
A Verdade por Trás do Amor
Capítulo 3
Gabriel tirou a gravata, desabotoou o colarinho e foi para o banheiro tomar banho. Talvez por causa da bebida, ele cometeu um erro raro, esqueceu o celular na mesa de cabeceira, algo que ele nunca fazia.
Assim que a porta do banheiro se fechou, peguei o aparelho. Um calafrio percorreu minha espinha. Digitei a data de nascimento de Isabella. A tela se acendeu.
A primeira coisa que vi foi o rosto dela. Isabella, sorrindo docemente para a câmera, era o papel de parede dele. Agora eu entendia a ternura em seu olhar toda vez que ele olhava para o celular. Não era para as mensagens que chegavam, era para ela.
Abri a galeria de fotos. Milhares de imagens de Isabella. Isabella sorrindo, Isabella em silêncio, Isabella pensativa, Isabella em todos os ângulos e momentos possíveis. Continuei a vasculhar, abrindo o bloco de notas. Estava cheio de anotações sobre os gostos dela.
"Isabella não pode comer frutos do mar, é alérgica."
"Isabella adora doces, fica feliz quando come um brigadeiro."
"A cor favorita de Isabella é branco, ela odeia vermelho, gosta de comida doce, odeia pimenta..."
Fui para os aplicativos de mensagens e encontrei uma conta secundária, um diário secreto onde ele derramava seu amor por ela todos os dias.
"Isabella, eu sempre te observo em segredo, mas nunca ousei esperar que você olhasse para mim."
"Isabella, meu desejo de aniversário este ano ainda é que você seja feliz e esteja em paz."
"Se eu não posso ficar com a pessoa que mais amo nesta vida, então ver a sua felicidade já é o suficiente."
As anotações retrocediam até três anos atrás, na época em que minha mãe morreu. Foi quando encontrei a entrada que selou meu destino e o dele.
"Não consegui encontrar um coração compatível para a Isabella em toda a cidade, e quando finalmente encontrei um, era o da mãe da Sofia. O que eu devo fazer para que as duas fiquem bem?"
A entrada seguinte era ainda mais clara em sua crueldade.
"Sei que é egoísta, mas a Isabella é a minha vida. Se a Isabella morrer, eu prefiro morrer também."
"Nada é mais importante que a Isabella. Já arranjei o motorista que vai causar o acidente e o médico que fará a cirurgia. Todos os planos estão prontos, não há como voltar atrás. Sofia, o que eu te devo, só poderei pagar na próxima vida."
Ele havia planejado a morte da minha mãe. A remoção do coração dela. Tudo de forma impecável. Cada detalhe, cada movimento, foi um passo em seu plano para salvar a mulher que ele amava, às custas da minha família, da minha dor, da minha vida.
Gabriel, quem trai um amor sincero, engolirá mil agulhas. Essa vingança, eu faria questão de servir.
No dia seguinte, quando acordei, Gabriel já tinha saído. Ele havia preparado o café da manhã e deixado um bilhete, o tom gentil e carinhoso de sempre. "Sofia, coma o café da manhã direitinho quando acordar. Tenho uma importante parceria para discutir hoje, voltarei mais tarde."
Sem expressão, joguei o café da manhã no lixo e rasguei o bilhete em mil pedaços. Agora, pouco me importava se ele voltava ou não, eu tinha minhas próprias coisas para fazer.
Primeiro, liguei para o meu advogado e pedi para ele preparar um acordo de divórcio. Segundo, dei entrada no meu passaporte para poder ir para o exterior. Gabriel havia sofrido um acidente de avião anos atrás e desenvolveu um medo paralisante de voar. Se eu fosse para outro país, estaríamos a milhares de quilômetros de distância, e ele nunca poderia me alcançar.
No entanto, minha identidade ainda estava na antiga casa da minha família, então eu precisava voltar lá.
Parar novamente em frente àquela porta me trouxe uma onda de memórias amargas. Lembro-me de meus pais sendo apaixonados, uma família feliz. Mas então, meu pai conheceu a mãe de Isabella e a traiu. Ele ficou obcecado, insistindo em se casar com aquela mulher a qualquer custo. Minha mãe chorou por dias, mas acabou assinando o acordo de divórcio. Sem conseguir minha guarda, ela foi forçada a me deixar naquela casa e se mudou para um subúrbio frio e úmido, onde adoeceu.
E eu, fiquei para ser constantemente intimidada por Isabella. Embora eu fosse a filha biológica do meu pai, ele amava a nova esposa e, por consequência, amava a filha que ela trouxe consigo. Usando o afeto do meu pai como arma, Isabella me forçou a dormir no pior quarto, roubou meu cachorrinho de estimação e até me fez ceder minha vaga na pós-graduação. Ao longo dos anos, cedi repetidamente, até não ter mais nada para dar.
As pessoas que eu mais odiava no mundo eram Isabella e a mãe dela. Mas, por mais que eu as odiasse, todos os homens ao meu redor as amavam.
Quando eu estava prestes a bater na porta, uma voz familiar soou atrás de mim. Virei-me e vi Gabriel, com Isabella aninhada em seus braços, saindo de um carro e vindo em minha direção.
Os três se encontraram na porta. Meu coração apertou ao olhar para Gabriel.
"Você não disse que tinha uma parceria importante para discutir hoje?"
Ele ficou visivelmente nervoso por me encontrar ali. Correu para se explicar. "Sofia, não me entenda mal, é que a Isabella recebeu alta do hospital hoje, mas o Lucas está viajando e ela estava sozinha, então eu fui buscá-la."
Isabella, aconchegada nos braços dele, sorriu levemente. "Sim, se o Lucas não estivesse ocupado, eu não incomodaria meu cunhado."
Ela fez uma pausa, olhando para mim com um brilho de triunfo nos olhos. "Mas o cunhado é tão bom, bastou uma ligação minha e ele chegou ao hospital em menos de quinze minutos."
Quinze minutos. Meu coração estremeceu. O trajeto da empresa dele até o hospital levava pelo menos quarenta minutos. A que velocidade ele dirigiu? Quão desesperado ele estava para buscar sua amada?
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