
A Vingança Agridoce da Esposa Negligenciada
Capítulo 3
Ponto de Vista de Elisa Ferraz:
O toque estridente do meu celular me arrancou do sono mais profundo que eu tive em anos. Tateei em busca dele, o coração martelando contra minhas costelas, convencida de que era Bruno, furioso com minha postagem nas redes sociais. Mas não era. Era um número desconhecido. Franzi a testa. Olhei para o relógio. 3 da manhã.
Atendi com cautela. "Alô?"
"Elisa? É o Gui. Seu irmão." A voz dele era áspera, carregada de uma urgência que instantaneamente me deixou em alerta. "Você está bem? Acabei de ver a postagem da Stéfany Aguiar e... a sua. Que diabos aconteceu?"
Meu alívio inicial por não ser Bruno foi rapidamente substituído por uma nova onda de pavor. Gui sabia. Meu irmão, meu protetor, a única pessoa que sempre viu através da fachada polida de Bruno, agora sabia a extensão total da minha humilhação pública.
"Estou bem, Gui", eu disse, tentando infundir em minha voz uma confiança que eu não sentia. "Bruno e Stéfany estavam fazendo um show na festa. Eu só... eu vi."
"Um show?", Gui zombou, sua voz afiada com incredulidade. "Elisa, aquilo não foi show nenhum. Ele estava com as mãos por todo o corpo dela, e ela estava praticamente sentada no colo dele. E sua postagem... Você apagou tudo. É isso? Você finalmente terminou?"
Suas palavras, diretas e honestas, rasgaram a paz frágil que eu havia encontrado. "Sim, Gui. Eu terminei." As palavras pareceram pesadas, mas também libertadoras.
"Bom", ele disse, e eu quase pude ouvir o alívio feroz em sua voz. "Porque estou indo para aí. E vamos tirar você de lá. Você merece muito mais do que aquele desgraçado."
Antes que eu pudesse responder, um barulho alto ecoou do andar de baixo. Meu sangue gelou. Não era Gui. Era outra pessoa. Alguém na casa.
"Gui, preciso desligar", sussurrei, minha voz mal audível. "Tem alguém aqui."
Desliguei, meus dedos tremendo. Meu coração batia tão forte que pensei que poderia explodir através do meu peito. A casa estava silenciosa novamente, exceto pela batida frenética do meu próprio pulso em meus ouvidos. Lentamente, cautelosamente, saí da cama. Meus pés descalços mal faziam barulho no tapete macio.
Enquanto eu descia as escadas furtivamente, uma figura emergiu das sombras da sala de estar. Era Bruno. Ele estava ali, desgrenhado, seu terno caro amassado, um olhar selvagem em seus olhos. Ele fedia a álcool e a um tipo desesperado de raiva.
"Elisa", ele arrastou as palavras, sua voz baixa e ameaçadora. Ele se lançou para frente, agarrando meu braço, seus dedos cravando em minha carne. Seu aperto era forte, doloroso. Seu rosto era uma máscara de fúria, sua mandíbula cerrada, olhos estreitados em fendas.
"O que você pensa que está fazendo?", ele rosnou, me puxando para mais perto. Seu hálito quente em meu rosto fedia a uísque. "Apagando nossas fotos? Postando mensagens enigmáticas? Você sabe o quanto de problema você causou esta noite?"
Ele estava me sacudindo, seu aperto se intensificando. Eu me senti como uma boneca de pano, totalmente impotente contra sua força. A lembrança de suas fúrias passadas, sua frieza, sua crueldade casual, inundou minha mente. Eu não era nada mais do que um objeto para ele, uma posse. O nojo cresceu dentro de mim, uma bile amarga que subiu pela minha garganta. Eu recuei, instintivamente me afastando de seu toque, um arrepio de repulsa percorrendo minha espinha.
Os olhos de Bruno, vidrados de álcool, brilharam com um ódio cru e feio. "Não olhe para mim assim, Elisa", ele rosnou, sua voz grossa de acusação. "Não finja que está com nojo. Você só está com raiva porque pensou que me tinha. Você pensou que finalmente me pegou." Ele zombou, um escárnio torcendo seus lábios. "Todos esses anos, bancando a esposa inocente e sofredora. Mas eu te conheço, Elisa. Você é tão calculista quanto o resto delas. Bancando a vítima para conseguir o que quer. Você achou que eu não descobriria sobre sua pequena ligação para o Vovô? Tentando usar a 'preocupação' dele para me pressionar?" Ele imitou o tom severo do Vovô Almeida, uma zombaria cruel. "Parabéns, querida. Você certamente agitou as coisas."
Meus olhos arderam, mas me recusei a chorar. Eu não lhe daria a satisfação. Eu não o deixaria ver a dor que ele infligia. Engoli o soluço que ameaçava explodir, cerrando a mandíbula. Meu estômago se revirou, uma dor surda começando a se espalhar.
Eu o odiava. Eu o odiava verdadeira e profundamente. E a percepção foi ao mesmo tempo aterrorizante e emocionante.
Lembrei-me de um tempo em que seu toque era suave, quando sua risada era genuína, quando seus olhos continham calor em vez de desprezo. Nós nos conhecíamos desde a infância, nossas famílias entrelaçadas por negócios e círculos sociais. Ele tinha sido o garoto charmoso e travesso, eu a garota quieta e observadora. Eu o vi crescer, o vi tropeçar, e sempre, sempre o amei. Quando ele me pediu em casamento, me convenci de que era real, que ele também me amava, apesar da crescente distância em seus olhos.
Foi depois de sua primeira namorada séria, uma artista vibrante chamada Ana, que ele mudou. Vovô Almeida desaprovou veementemente Ana, chamando-a de "inadequada" para o império Almeida, citando sua natureza imprevisível e falta de "visão de negócios". Ele ameaçou cortar Bruno, deserdá-lo, se ele não terminasse as coisas. Bruno, sempre ambicioso, sempre buscando a aprovação de seu avô, acabou partindo o coração de Ana. Ele nunca se recuperou completamente.
Depois disso, o calor em seus olhos se transformou em gelo. Ele se tornou mais frio, mais distante, seu charme substituído por cinismo. Ele me ressentia, ressentia nosso noivado forçado, me vendo como a opção "segura", aquela que seu avô aprovava. Eu era o atalho que ele foi forçado a pegar, um lembrete constante do amor que ele teve que abandonar. Ele me atormentava porque eu era um alvo fácil, uma substituta para seus próprios desejos frustrados. Eu me tornei o bode expiatório para uma vida que ele sentia ser ditada por outros.
Ele frequentemente encontrava maneiras mesquinhas de me punir. Como da vez em que me forçou a beber uma garrafa inteira de champanhe em uma festa, sabendo que eu tinha uma alergia severa, apenas para ver meu rosto corar e minha respiração ficar difícil. Ele assistiu, indiferente, enquanto seus amigos corriam para me ajudar. Ou as vezes em que ele me ligava tarde da noite, bêbado, exigindo que eu o buscasse em algum bar, mal reconhecendo minha presença no carro, apenas para perguntar friamente: "Tem certeza de que não se importa, Elisa? Eu não gostaria de incomodar minha esposa." E como uma tola, eu sorria, dizia "Claro que não, Bruno", acreditando que, ao ser indispensável, eu poderia de alguma forma fazê-lo me amar.
Acordei na manhã seguinte, meu corpo doendo, minha cabeça latejando. O quarto estava uma bagunça, roupas espalhadas por toda parte, um leve cheiro de álcool velho no ar. Bruno tinha ido embora, claro. Sempre ia. A vergonha me invadiu, uma onda sufocante que ameaçava me afogar. Eu lhe dei tudo, e ele não me deu nada além de dor e desprezo.
Eu me agarrei à ilusão de que nosso casamento, forçado como foi, poderia de alguma forma reacender o afeto inocente que uma vez compartilhamos. Mas cada dia que passava apenas destacava o abismo entre nós, um abismo preenchido com seu ressentimento e meu amor não correspondido. Ele não apenas não gostava de mim; ele me odiava. A verdade, nua e brutal, se instalou em meu coração.
"Por que não podemos ser normais, Bruno?", sussurrei, a pergunta escapando dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-la. O silêncio no quarto foi minha única resposta.
Às vezes, depois de uma de suas explosões, ele deixava uma única rosa vermelha no meu travesseiro, ou uma pequena caixa de chocolates. Gestos vazios, eu sabia mesmo então, mas um pequeno lampejo de esperança, do garoto que eu conheci, sempre se acendia. Eu acordava, encontrava o gesto, e ele já teria ido embora, me deixando a questionar se era um sinal de remorso ou apenas mais uma manipulação.
Nesta manhã, porém, não havia nada. Nenhuma rosa, nenhum chocolate, apenas a cama fria e vazia ao meu lado. A casa estava quieta, quieta demais.
Enquanto eu descia a grande escadaria, a governanta, Dona Célia, uma mulher gentil com uma expressão perpetuamente preocupada, deu um passo à frente. "Dona Elisa, o Sr. Bruno perguntou sobre o almoço. Ele disse para preparar o de sempre."
Franzi a testa. O de sempre? Bruno era notoriamente exigente. Ele tinha uma dieta específica, uma preferência por ingredientes orgânicos, de origem local, preparados por mim. Eu costumava passar horas debruçada sobre livros de receitas, experimentando, tentando criar algo que finalmente ganhasse seu elogio, um sorriso genuíno. Ele frequentemente reclamava da falta de sabor da comida de restaurante, de como apenas minha culinária realmente entendia seu paladar.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. "Não", eu disse, minha voz firme, surpreendendo até a mim mesma. "Diga ao Sr. Bruno que ele terá que fazer seus próprios arranjos para o almoço hoje."
Os olhos de Dona Célia se arregalaram. Ela nunca me ouviu falar com Bruno daquele jeito, nunca me viu recusar-lhe algo. Um lampejo de triunfo, rapidamente suprimido, cruzou meu rosto. A desculpa da "reunião urgente" que a enfermeira me deu, a exibição pública com Stéfany e sua fúria bêbada na noite passada finalmente selaram a questão. Ele não era apenas indiferente; ele era ativamente cruel. E eu estava cansada de ser sua vítima voluntária.
Pensei na notificação legal que havia chegado ontem, enterrada sob uma pilha de correspondência inútil. Meu irmão, Gui, a havia enviado. Era um rascunho para o processo de divórcio. Eu a descartei então, outra "reação exagerada" do meu irmão ferozmente protetor. Mas agora, parecia uma tábua de salvação.
O peso da minha própria tolice passada me pressionou. Eu disse a mim mesma que ele se casou comigo porque me amava secretamente, porque nossas famílias haviam arranjado, porque era o 'destino'. Mas ele se casou comigo porque seu avô, Caetano Almeida, o formidável CEO da Almeida Music, havia orquestrado tudo. Caetano não se importava com amor; ele se importava com ativos. O cancioneiro inédito do meu pai era uma mina de ouro, e eu era a chave. Bruno era simplesmente um peão, forçado a garantir a maior conquista da família. E eu, em meu amor ingênuo, caí feito uma patinha na armadilha.
Os papéis do divórcio, antes um símbolo aterrorizante de fracasso, agora pareciam uma promessa. Uma promessa de liberdade.
"Sim, Dona Elisa", disse Dona Célia, um leve sorriso tocando seus lábios. "Vou avisá-lo."
Eu sabia, com uma certeza que se instalou profundamente em meus ossos, que este casamento havia acabado. Havia acabado há muito tempo. E agora, eu estava finalmente pronta para admitir isso.
Minha mão alcançou o telefone. Eu tinha uma advogada para ligar.
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