Um arranha-céu moderno, com paredes de vidro que refletiam o céu da cidade. Quando entrou, a porta automática se abriu silenciosamente, como se ela fosse apenas parte da decoração. A recepção estava vazia, e a secretária - uma mulher jovem e eficiente - a conduziu diretamente ao elevador. Sem sorrisos, sem gentilezas. Apenas uma tensão palpável no ar.
O elevador subiu sem pressa, levando-a até o último andar - o escritório de Alejandro. Ao sair, Valentina se viu em um longo corredor decorado com obras de arte caras e modernas. A porta do escritório de Alejandro estava aberta, como se a convidasse a entrar.
Ao cruzar o limiar, ela o viu sentado atrás de uma mesa de mogno, lendo um arquivo sem sequer levantar os olhos. Seus olhos frios e calculistas permaneciam fixos nas páginas à sua frente.
- Boa tarde, Valentina - disse ele, sem emoção na voz.
Valentina fechou a porta atrás de si, com uma determinação que não sentia totalmente, mas tentava fingir.
- Eu li sua proposta - disse sem rodeios. - E não tenho certeza se é isso que preciso. Tampouco sei se o que você me pede é justo.
Alejandro finalmente levantou os olhos, fixando-os nos dela como se esperasse que ela dissesse mais.
- A vida não é justa, Valentina - respondeu com calma, a voz carregada de uma seriedade que a fez se encolher por dentro. - Se aceitar esse acordo, não apenas salvará sua família. Eu vou te devolver tudo o que você perdeu. O poder, o controle, a estabilidade.
Valentina permaneceu imóvel, sentindo seu mundo girar ao redor.
- E o que você ganha com isso? - perguntou, franzindo a testa.
- O que eu quero, Valentina, é vingança. Você me deixou anos atrás sem nenhuma explicação, como se eu não significasse nada. Esse contrato não é apenas uma forma de salvar sua empresa. É uma forma de corrigir o que foi quebrado entre nós.
O ar entre os dois parecia mais denso. Valentina se aproximou da mesa, sem saber ao certo o que pensar. Como um homem tão bem-sucedido, tão cheio de poder e ambição, podia se agarrar a algo tão pequeno quanto um orgulho ferido?
- Eu não posso fazer isso - disse de repente, com a voz firme, ainda que com um nó na garganta. - Não posso me tornar o que você espera de mim. Não depois de tudo o que aconteceu.
Alejandro a encarou e, por um momento, algo em seu olhar mudou. A frieza se desfez por um instante, como se uma emoção oculta tivesse escapado. Mas antes que Valentina pudesse compreender aquela mudança, ele se levantou da cadeira e caminhou até ela com passos firmes.
- Então não há mais nada a discutir - disse em voz baixa, parando bem à sua frente. - Mas lembre-se de uma coisa, Valentina. O tempo está passando. E se não aceitar minha oferta, perderá tudo.
Valentina sentiu que o mundo desabava ao seu redor. Tudo o que ela havia sido, tudo o que havia construído, dependia de uma decisão que estava prestes a tomar. Aceitar o impossível... ou lutar contra a maré?
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