
A Vergonha Secreta Dela, o Caso Público Dele
Capítulo 3
Dormi na beiradinha da cama, um abismo de lençóis frios entre nós. Quando o braço de João Pedro caiu sobre mim durante o sono, eu me encolhi e me afastei, seu toque parecendo uma marca de ferro.
Uma vibração do meu celular no escuro me assustou. Eu não precisava olhar. Eu sabia quem era.
Era Carla. *O João Pedro gritou com você? Eu disse pra ele não beber tanto. Se ele foi grosso, me fala que eu dou um jeito nele.*
A mensagem era tão perfeitamente elaborada, uma mistura de preocupação e raiva justa em meu nome. Mas eu podia ver a verdadeira pergunta escondida sob as palavras: *Ele escolheu você ou a mim?*
Um fogo amargo e competitivo que eu nunca soube que tinha surgiu dentro de mim.
Tirei uma foto de João Pedro, dormindo profundamente ao meu lado, a cabeça no travesseiro, parecendo um marido satisfeito.
Enviei para ela. *Ele está bem. Só cansado. Vamos cobrir aquela tatuagem antiga dele amanhã. Ele diz que é hora de deixar o passado para trás.*
Pela primeira vez em toda a noite, ela não respondeu imediatamente.
Senti um prazer agudo e vingativo. Era uma vitória vazia, mas era alguma coisa.
Minha mente voltou para quando conheci Carla. Ela era a novata na terceira série, quieta e assustada, suas roupas um pouco pequenas demais, seus sapatos gastos nos calcanhares. Ela morava com a mãe solteira em um apartamento minúsculo do outro lado da cidade.
Um dia, no almoço, ela derrubou a bandeja. Eu a vi tentando não chorar enquanto pegava a comida derramada. Fui até lá e dei a ela metade do meu sanduíche.
A partir daquele dia, nos tornamos inseparáveis. Eu dividia meu lanche com ela. A generosidade da minha família se estendeu a ela; minha mãe comprou roupas novas para ela quando viu Carla tremendo com um casaco fino, e meu pai ajudou a mãe dela a encontrar um emprego melhor.
Carla era sempre tão grata, seus "obrigada" suaves e sinceros.
Ela se acostumou com a minha comida. Ela se acostumou com as minhas roupas.
E em algum momento, ela se acostumou com o meu namorado também.
Fiquei deitada no escuro, as memórias me cortando. Cada ato de bondade, cada segredo compartilhado, agora estava manchado, distorcido em algo feio.
Fiquei olhando para o teto até o sol nascer, lágrimas silenciosamente traçando um caminho em meu cabelo.
Mais tarde naquele dia, fomos a um estúdio de tatuagem no centro da cidade. O ar zumbia com o som das agulhas.
"Vou pegar um café pra você", disse João Pedro, a voz excessivamente alegre. Ele estava se esforçando tanto para ser o marido perfeito e atencioso. Ele até preparou um iPad para mim com minha série favorita. "Isso não vai demorar. Depois podemos jantar num lugar legal, só nós dois."
Ele desapareceu em uma sala nos fundos com o tatuador.
Soltei um suspiro que não percebi que estava segurando. Talvez pudéssemos consertar isso. Talvez ele estivesse dizendo a verdade.
Um momento depois, ele saiu da sala, o rosto pálido de pânico.
Meu coração deu um pulo.
"O que foi? O que aconteceu?", perguntei, agarrando seu braço.
"É a Carla", disse ele, a voz tensa. "Ela sofreu um acidente de carro."
Meu cérebro entrou em curto-circuito. Um acidente? Hoje? Agora? Não podia ser coincidência. Minha intuição gritava que era mais um dos jogos dela.
"Eu vou", eu disse rapidamente. "Você fica aqui e termina. Ela é minha amiga."
"Não", ele me cortou, os olhos selvagens. "Eu tenho que ir. Nós dois podemos ir."
Fiquei firme, sem me mover um centímetro. "Não, João Pedro."
Olhei diretamente nos olhos dele. "Ela é minha melhor amiga. Eu vou ver como ela está. Você vai ficar aqui e fazer o que prometeu."
Por um segundo, o mundo pareceu congelar.
Então eu vi. Um flash de nojo puro e indisfarçável em seus olhos. Ele não estava olhando para sua esposa. Ele estava olhando para um obstáculo.
"Não seja tão irracional, Alice", ele sibilou. "O carro dela deu perda total. Ela pode estar gravemente ferida!"
Ele gesticulou descontroladamente para o próprio peito. "Isso pode esperar! Ou o quê, você quer que eu pegue uma faca e arranque isso aqui agora?"
Antes que eu pudesse reagir, ele pegou uma lâmina descartável da bandeja do artista.
Ele segurou a lâmina contra a própria pele, bem em cima da tatuagem. "É isso que você quer?"
"Ok!", gritei, minha voz falhando. "Tudo bem. Vai."
Ele me encarou, surpreso com minha rendição súbita. Então, sem outra palavra, ele largou a lâmina e saiu correndo pela porta, me deixando ali com o tatuador perplexo.
Saí da loja, meu rosto uma máscara de calma.
Como se fosse um sinal, o céu se abriu. Uma chuva fria e forte começou a cair, me encharcando até os ossos em segundos.
Chamei um táxi e fui para casa. Durante todo o caminho, eu tremia. Espirrei.
Uma onda de náusea me atingiu quando entrei pela porta da nossa casa nova e vazia.
Meu celular se iluminou com uma enxurrada de mensagens.
Era Carla. Ela tinha enviado uma foto. Estava deitada em uma cama de hospital, parecendo pálida e digna de pena, com um pequeno curativo na testa. João Pedro estava sentado ao seu lado, segurando sua mão.
*Obrigada por deixar o João Pedro vir, Alice. Ele está cuidando tão bem de mim.*
Uma segunda mensagem se seguiu. *Acho que ele não removeu aquela tatuagem, afinal?*
Eu não conseguia nem descrever o sentimento. Estava além da raiva, além da dor.
A tela do meu celular refletia meu rosto, minha expressão perfeitamente calma.
Eu era a palhaça no circo deles.
E naquele momento, senti uma estranha sensação de libertação. Eu estava finalmente, completamente, farta.
Subi as escadas e tomei um banho quente, deixando a água lavar tudo.
O telefone tocou novamente, seu toque agudo e urgente.
Eu dei um pulo, a água transbordando da banheira.
Peguei o telefone.
Era Carla.
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