
A Vingança Dela Nasce do Manicômio
Capítulo 3
A limusine preta blindada que Jonas providenciou deslizava silenciosamente pela noite de Campos do Jordão, um contraste gritante com o caos que deixei para trás.
Meu braço pulsava com uma dor surda, um lembrete constante do custo físico do meu retorno.
Recostei-me nos assentos de couro macio, minha mente já dissecando o encontro, calculando o próximo movimento.
O ódio cru de Alice, a raiva cega de Caio — tudo estava indo conforme o planejado.
De repente, o carro deu um solavanco violento, depois parou de forma abrupta e chocante.
Minha cabeça foi jogada para frente, batendo contra o encosto.
Uma dor aguda disparou pelo meu pescoço. O cinto de segurança, projetado para segurança, cravou no meu ombro.
O zumbido silencioso da eletricidade morreu, substituído por uma quietude sinistra.
"O que está acontecendo?" exigi, minha voz afiada, a adrenalina disparando.
Tentei a maçaneta da porta. Trancada.
Tentei a janela. Não se mexia. A trava de segurança infantil estava acionada.
O carro estava selado, uma gaiola de luxo em um trecho deserto da estrada.
Um zumbido baixo e metálico encheu o carro, então a voz de Caio, fria e desencarnada, preencheu a cabine através do sistema Bluetooth.
"Gostando do passeio, Camila? Você não deveria ter voltado. E certamente não deveria ter tocado no cachorro da Alice."
A voz dele era desprovida de emoção, um tom monótono e arrepiante.
"Você acha que pode simplesmente fazer o que quiser agora? Ir embora? Não é assim que funciona."
Meu coração batia forte, um tambor frenético contra minhas costelas.
Ele não estava apenas me ameaçando; estava decretando uma punição.
Isso não foi um colapso repentino; foi premeditado.
A raiva fria que senti antes solidificou-se em uma determinação dura como diamante.
Ele ia tentar me quebrar de novo.
Soquei as janelas, as portas, inutilmente. O vidro era grosso, à prova de balas.
O carro era uma fortaleza, impenetrável por dentro.
Tentei meu celular. Sem sinal. Ele tinha pensado em tudo. Ele orquestrou isso.
Então, a temperatura no carro começou a cair.
Uma rajada de ar gélido, depois outra, encheu a cabine.
O controle climático, ajustado para congelar, mordia minha pele.
Minha respiração formava nuvens no ar frio.
O ferimento no meu braço latejava, uma nova onda de dor me invadindo.
Ele ia me congelar, literalmente.
Queria me lembrar da minha impotência, do poder absoluto dele sobre minha vida.
Encolhi-me contra o assento, tentando conservar calor, tentando ignorar o frio cortante que se infiltrava nos meus ossos.
Meu corpo, já machucado e surrado pelo manicômio, pelo ataque do Duque, começou a tremer incontrolavelmente.
Isso era um novo nível de crueldade, calculado e preciso.
Minha mente, apesar da dor e do medo, vagou de volta.
Lembrei de um carro diferente, um tempo diferente.
Anos atrás, antes da amargura, antes da traição.
Caio e eu, dirigindo pela cidade numa noite fresca de outono.
Tínhamos acabado de começar a namorar, um romance turbulento após o "resgate" dele por Alice.
Ele tinha sido tão charmoso, tão atencioso.
Ele me puxava para perto, o braço um peso quente e protetor em volta dos meus ombros.
Ele costumava dizer: "Você está segura comigo, Camila. Sempre."
Aquelas palavras, um dia um bálsamo para minha alma, agora pareciam uma piada cruel.
Ele prometeu segurança, depois entregou uma prisão.
Ele prometeu amor, depois ofereceu apenas manipulação e traição.
Minha mente repassou o rosto dele enquanto segurava Alice, enquanto corria para a criança engasgada.
Ele olhou para eles com uma intensidade que um dia fora reservada para mim, naqueles breves e preciosos momentos em que acreditei que ele realmente me via.
As memórias, afiadas e dolorosas, eram um contraste gritante com a realidade gélida da limusine.
Ele não era o homem que eu amei. Aquele homem, se é que existiu, estava morto há muito tempo.
Este Caio, este homem frio, calculista e faminto por poder, era um estranho.
Não havia volta, nem reacendimento, nem esperança para o que fomos um dia, ou o que eu esperava que pudéssemos ser.
O amor que um dia senti, uma coisa frágil e trêmula, finalmente congelou, estilhaçado pela crueldade deliberada dele.
Minha visão embaçou.
O frio, combinado com a perda de sangue e a exaustão, estava cobrando seu preço.
Minhas pálpebras ficaram pesadas.
Lutei contra isso, lutei contra a escuridão rastejando nas bordas da minha visão, mas meu corpo estava falhando.
O último pensamento antes que a escuridão me consumisse foi no meu filho, um grito silencioso de desafio contra o homem que roubou tudo.
Ele pagaria. Todos eles pagariam.
Um jato de água gelada me chocou, me acordando.
Meus olhos se abriram, meu corpo convulsionando em um tremor violento.
Minha cabeça latejava, meu braço gritava em protesto.
Arfei, sugando o ar gélido, desorientada e com dor.
"Levante-se, Camila. Você tem plateia."
A voz de Caio, agora ao vivo e direta, cortou a névoa.
Ele estava de pé sobre mim, o rosto sombrio, um balde na mão.
Alice estava ao lado dele, envolta em um casaco de pele grosso, um sorriso presunçoso e venenoso nos lábios.
Eu não estava mais na limusine.
Estava do lado de fora, no frio cortante, ajoelhada no chão duro e congelado.
Meu corpo doía, cada músculo gritando em protesto. Desorientada, olhei em volta.
Meu sangue gelou.
Eu estava no Mausoléu da Família Ferraz.
Uma estrutura gótica grandiosa, esculpida em pedra escura e imponente, repousava solenemente em meio a árvores antigas e despidas pelo inverno.
Era aqui que os mortos da família Ferraz dormiam.
Era aqui que as cinzas do meu filho estavam trancadas, atrás de uma porta pesada de bronze, acessível apenas pela leitura biométrica de Caio.
Meu objetivo final. Minha razão para suportar isso.
E agora, o mausoléu, o local de descanso sagrado do meu filho, estava profanado.
Uma casinha de cachorro tosca e colorida montava guarda na entrada, um insulto berrante contra a pedra sombria.
No telhado dela, uma foto pequena em moldura prateada de Duque, o Doberman morto de Alice, estava apoiada, cercada por flores murchas.
Era um insulto cruel e calculado.
O local de descanso do meu filho havia sido transformado em um santuário para o cachorro dela.
Uma nova onda de luto, afiada e potente, rasgou-me por dentro.
Era crua, não convidada, do tipo que rouba seu fôlego e paralisa sua alma.
Eles fizeram isso.
Tiraram cada pedaço da minha vida, cada memória, cada fragmento de dignidade, e agora estavam me provocando com a profanação da memória do meu filho.
"Saiam de perto daí!" grasnei, minha voz crua, minha garganta queimando.
Tentei me levantar, tentei correr em direção ao mausoléu, em direção à casinha de cachorro, para derrubá-la, para reivindicar a paz do meu filho.
Mas mãos fortes, pertencentes a dois seguranças corpulentos, agarraram meus braços, segurando-me firmemente no lugar.
Eles estavam esperando. Eles sempre estavam esperando.
"Ah, o instinto materno," Alice ronronou, a voz pingando falsa simpatia.
Ela se aproximou, a respiração formando nuvens no ar frio, os olhos brilhando de malícia.
"Ainda agarrada a essa fantasia, Camila? Não tem nada aí para você. Apenas... cinzas."
Ela deu de ombros, um gesto desdenhoso.
"E o Duque. Meu lindo e leal Duque. Ele merecia um memorial adequado, ao contrário de... alguns."
O olhar dela piscou para o meu rosto, uma zombaria cruel de um sorriso.
"Me dê as cinzas do meu filho," exigi, as palavras arrancadas do meu peito. "Devolva ele!"
Alice riu, um som alto e quebradiço.
"Nunca. Ele está exatamente onde pertence. Com os Ferraz. Ele é um Ferraz, afinal. Ou pelo menos, teria sido, se você não tivesse sido tão... descuidada."
Ela se virou para Caio, um suspiro dramático escapando de seus lábios.
"Ela é tão volátil, Caio. Sempre foi. Lembra o que aconteceu da última vez? Como ela se recusou a admitir o vício?"
Caio deu um passo à frente, o rosto sombrio.
Ele pegou uma pequena urna elegante de um pedestal próximo, um belo vaso de porcelana.
Meu coração saltou. Seria...?
Não. O pequeno nome gravado na lateral, 'Duque Ferraz', esmagou minha esperança.
"Nós só queremos que você peça desculpas, Camila," disse Caio, a voz plana, desprovida de calor.
"Por tudo. Por machucar a Alice. Por matar o cachorro dela. Por perturbar nossas vidas. Um pedido de desculpas público. Um vídeo para as redes sociais. Apenas admita que estava errada, e podemos seguir em frente. Pelo bem do nome Ferraz. Pelo bem do preço das ações da empresa."
Ele gesticulou para a casinha de cachorro, para o mausoléu.
"Ou este será o local de descanso permanente do seu filho. Para sempre ofuscado pelo cachorro que você assassinou."
As palavras me atingiram como um golpe físico.
Ele estava mantendo a memória do meu filho como refém, explorando meu luto, transformando-o em uma arma contra mim.
Ele queria que eu rastejasse, que me humilhasse publicamente, que confessasse as mentiras dele, tudo para proteger sua imagem, sua empresa, sua nova vida com Alice.
Ele ainda era o mesmo homem, ainda tentando me controlar, me quebrar.
Ele ainda me via como uma coisa quebrada que precisava ser gerenciada.
Meu corpo tremia, não de frio, mas de uma onda de fúria incandescente que ameaçava me consumir.
Era isso. A profanação final. O insulto definitivo.
"Pedir desculpas?"
Cuspi a palavra, minha voz crua e quebrada, a fachada cuidadosamente construída rachando sob o peso desse novo ultraje.
"Pedir desculpas por me defender? Pedir desculpas por lembrar a verdade? Nunca."
Meus olhos, queimando com lágrimas não derramadas, fixaram-se nele.
"Você quer que eu implore, Caio? Quer que eu faça o papel de louca de novo? Tudo bem."
Afundei de joelhos, não em submissão, mas em desafio.
O frio infiltrou-se no meu vestido fino, gelando-me até os ossos. Meu braço latejava, uma dor surda e insistente.
"Você quer que eu rasteje pelas ações da sua preciosa empresa, pelo nome da sua família? Pelo cachorro dela?"
Gesticulei loucamente para Alice, que assistia com um sorriso triunfante.
"Você destruiu minha vida. Roubou meu filho. Me trancou."
Lágrimas, quentes e reais desta vez, escorreram pelo meu rosto.
"E agora você mantém as cinzas dele como reféns."
Minha voz quebrou, um som cru e atormentado que rasgou o ar frio da noite.
"Eu vou te dar seu pedido de desculpas, Caio. Vou te dar seu maldito vídeo. Mas saiba disto."
Meus olhos, injetados e desesperados, encontraram os dele.
"Você vai se arrepender disso mais do que qualquer coisa que já fez. Eu juro. Pelo túmulo do meu filho. Você vai se arrepender de cada segundo que desperdiçou amando ela."
Apontei um dedo trêmulo para Alice.
"Nós acabamos. E você vai perder tudo."
O maxilar dele trincou, os olhos se estreitando.
Ele ainda acreditava que tinha vencido, que eu estava quebrada.
Mas algo nos meus olhos, na força pura do meu desespero, pareceu fazê-lo hesitar. Um lampejo de dúvida, uma pitada de desconforto.
Alice, sentindo a hesitação dele, deu um passo à frente.
"Não dê ouvidos a ela, Caio! Ela só está tentando te manipular! Ela sempre foi louca! Lembra das drogas? Das alucinações?"
Ela puxou o braço dele, a voz estridente.
"Faça ela fazer o vídeo agora! Antes que ela mude de ideia!"
Caio olhou de Alice para mim, depois de volta para o mausoléu, para a casinha de cachorro berrante.
O conflito interno dele, por mais breve que fosse, era claro.
A imagem, a família, a percepção pública. Ele fez sua escolha.
"Pegue a câmera," ele ordenou a um dos seguranças, a voz dura, definitiva.
Ele se virou para mim, o rosto desprovido de misericórdia.
"Você vai dizer o que eu mandar você dizer, Camila. Ou nunca mais verá essas cinzas. Entendeu?"
Encontrei o olhar dele, minhas lágrimas agora secas, meu rosto uma máscara de fúria fria.
"Eu entendo, Caio," sussurrei, as palavras carregando uma promessa de devastação. "Ah, eu entendo perfeitamente."
O segurança voltou, segurando uma câmera profissional, a lente fria e indiferente.
Caio me observava, a expressão inflexível.
Alice pairava ao lado dele, uma predadora saboreando sua presa.
Este era o momento de triunfo deles. Eles pensavam que eu estava derrotada.
Estavam errados. Isso era apenas o começo.
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