
A Vingança Da Gênia Literária Disfarçada
Capítulo 3
Ponto de Vista de Holly Erickson:
No dia seguinte, Kade ainda estava inacessível. O celular dele caía direto na caixa postal, e suas mensagens não eram respondidas. Eu dizia a mim mesma que ele estava ocupado, cuidando de Dani, que precisava de tempo. Mas o pavor gélido em meu estômago só se intensificava.
Encontrei Chloe, a amiga de Sarah, do lado de fora da biblioteca. Ela me lançou um olhar compreensivo, mas estranhamente conhecedor. "Ele está com a Dani, sabe", disse ela, com a voz escorrendo uma doçura artificial. "Dani teve outro de seus 'episódios'. Coitadinha. Kade está sempre lá por ela. Eles são... incrivelmente próximos."
"Eu sei", eu disse, com a voz tensa. "Eu estava lá."
Chloe apenas deu de ombros. "Ah, é mesmo. Mas sabe, Kade está realmente ocupado com a Dani. Ele não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo." Ela se inclinou, em tom de conspiração. "Ele ficou muito chateado com toda aquela história da Amelia Carpenter. Ela simplesmente não o deixa em paz. E a Dani... bem, a Dani odeia qualquer um que tire a atenção do Kade."
Amelia. A irmã de Kahlil Carpenter. A mulher com quem Kade havia saído e depois dispensado sem cerimônia, o que levou ao seu suposto colapso nervoso. A mesma Amelia que havia zombado de Dani. As peças começaram a se encaixar, formando uma imagem que eu não queria ver.
Mais tarde naquela noite, finalmente consegui falar com um dos confidentes próximos de Kade, Mark. Ele geralmente era jovial, mas sua voz estava tensa. "Olha, Holly, Kade está com muitos problemas. A Dani não está bem. A família... eles estão sob muita pressão agora com a reeleição do senador se aproximando. Qualquer instabilidade, especialmente envolvendo a Dani e... assuntos pessoais, poderia ser desastrosa."
"Mas o que isso tem a ver comigo?", perguntei, com a voz pouco acima de um sussurro.
Mark hesitou. "Olha, Kade... ele precisa de um escudo. Algo para desviar a atenção. Alguém que não seja... sabe, a Amelia. Alguém para manter os rumores longe da Dani."
A palavra "escudo" me atingiu como um golpe físico. Minha respiração falhou. Por algum motivo, eu soube instantaneamente o que ele queria dizer. O bullying, as ameaças, até mesmo o sequestro — tudo voltou à tona, mas agora com uma clareza nauseante. O "perigo" não era para nós. Era para ele e sua família. E eu era o alvo conveniente e discreto. Aquela que poderia absorver os golpes sem levantar muitas questões, distraindo todos do estranho e intenso laço entre Kade e sua meia-irmã.
Meu sangue gelou. *Vai ser perigoso*. Lembrei-me de seu aviso, do brilho gélido em seus olhos. Ele não estava me avisando por minha causa. Ele estava me avisando que eu estava prestes a me tornar um dano colateral. Minha cabeça girou. Senti uma onda de náusea.
Tentei ligar para Kade novamente. Desta vez, ele atendeu. Sua voz estava cansada, monótona. "Holly, olha, não posso falar agora. A Dani precisa de mim."
"Kade", consegui dizer, com a voz trêmula. "Eu sou um escudo?"
Silêncio. Um silêncio longo e agonizante do outro lado da linha. Então, um suspiro. "Holly, é complicado. Você não entenderia."
"Tente", eu disse, minha voz ganhando força, tingida de uma amargura que eu não sabia que possuía. "Você me usou? Você deixou que me machucassem para proteger a Dani? Para proteger a imagem da sua família? Para esconder a obsessão dela por você?"
Outro silêncio. Então, sua voz, desprovida de emoção, uma verdade fria e dura. "A Dani é vulnerável. Os Carpenters são impiedosos. Eles usariam qualquer coisa contra nós — especialmente rumores sobre nossa dinâmica familiar. Eles já causaram danos suficientes com a Amelia. Eu tinha que protegê-la. Eu tinha que fazer isso."
As palavras me cortaram, mais frias que qualquer vento de inverno. Ele não negou. Ele admitiu. O homem por quem eu havia me apaixonado, o homem por quem eu havia suportado tanto, me colocou deliberadamente em perigo. Ele me viu sofrer, acreditando que era um sacrifício necessário para manter sua meia-irmã feliz e o segredo de sua família a salvo.
"Você alguma vez... você alguma vez se importou comigo?" A pergunta era um apelo desesperado, uma tentativa de salvar qualquer resquício de dignidade, qualquer pedaço da bela mentira sobre a qual eu havia construído nosso relacionamento.
"Holly, você é uma boa pessoa", disse ele, com a voz mais suave agora, quase uma forma de apaziguamento. "Mas isso... isso é maior do que nós. É sobre família. É sobre sobrevivência."
Sobrevivência. A sobrevivência dele. A sobrevivência de Dani. E eu era apenas um peão descartável em seu jogo de altas apostas. Meu peito doía com uma dor tão profunda que parecia física. Como um caco de vidro irregular se revirando dentro de mim. Minhas lágrimas não vinham. Havia apenas um vazio oco e retumbante.
Eu encerrei a chamada. Meu apartamento parecia sufocante. Andei tropeçando, entorpecida, até que meu celular vibrou novamente. Era minha agente, ligando de New York.
"Holly! Finalmente! Estou tentando falar com você o dia todo!" A voz dela era animada, enérgica, alheia ao abismo que acabara de se abrir em minha vida. "O novo manuscrito de K.B. Barry? É uma obra-prima! A editora vai dar uma festa de lançamento, eles querem que você venha para cá na próxima semana. E os direitos do filme? Estão bombando!"
K.B. Barry. O nome parecia estranho, desconectado da casca vazia em que eu havia me tornado. O romancista mundialmente famoso, o gênio literário. Eu havia buscado o anonimato para escapar da pressão, mas também para encontrar algo real. Para encontrar o amor, uma conexão genuína, uma pessoa que me visse por quem eu era, não pelo meu sucesso.
"Holly? Você está aí? Você parece... distante." A voz da minha agente agora estava tingida de preocupação. "Está tudo bem? Você tem estado tão quieta desde que começou a universidade. Essa história toda de 'estudante normal', eu sabia que era uma fase."
Uma fase. Um disfarce. Um anseio por algo que eu não havia encontrado.
"Estou bem, Sarah", menti, com a voz monótona. "Só estou cansada."
"Bem, descanse um pouco! Temos muito trabalho a fazer. Este livro será o seu maior sucesso até agora. É verdadeiramente cru, emocional... quero dizer, a forma como você capturou aquela dinâmica mãe-filha, o luto, a traição... é simplesmente incrível. Vai ser um divisor de águas na sua carreira."
Luto. Traição. As palavras ecoaram em meus ouvidos, descrevendo perfeitamente a ferida aberta em meu peito. Meu trabalho mais pessoal, aquele em que derramei minha alma após a morte de minha mãe, aquele que explorou as profundezas agonizantes da perda e o peso esmagador de verdades ocultas. Era uma história que eu havia escrito para mim mesma, uma forma de processar o trauma do meu passado.
Minha mãe, uma jornalista brilhante, mas controversa, havia sido implacavelmente perseguida por famílias políticas poderosas por expor sua corrupção. Ela tinha um perfil muito alto, era muito barulhenta, muito visível. E então, ela se foi. Um "acidente", disseram eles. Mas eu sabia. Eu estava lá. Eu tinha visto as ameaças, sentido o medo. Eu carregava a culpa de seu brilhantismo, sua recusa em permanecer escondida, seu eventual e trágico fim. Eu acreditava que sua visibilidade a havia matado. Então, escolhi a invisibilidade para mim. Tornei-me K.B. Barry, o elusivo autor masculino, evitando os holofotes a todo custo. Escolhi o anonimato para sobreviver, para me proteger do tipo de poder que esmagou minha mãe. Tornei-me uma estudante de fotografia, um mundo muito distante do mundo implacável da política e da literatura, na esperança de encontrar consolo em capturar a beleza, não em criar controvérsia.
Eu pensei que Kade via algo diferente em mim, algo que valia a pena proteger por mim mesma. Mas ele não via. Ele havia visto uma garota convenientemente simples e discreta, um alvo perfeito. Um escudo.
Exatamente quando minha agente estava me dando um resumo da turnê de imprensa, a porta do meu quarto no dormitório se abriu rangendo. Kade estava parado ali, sua silhueta contra a luz do corredor. Ele segurava um pequeno e delicado vaso de lírios brancos, meus favoritos. Seus olhos estavam avermelhados, seu rosto pálido e abatido. Ele parecia exausto, vulnerável.
"Holly", ele sussurrou, com a voz rouca. "Preciso falar com você."
Ele não tinha ouvido minha conversa com minha agente, eu tinha certeza. Mas ele tinha visto a dor em meus olhos, a acusação silenciosa.
"Sinto muito", disse ele, com a voz embargada. "Por tudo. A Dani... ela tem passado por um momento muito difícil. A pressão, as ameaças... Eu só... eu tive que fazer." Ele parecia tão genuinamente magoado, tão quebrado, que por um segundo fugaz, minha determinação vacilou.
Então, ele estendeu a mão, tocando suavemente meu rosto. "Por favor, Holly. Não me deixe. Nós precisamos de você. Eu preciso de você."
Suas palavras eram como um pano quente em uma ferida congelante, mas o calor era enganoso. Era um conforto nascido da manipulação, um apelo pela continuação do serviço, não por amor genuíno.
"Nós precisamos de você." A frase ecoou em minha mente, um lembrete arrepiante de minha descartabilidade. Olhei para ele, olhei de verdade para ele, e não vi o rei encantador, mas um homem desesperado disposto a sacrificar qualquer um por sua meia-irmã.
Ele viu a compreensão surgir em meus olhos, a última centelha de esperança morrendo. Sua mão caiu do meu rosto.
"Não se preocupe, Kade", eu disse, com a voz oca, sem emoção. "Eu entendo. A Dani precisa mais de você."
Ele me encarou, seus olhos verdes arregalados com um horror crescente. Ele finalmente entendeu.
"Não, Holly, espere—" ele começou, mas eu o interrompi.
"Você me ama, Kade?", perguntei, as palavras quase inaudíveis, uma última e desesperada tentativa de encontrar um pulso em nossa conexão despedaçada. Eu precisava ouvir dele, uma última vez. Eu precisava da mentira, ou da verdade, para me libertar.
Ele hesitou. Seu olhar desviou, depois voltou para mim. Seu maxilar se contraiu. Ele desviou o olhar novamente, seu silêncio gritando a resposta que eu já sabia. Meu coração, já em pedaços, se estilhaçou em um milhão de pequenos fragmentos. Senti um peso frio e esmagador descer sobre mim, mais pesado que qualquer fama, mais sufocante que qualquer disfarce.
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