Capa do romance A Última Página que Escrevemos

A Última Página que Escrevemos

9.6 / 10.0
Três anos após perder o marido, Evelyn Carter descobre um caderno com cartas secretas de Benjamin para outra pessoa. Para decifrar o mistério, ela busca Lucas Hale, o fotógrafo e melhor amigo do falecido que sumiu após o funeral. Entre silêncios e uma tensão latente, a dupla confronta segredos enterrados e culpas do passado. É uma jornada sobre luto e lealdade, revelando que o amor verdadeiro pode ser aquele que eles quase tiveram coragem de viver plenamente.

A Última Página que Escrevemos Capítulo 1

A casa ainda cheirava a ele.

Era um detalhe sutil - quase invisível - mas estava ali, impregnado nas paredes, nos tecidos, nos cantos empoeirados da estante. Um traço da colônia que Benjamin usava, misturado ao perfume adocicado da vela de baunilha, ainda intacta no aparador da sala. Evelyn nunca mais teve coragem de acendê-la desde a noite em que tudo desmoronou.

Três anos.

Três invernos, três primaveras, incontáveis noites em claro.

Milhares de horas convivendo com a ausência.

E mesmo assim, bastava abrir o armário para que tudo se partisse de novo.

Ela ficou parada, os dedos trêmulos na maçaneta. A porta escancarada deixava exposto não só os casacos pendurados, mas também o espaço invisível onde ele costumava estar. Tudo ali era presença e ausência ao mesmo tempo.

Desde o funeral, Evelyn evitava aquele armário.

Evitava o som seco das gavetas, o toque dos tecidos familiares, o risco de reviver o último beijo na porta, a última promessa comum de "volto logo".

Todos disseram que ela precisava "virar a página". Mas ninguém explicou como se faz isso com alguém que era o seu próprio livro inteiro.

Ela nunca gritou.

Não rasgou as roupas.

Não vendeu a casa.

Não foi embora.

Ela escreveu.

Como se as palavras fossem seu único fôlego. Como se, ao registrá-las, pudesse manter Benjamin vivo de alguma forma. Como se a dor, transformada em letra, a protegesse da loucura silenciosa que ameaçava todos os dias. Ela escreveu como quem sangra - sem glamour, sem alívio, apenas sobrevivência.

Mas agora... estava na hora.

De seguir.

De abrir o armário.

De olhar de frente.

Evelyn inspirou fundo e começou.

Retirou os casacos com calma, dobrando um a um, como se cada dobra carregasse uma despedida silenciosa. A lã cinza que ele usava para trabalhar. A camisa azul-marinho do primeiro encontro. A jaqueta de couro que ele amava e ela detestava. Um moletom antigo com o nome da universidade, tão gasto que mal se lia.

Peça por peça, ela criava espaço.

Foi quando um som seco interrompeu a quietude.

Algo caiu da prateleira superior.

Ela recuou, assustada. Abaixou-se devagar.

Um caderno. Preto. Capa rígida. Sem nome.

Parecia deslocado entre as roupas - um intruso no tempo.

Evelyn o pegou com cuidado, sentindo a textura áspera do couro envelhecido. A capa estava empoeirada, mas firme.

Sentou-se no chão, as pernas cruzadas, o coração acelerado.

Abriu.

A primeira página estava em branco.

Na segunda, uma frase solta, escrita com a caligrafia de Benjamin. Aquela mesma que ela reconheceria até de olhos fechados:

"Se você está lendo isso, é porque eu não tive coragem de dizer tudo."

O mundo parou.

A garganta fechou.

Ela virou a página, e outra, e outra.

Eram cartas. Páginas e mais páginas preenchidas com palavras de despedida, de memórias, de sentimentos não ditos.

Mas... não eram para ela.

O nome no alto da primeira carta congelou sua respiração.

"Lucas."

Seu estômago revirou.

Ela fechou o caderno com força, como se ele queimasse em suas mãos.

Lucas Hale.

O melhor amigo de Benjamin.

O mesmo que sumiu após o enterro sem sequer um adeus.

O mesmo que nunca respondeu suas mensagens.

O mesmo que - contra toda lógica - ainda habitava seus sonhos de forma inquietante.

Evelyn ficou ali, no chão frio do quarto, abraçada ao caderno como se aquilo fosse uma bomba prestes a detonar tudo o que ainda restava de intacto dentro dela.

O que Benjamin precisava dizer?

Por que não disse?

Por que Lucas?

As perguntas se atropelavam, mas nenhuma resposta vinha.

A única certeza que ela tinha era que precisava ler tudo.

Precisava entender.

Talvez fosse tarde demais.

Ou talvez não.

Talvez aquelas páginas ainda pudessem mudar tudo.

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