
A Vida com meu irmão
Capítulo 3
Me despeço,com a promessa de começar a trabalhar em dois dias. Vou para os fundos e quando abro a porta do quarto, quase desmaio com o odor forte que vem de dentro, tento abrir a janela que está travada na metade, o cheiro parece piorar quando chego perto da janela e eu não demoro a perceber o porquê: o lixo do supermercado está sendo despejado abaixo da janela. “Que Maravilha!” pensei, os cantos das paredes estão cheios de mofo e teias de aranha e como ele havia falado, tem fezes de rato em todo canto.
Passo o resto do dia tentando dar um jeito naquele lugar e no final até que me sai bem. Consegui limpar o chão e coloquei veneno na porta para evitar a entrada dos ratos, limpei todas as teias de aranha, o mofo não consegui tirar por completo, mas vou me acostumar com o cheio, troco o lixo do supermercado de lugar para que não fique mais debaixo da janela, pretendo pedir alguém para destravar a janela pra mim, pra que possa circular algum ar no ambiente.
É isso, lar doce lar.
O pessoal já fez o depósito pela casa, vou e volto algumas vezes trazendo caixas com os nossos pertences pessoais, coloco tudo em um canto no quarto que aluguei, coloco um tapete no chão e jogo meu colchão em cima, não tinha como trazer a cama, então vai ser no chão mesmo.
Estou exausta, tenho apenas tempo de colocar o celular e o notebook pra carregar e caio imediatamente no sono. Acordo com o despertador tocando, são oito da manhã e a primeira coisa que vejo é um rato morto a centímetros do meu colchão, pensei “pelo menos o veneno funcionou” engulo a vontade de chorar e de gritar desesperadamente. Eu simplesmente odeio ratos. Tiro ele de lá, troco de roupa, uso o banheiro dos funcionários nos fundos pra escovar os dentes, pego o celular e vou direto pro hospital.
O médico me explica que minha mãe passou muito bem a noite e já foi avisada da sua internação, que até o presente momento ela não se manifestou de forma ruim, o que era um bom sinal. Explica que logo, às nove horas virá alguém da clínica pra nos buscar e me explicar como funcionará todo o tratamento da minha mãe.
Ela está acordada quando entro no quarto e dá um sorriso fraco quando me vê.
“Aí está minha princesinha!” diz fazendo sinal pra que eu me sente do seu lado. “Você está bem?” me pergunta enquanto segura minha mão.
“Não se preocupe comigo mãe, tudo vai ficar bem, o importante é que você fique bem! Você promete? Vai se esforçar ao máximo pra melhorar? A clínica vai ser boa pra você.” Imploro pra ela, preciso saber que ela vai melhorar, que ela vai voltar a ser minha mãe, e que todo o meu esforço pra pagar essa clínica vai valer a pena.
Acho que ela vê o desespero na minha voz porque concorda e não discute. Ficamos ali pela próxima meia hora viajando pelos canais de tv, minha mãe não solta minha mão nem por um momento, acho que é a forma dela de se desculpar e também se despedir.
O pessoal da clínica vem e nos leva pra conhecer a clínica em uma van branca. O lugar é lindo, e não fica muito longe da nossa antiga casa, tem um jardim florido do lado de fora onde há alguns pacientes sentados tomando sol e alguns lendo sob sombra de árvores. A recepção é grande e agradável, o quarto da minha mãe não é grande mas parece ser muito confortável tem uma cama fixa no canto da parede, alguns livros em cima de uma mesa que também está fixa no chão, uma televisão envolvida em uma grade no alto, a enfermeira me explicou mais tarde, que e por segurança, para que os pacientes não se machuquem. Ela me explica que o primeiro intensivo do tratamento dela será de oito meses, que ela terá direito a uma ligação por semana, que nos primeiros seis meses não poderá ter visitas externas para que não atrapalhe na evolução do tratamento, e após os seis meses ela será reavaliada. Se passar em tudo poderei vê-la. Me informaram que vou receber relatórios do hospital toda semana.
Fechamos todas as papeladas, assinaturas e dou o valor de entrada que leva quase todo o valor que me foi pago pelo casal simpático que ficou com nossa casa.
Subo para me despedir e minha mãe está sentada encarando a parede.
“Mãe? Tudo bem? “ ela demora um pouco a me encarar, quando olha ela está com os olhos vermelhos, está chorando.
“Tudo vai ficar bem!” É só o que ela me fala todas as vezes, tento fazer com que fale mais, mas sem sucesso.
Me despeço com um abraço que ela não retribui, e isso me dói, mais do que eu gostaria de admitir. E vou, deixando minha mãe pra ser cuidada nessa clínica que vai levar todo nosso dinheiro, espero de coração que ela encontre o caminho para sanidade.
Assim que chego na porta do meu quarto,eu recebo uma mensagem no celular, o valor que dei na clínica foi somente a entrada, e eu precisava fazer um depósito de quinhentos reais em, no máximo, uma semana, já que era fim do mês. Com tudo o que estava acontecendo era a única coisa que eu não deixaria de pagar mas, penso por um tempo e não há outra solução, tenho que ligar pro Noah.
O telefone toca três vezes antes dele atender.
“Oi? Quem é?” Cara, isso é sério? Ele não tem nem mais meu número? pensei. Quase desliguei o telefone, mas penso na nossa mãe, eu realmente preciso da ajuda dele agora.
“Oi? “ ele repete
“Sou eu Noah, Sarah” faz segundos de silêncio e eu escuto um barulho como se ele estivesse se levantando e indo pra outro cômodo. Dou uma olhada no relógio, são quatro e meia da tarde, como pode estar na cama ainda?
Ouço uma voz melosa de mulher no fundo, mas não consigo entender o que ela fala. Escuto o som de uma porta fechando e só aí ele me responde.
“Sarah? Quanto tempo, está tudo bem? Aconteceu algo? Como está a mamãe?”
Eu respiro fundo pra controlar meu humor e não mandar ele ir pro inferno “pela mamãe Sarah, pela mamãe” repito pra mim mesma.
“Sim, aconteceu alguma coisa, ela tentou se matar Noah.” deixo de fora quantas vezes isso aconteceu, ele não precisa saber da nossa vida, ele escolheu não fazer parte dela. “Eu aluguei a casa e ela foi internada.”
“Que? Como assim? Não estou entendendo, que porra é essa de “tentou se matar”, é a primeira vez que isso acontece?” Ele está alterado, o que eu acho irônico, porque se ele estivesse presente, nada disso seria novidade. Ele parece estar com raiva por estar por fora das notícias quando a escolha foi dele.
“Ei, relaxa, tá bem? Está tudo bem agora, só que a clínica é cara, eu só consegui trabalho agora então demoro um pouco pra receber. Só queria saber se tem alguma chance de você me cobrir nessa, e eu te pago quando eu receber.” Seguro a respiração esperando pela resposta e torcendo para que o Noah não seja um babaca.
“E claro que sim, e você não precisa me pagar, ela também e minha mãe.”
“Jura? “ solto sem querer, “merda” pensei.
“Como disse?” ele rebate, mas sei que ele ouviu muito bem.
“Nada Noah me desculpa, tá bom? Eu te agradeço por isso, vou te mandar a conta e assim que eu receber te mando o dinheiro de volta.”
“Já disse que não precisa. O que aconteceu com ela? Como ela chegou a esse ponto?”
“Olha eu não sei como funciona a depressão nem o que leva as pessoas a fazerem esse tipo de merda.” Estou começando a perder toda a minha paciência, não quero ter que explicar nossos problemas pra ele.
“Depressão? A quanto tempo?” ele parece frustrado.
“Olha Noah, eu tenho que ir agora, vou te mandar a conta por mensagem.”
Desligo antes que ele pudesse falar mais, ele não tem direito de se preocupar de querer saber, já faz tempo que ele foi embora e não olhou pra trás. Isso não vai rolar agora!
Envio uma mensagem:
“Oi sou eu Sarah, segue o numero da minha conta
O valor que preciso para cobrir o resto das despesas do hospital e R$500”
16:40
Noah: * digitando… *
16:42”
“Digitando” aparece por três minutos e some, não chega nenhuma outra mensagem. Entro no quarto e dou de cara com mais um rato morto. Minha vontade é sair correndo, mas eu respiro fundo e limpo aquele bicho nojento de lá, só consigo pensar que seja bom que o veneno esteja fazendo efeito, e matando os ratos, não sei o que faria se encontrasse com eles vivos andando em cima das minhas coisas.
Meia hora mais tarde chega uma notificação de transferência bancária no valor de R$1000, fico furiosa: “quem aquele imbecil pensa que é? Ficar fora esse tempo todo e depois mandar dinheiro como se isso resolvesse alguma coisa? Não, idiota.”
Mando uma mensagem:
“Cara, o que é isso? Me manda sua conta para devolver essa droga, eu realmente não preciso de um centavo a mais do que já fui obrigada a pedir.”
17:50
Mas ele não me responde, tento ligar algumas vezes mas ele não atende também, mando outra mensagem:
“Cara é sério! Atende essa porra de telefone”
18:20
“Cara, como você pode ser tão babaca? Quero devolver essa droga de dinheiro.”
18:40”
Ele não me respondeu uma única vez, pensando melhor vou deixar esse dinheiro como emergência para algo que minha mãe possa precisar.
Resolvo comer uma maçã e fico vendo filme no notebook, de repente começo a sentir uma tontura, sei que não é fome, mas não sei mais o que pode ser. Me deito e espero que passe, preciso me sentir melhor amanhã para começar a trabalhar.
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