
A Vingança de Miguel
Capítulo 3
Miguel voltou para casa, mas a casa não parecia um lar. Risadas e conversas alegres vinham da sala de estar, mas o som parou abruptamente quando ele entrou. Sua mãe, Cláudia, seu padrasto, e Larissa estavam sentados no sofá, assistindo TV. Eles o olharam com uma mistura de irritação e desprezo.
"Onde você esteve?", Cláudia perguntou rispidamente. "O jantar já esfriou."
Miguel não respondeu. Ele olhou para a mesa de jantar. Havia pratos elaborados, todos os favoritos de Larissa. Em um canto, coberto por uma tampa, estava um prato solitário para ele – restos de ontem.
Era sempre assim. Desde que Larissa entrou em suas vidas, Miguel se tornou um estranho em sua própria casa. O amor e a atenção de seus pais foram todos desviados para a "pobre e órfã" Larissa, enquanto ele, o filho biológico, era tratado com indiferença e, às vezes, hostilidade.
Ele foi para a cozinha, pegou seu prato e comeu em silêncio no balcão, o som da família rindo na outra sala soando como um eco distante em seus ouvidos.
Depois de comer, ele foi para seu quarto. Ou o que costumava ser seu quarto. Agora, era pouco mais que um depósito úmido e mofado no porão. Seu quarto original, ensolarado e espaçoso, havia sido dado a Larissa porque ela "precisava de mais luz solar para sua saúde delicada".
Ele se sentou na beirada da cama estreita, o cheiro de mofo enchendo seus pulmões. A escuridão e o desespero o envolviam como um sudário. Ele pensou em Sofia, deitada em uma cama de hospital, lutando por sua vida. A raiva e a impotência o consumiam.
A porta se abriu com um rangido e sua mãe entrou. Seu rosto estava duro.
"Miguel, precisamos conversar," ela disse, sem rodeios. "A família Vargas entrou em contato. Eles estão dispostos a pagar as despesas médicas de Sofia."
Miguel olhou para ela, incrédulo. "É só isso? Pagar as despesas? Eles quase a mataram!"
"O que mais você quer?", Cláudia retrucou. "Eles são uma família poderosa. Não podemos lutar contra eles. Você deveria ser grato por eles estarem oferecendo alguma coisa!"
"Grato?", Miguel sibilou, levantando-se. "Eles deveriam estar na cadeia! O filho deles deveria pagar pelo que fez!"
"Não seja ingênuo!", sua mãe gritou. "Você vai arruinar esta família com sua teimosia! Nós te criamos, te demos tudo. E é assim que você nos retribui? Causando problemas que não podemos resolver?"
Era a clássica chantagem emocional. A dívida de gratidão que eles sempre jogavam na cara dele. Miguel sentiu seu coração se transformar em uma pedra de gelo.
Nesse momento, Larissa apareceu na porta, seus olhos vermelhos de tanto chorar (ou fingir chorar). "Mãe, não brigue com o Miguel," ela disse com uma voz trêmula. "É tudo culpa minha. Se eu não estivesse aqui, nada disso teria acontecido."
Ela se virou para Miguel, com o rosto cheio de uma falsa culpa. "Miguel, por favor, pare. Pelo bem da família. Eu... eu posso ir falar com a família Vargas. Eu posso me ajoelhar e implorar a eles, se for preciso."
A performance era tão convincente que Cláudia imediatamente a abraçou. "Oh, minha querida, não diga isso. Você é a vítima aqui. É este seu irmão ingrato que não consegue ver a razão."
Ela se virou para Miguel, seus olhos brilhando de fúria. "Olhe para a sua irmã! Ela está disposta a se humilhar por esta família, enquanto você só pensa em sua vingança estúpida! Você não tem vergonha?"
Antes que Miguel pudesse responder, a mão de seu padrasto o atingiu no rosto. A bofetada foi tão forte que o jogou para trás, na parede úmida. Um gosto metálico de sangue encheu sua boca.
Ele olhou para os três – sua mãe, seu padrasto e Larissa – parados ali, olhando para ele como se ele fosse um monstro. Nenhum traço de preocupação em seus rostos, apenas raiva e acusação.
Naquele momento, algo dentro de Miguel se quebrou. A última centelha de esperança, o último vestígio de amor por aquela família, se extinguiu completamente. Ele não sentia mais dor, apenas um vazio frio e entorpecente.
Ele limpou o sangue do canto da boca com as costas da mão e olhou para eles, seus olhos desprovidos de qualquer emoção.
"Tudo bem," ele disse, sua voz assustadoramente calma. "Vocês venceram."
Ele se endireitou, passou por eles e saiu do quarto. Ele não olhou para trás. Ele sabia, com uma certeza absoluta, que nunca mais voltaria para aquela casa. A decisão estava tomada. Ele os deixaria para sempre, e encontraria seu próprio caminho para a justiça, não importando o custo.
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