
A Vingança da Cega
Capítulo 3
O plano de Maria Clara era simples e brutal: ela precisava aguentar mais alguns dias. Dias suficientes para finalizar os detalhes de sua partida, para transferir seus fundos pessoais para uma conta que Pedro não pudesse rastrear, e para desaparecer sem deixar um único rastro. Para fazer isso, ela precisava continuar sendo a "coitadinha cega" .
Ela voltou para casa no meio da noite, depois de passar horas em um café, o calor da xícara aquecendo suas mãos geladas, mas não seu coração. Ela entrou em casa e foi direto para o quarto de hóspedes, deitando-se na cama sem tirar a roupa. O sono não veio. Cada rangido da casa, cada sombra na parede, era um lembrete.
Na manhã seguinte, ela ouviu Pedro se levantar. Ele entrou no quarto de hóspedes, a voz cheia de uma falsa preocupação.
"Meu amor, você dormiu aqui? Eu te procurei. Fiquei preocupado."
Maria Clara manteve os olhos fechados, o rosto virado para a parede. Seus olhos recém-curados agora eram sua arma secreta, seu fardo.
"Tive um pesadelo" , ela mentiu, a voz abafada pelo travesseiro. "Não queria te acordar."
Ele se sentou na beira da cama, sua mão em seu ombro. O toque que antes a confortava agora a queimava.
"Você está bem? Quer que eu traga o café da manhã na cama?"
"Não precisa. Eu estou bem."
Mais tarde, naquele mesmo dia, a farsa atingiu um novo nível de crueldade. Maria Clara estava na sala de estar, sentada no sofá, fingindo ouvir um audiolivro, quando Sofia chegou. Ela ouviu a porta se abrir e a voz de Sofia, brilhante e falsa.
"Bom dia, Dona Maria Clara! O Pedro me pediu para trazer uns documentos para ele assinar."
"Bom dia, Sofia" , respondeu Maria Clara, mantendo o rosto impassível, os olhos focados em um ponto vago à sua frente.
Ela podia vê-la perfeitamente. Sofia usava um vestido justo, um sorriso presunçoso nos lábios. Ela olhou para Maria Clara com uma mistura de pena e triunfo. Pedro desceu as escadas e beijou a bochecha de Maria Clara.
"Querida, vou precisar trabalhar um pouco com a Sofia aqui em casa hoje. Você se importa?"
"Claro que não" , disse Maria Clara.
Eles se sentaram à mesa de jantar, espalhando papéis. Maria Clara podia ouvir o sussurro deles, o roçar de seus corpos quando Sofia se inclinava para apontar algo em um documento. Era uma tortura. Cada risada baixa, cada toque "acidental" , era uma facada em seu peito. Ela sentia seus olhares sobre ela, testando-a, deliciando-se com sua ignorância forçada.
O ponto de ruptura veio algumas horas depois. Sofia soltou uma pequena tosse.
"Acho que peguei um resfriado" , disse ela, a voz soando deliberadamente fraca.
Pedro imediatamente se levantou, a preocupação em sua voz agora dirigida a outra mulher.
"Você precisa tomar alguma coisa. Devemos ter algum remédio para gripe no armário do banheiro." Ele se virou para Maria Clara. "Meu amor, você poderia pegar o remédio para a Sofia? Você sabe onde fica, na prateleira de cima. Eu não sei qual pegar."
O pedido a deixou sem ar. Ele não estava apenas a traindo; ele estava a tornando cúmplice. Ele queria que ela, a esposa cega e indefesa, servisse a amante doente em sua própria casa. Era uma humilhação tão profunda, tão calculada, que por um momento ela pensou que iria se levantar e gritar.
Mas ela se lembrou de seu plano. De sua fuga. De sua liberdade.
"Claro" , disse ela, a voz saindo mais firme do que esperava.
Ela se levantou lentamente, usando a bengala que não precisava mais, mas que era parte essencial de sua performance. Ela caminhou até o banheiro do corredor, cada passo um esforço monumental de autocontrole. Ela abriu o armário de remédios. Suas mãos tremiam tanto que ela quase derrubou um frasco de perfume. Lá estava a caixa de remédio para gripe. Ela a pegou, o papelão frio em seus dedos. Ela olhou para seu próprio reflexo no espelho. Viu uma mulher com os olhos cheios de uma dor que ninguém podia ver. Uma atriz no papel mais difícil de sua vida.
Ela voltou para a sala, estendendo a caixa na direção geral da voz de Sofia.
"Aqui está."
"Oh, obrigada, Dona Maria Clara. Você é tão gentil" , disse Sofia, sua voz pingando uma doçura venenosa.
Maria Clara podia ver Pedro sorrindo para Sofia, um sorriso íntimo e cúmplice. Ele então se virou para ela, o rosto transformado em uma máscara de carinho.
"Você é um anjo, meu amor. Sempre cuidando de todos."
Ele se aproximou e tentou beijá-la, mas Maria Clara se afastou sutilmente.
"Estou um pouco tonta. Acho que vou me deitar um pouco."
"Claro, querida. Descanse. Eu e a Sofia terminaremos aqui."
Ela subiu as escadas, sem olhar para trás. No quarto de hóspedes, ela se sentou na cama e finalmente deixou que as lágrimas silenciosas caíssem. Ela chorou não pela traição, mas pela humilhação. Pela mulher que ela estava se tornando para sobreviver: uma mentirosa, uma espectadora silenciosa de sua própria destruição.
Naquela noite, depois que Sofia finalmente foi embora e Pedro veio dar seu beijo de boa noite, o cheiro do perfume de Sofia ainda pairando sobre ele, Maria Clara esperou ele dormir. Então, ela pegou seu celular e discou o número de Ana novamente.
"Ana, sou eu."
"Clara! Já estava preocupada. Quando você vem?"
"Em alguns dias. Eu só preciso de mais alguns dias" , disse ela, a voz agora cheia de uma determinação fria. "Não importa o que aconteça, não diga a ninguém que eu liguei. Especialmente ao Pedro."
"Seu segredo está seguro comigo, prima."
Ela desligou o telefone. O choro havia parado. Em seu lugar, havia uma resolução de aço. Ela não era um anjo. Ela não era uma coitadinha cega. Ela era uma mulher à beira de sua própria libertação. E ela faria o que fosse preciso para conquistá-la.
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