
A Traição no Campus da Herdeira Oculta
Capítulo 3
Ponto de Vista de Elara Zamora:
A festa pulsava com música e risadas, um borrão de rostos. Sentei-me em um canto, com uma bebida na mão, sentindo-me mais invisível do que nunca. Eles estavam jogando algum jogo bobo. Verdade ou Desafio, eu acho. Minha mente continuava repetindo as palavras de Heitor. Importante. Não amada.
O jogo ficou mais barulhento. Alguém tinha que cumprir um desafio. Um beijo. Um beijo longo e embaraçoso. A multidão começou a gritar nomes. Meu nome. E o de Karina. A escolha coube a Heitor. Ele tinha que escolher. Minha respiração ficou presa.
O rosto de Karina estava pálido. Ela parecia apavorada, seus olhos se movendo de Heitor para mim. O sorriso habitual de Heitor havia desaparecido. Sua expressão era tensa, indecifrável. A sala ficou em silêncio, esperando.
Ele me escolheu.
Uma onda de humilhação me invadiu. A sala explodiu em aplausos, mas parecia uma risada de zombaria. O cara que tinha que me beijar, um atleta barulhento, gemeu. "Eca, sério, Heitor? Ela?" Ele olhou para o meu rosto comum com nojo. "Não vou fazer isso. Prefiro pagar a prenda."
Suas palavras me atingiram como um golpe físico. A vergonha era sufocante. Meu anonimato cuidadosamente construído havia sido rasgado, não pela beleza, mas pelo escárnio. Levantei-me, minha cadeira raspando ruidosamente no chão. Todos os olhos na sala estavam em mim.
Caminhei até o meio da sala, minhas mãos tremendo enquanto eu alcançava a barra do meu vestido. Era uma coisa barata e genérica, como tudo que eu usava para me esconder. Eu o rasguei, o tecido se partindo com um som agudo que cortou o silêncio. Continuei rasgando, desfiando-o até que não fosse nada além de trapos.
"Estou indo embora", eu disse, minha voz mortalmente calma. Meu peito parecia oco.
Heitor estava de repente ali, agarrando meu braço, seu rosto uma máscara de confusão. "O que foi isso, Elara? O que você está fazendo?"
"O que parece?", puxei meu braço. "Você fez sua escolha, Heitor. Você a protegeu. Você me usou. De novo."
"Eu fiz isso por Karina", ele insistiu, a voz tensa. "Ela estava tendo uma crise. Eu não podia submetê-la a isso. Era só um jogo."
"Um jogo?" Minha risada foi áspera. "É isso que eu sou para você? Um jogo? Uma peça descartável na sua pequena farsa?" Fiz uma pausa, forçando-me a olhá-lo nos olhos. "Se fosse Karina e outra garota, você ainda teria escolhido Karina para ser humilhada?"
Ele não respondeu. Seu silêncio foi a confissão mais alta. Ele a teria protegido, sempre. Ele teria sacrificado qualquer um, qualquer coisa, para mantê-la segura. Eu não era nada. Um pensamento fugaz, uma isca conveniente.
Uma certeza fria se instalou em meu coração. Ele não me via. Ele nunca tinha visto. Ele nunca veria. Eu tinha acabado. Completamente.
Arranquei meu braço e comecei a caminhar em direção à porta.
"Elara, se você sair por aquela porta, terminamos!" Sua voz era um grito desesperado atrás de mim.
Parei, apenas por um segundo. Um sorriso amargo tocou meus lábios. "A gente terminou no momento em que você disse 'importante' em vez de 'amor', Heitor", eu disse, sem me virar. Minha voz era quase um sussurro, mas estava cheia de finalidade.
Saí, sem olhar para trás. Ouvi-o chamar meu nome novamente, mas ele não me seguiu.
O ar da noite estava frio contra meu rosto manchado de lágrimas. Encontrei um parque tranquilo, as luzes da rua projetando longas sombras. Olhei para o meu reflexo em uma poça escura. O rosto comum me encarou de volta, um lembrete fantasmagórico da máscara que eu usava.
Os gritos da minha mãe ecoaram em minha mente. Os flashes das câmeras, os sussurros, o terror em seus olhos. Foi a minha beleza que a condenou. Minha beleza que quase me condenou. É por isso que me escondi. É por isso que fugi. Pensei que se eu me apagasse, poderia estar segura, poderia encontrar uma conexão real.
Mas mesmo escondida, mesmo comum, eu ainda era invisível para a única pessoa que eu desesperadamente queria que me visse. Era uma piada cruel. Esconder-se não protegeu meu coração. Apenas tornou mais fácil para ele quebrá-lo.
As lágrimas vieram novamente, soluços longos e convulsivos. Peguei meu celular, meus dedos tremendo enquanto eu rolava pelos meus contatos. Eu precisava da minha família. Eu precisava de casa. "Estou voltando", sussurrei ao telefone. "Eu quero ir para casa."
A formatura estava se aproximando. Eu estava indo embora. O legado da minha família significava que eu não precisava de um emprego. Os outros estudantes fofocavam sobre meu futuro, especulando sobre minhas "perspectivas ruins". Eles não tinham ideia.
Então veio o e-mail. Um prestigioso festival de cinema. Meu filme de conclusão de curso foi aceito. Meu documentário sobre minha mãe, meu tributo silencioso e pessoal. Um lampejo de orgulho, depois pavor. Eu tinha que ir. Eu tinha que ver. Era a história da minha mãe. Era a minha história.
No festival, eu a vi. Karina Barros. No palco. Aceitando um prêmio. Pelo meu filme.
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