
A Traição Fria e Amarga do Bilionário
Capítulo 2
O taxista estava na metade do caminho para a mansão quando Anajê se inclinou para frente, o vinil do banco grudando em suas roupas úmidas.
- Dê meia-volta - disse ela. Sua voz era oca.
O motorista olhou pelo retrovisor. - Moça, o taxímetro está rodando.
- Volte para o hospital. Entrada lateral.
Ela não conseguia explicar o porquê. Era uma forma de autoflagelação, talvez. Ou talvez ela só precisasse ter certeza absoluta. Precisava que a verdade a esmagasse completamente antes que pudesse se reerguer.
Quando chegaram de volta à clínica, Anajê não foi à recepção. Ela conhecia o layout daquele prédio. Costumava fazer favores aqui para a mãe de Adão, pegando receitas, entregando arquivos. Ela entrou por uma entrada de serviço que sabia que muitas vezes ficava aberta para a lavanderia, a cabeça girando com uma tontura que ela reprimiu impiedosamente. Puxou o capuz do corta-vento e manteve a cabeça baixa.
O segurança da ala VIP era novo. Ele olhou para ela, mas ela caminhou com o propósito brusco e irritado de um funcionário em pausa para fumar, e ele a deixou passar.
O corredor no terceiro andar estava silencioso, acarpetado num bege luxuoso que absorvia o som dos passos. Ela viu o Bentley estacionado lá fora através de uma janela, então sabia que eles ainda estavam ali.
Ela rastejou em direção à suíte de Obstetrícia e Ginecologia. A porta da sala de exames três estava entreaberta.
Pressionou as costas contra a parede, escondida por um grande fícus em vaso. Seu coração batia tão forte que ela achou que poderia ser audível no corredor silencioso.
- ...tudo parece perfeito, Sr. Hortêncio. - Uma voz profunda e profissional flutuou para fora.
Então uma voz mais leve e sussurrada. - Adão, olha. Dá para ver as mãozinhas.
Cássia.
Anajê fechou os olhos.
Uma enfermeira saiu do quarto, segurando uma prancheta. Ela parou para falar com uma colega na estação a apenas alguns metros de Anajê.
- O Sr. Hortêncio é tão intenso - sussurrou a enfermeira, balançando a cabeça. - Você pensaria que era o primeiro bebê do mundo. Ele está nos fazendo refazer todos os testes duas vezes.
- Bem, é cedo - respondeu a outra enfermeira. - Apenas doze semanas. Tem que ter cuidado.
Doze semanas.
As palavras atingiram Anajê como um tapa físico. Ela fez as contas instantaneamente. Doze semanas atrás era meados de agosto.
14 de agosto. O terceiro aniversário de casamento deles.
Adão estava em Londres. Ele ligara para ela, a voz cortante e distante, dizendo que as negociações da fusão estavam demorando e ele não conseguiria voltar para casa. Anajê sentara-se à mesa de jantar sozinha, soprando as velas de um bolo que ela mesma assara.
Ele não estava numa sala de reuniões. Estava na cama com Cássia Inácio.
Dentro do quarto, Cássia riu. - Está se mexendo!
- Ele é ativo - a voz de Adão era um estrondo baixo. Era a voz que ele usava quando estava satisfeito com um negócio. Quente. Orgulhosa.
Anajê tapou a boca com a mão para sufocar o som de ânsia que tentava escapar de sua garganta. A bile tinha gosto ácido e amargo.
Ela se virou e tropeçou de volta pelo corredor, a visão embaçando. Colidiu com um zelador passando pano no chão.
- Olha por onde anda! - ele retrucou.
Anajê não o ouviu. Tudo o que conseguia ouvir era "doze semanas, doze semanas, doze semanas".
Ela voltou para o táxi e desabou no banco.
- Mansão Hortêncio - disse ela novamente. - E desta vez, não pare.
Ela pegou o telefone e digitou na barra de pesquisa: "Adão Hortêncio Viagem Londres Cássia Inácio".
Nada. Apenas comunicados de imprensa sobre a expansão global das Indústrias Hortêncio. Fotos de Adão apertando mãos de velhos engravatados. A equipe de relações públicas tinha limpado tudo. Era uma narrativa perfeita e higienizada.
O táxi subiu o longo caminho da propriedade. Os portões de ferro se abriram, as dobradiças silenciosas. O mordomo, um homem mais velho chamado Estevão, abriu a porta da frente quando o táxi parou. Suas sobrancelhas se ergueram ao vê-la saindo de um táxi amarelo em roupas hospitalares.
- Senhora? - perguntou Estevão. - O Sr. Hortêncio ligou. Disse que a senhora teve um ferimento leve.
- Leve - repetiu Anajê. Ela passou por ele para o grande saguão.
A casa era enorme e fria. Cheirava a polidor de limão e dinheiro velho. Na parede pendia um retrato dela e de Adão no dia do casamento. Adão parecia entediado. Anajê parecia esperançosa. Ela queria arrancá-lo da parede e quebrá-lo no joelho.
Dona Pereira, a governanta, entrou apressada da cozinha. - Oh, Sra. Hortêncio! A senhora voltou. Posso preparar um chá? A senhora parece... pálida.
- Estou bem - disse Anajê, caminhando em direção às escadas.
Ela passou pelo quarto que deveria ser o berçário. Era um quarto que Adão lhe dissera para não decorar ainda. "Não estamos prontos", ele dissera. "Vamos focar na minha carreira primeiro."
A porta estava entreaberta.
Anajê empurrou.
O quarto não estava vazio. Estava cheio de caixas. Caixas cor-de-rosa. Sacolas de butiques de bebê de luxo. Um berço que custava mais que um carro popular já estava montado no canto.
Ela caminhou até uma pilha de presentes no trocador. Havia um cartão preso a um chocalho de prata.
"Para minha querida Cássia e a pequena princesa. Mal posso esperar para conhecê-la. Com amor, Eliana."
Eliana. A mãe de Adão.
Os joelhos de Anajê cederam. Ela agarrou a borda do berço para se firmar.
Todos sabiam. Eliana sabia. Os funcionários provavelmente sabiam. O mundo inteiro estava participando da piada, e a piada era Anajê.
Ela ouviu o baque pesado da porta da frente fechando lá embaixo. Então o som de sapatos de couro caros no chão de mármore.
Adão estava em casa.
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