
A Traição do Meu Noivo, Minha Vingança Ardente
Capítulo 3
As grandes portas duplas da propriedade Novaes se erguiam diante de mim, polidas até um brilho espelhado, refletindo as brasas moribundas do pôr do sol. Este não era mais meu lar; era um museu de grandeza roubada, um monumento ao engano deles. Eu as empurrei, a madeira pesada gemendo em protesto, um som que ecoava a dor em meu peito.
Uma agitação de funcionários, vestidos com uniformes impecáveis, passou apressada, seus rostos uma mistura de curiosidade e desdém. Seus olhares demoraram em minhas roupas gastas, minha pele pálida. Antes, eles teriam corrido para me cumprimentar, para oferecer ajuda. Agora, eles me tratavam como um fantasma, um espectro indesejado assombrando as vidas luxuosas de seus novos empregadores. Uma jovem empregada, não mais velha do que eu quando herdei a casa, esbarrou em mim e murmurou um "Olha por onde anda" sem um pingo de reconhecimento. O desprezo deles era palpável, uma humilhação sutil cuidadosamente orquestrada por Eduardo e Karina.
Eduardo me encontrou no hall de entrada cavernoso, seu sorriso largo, mas artificial. Karina estava ao lado dele, o braço entrelaçado no dele, uma postura de posse presunçosa. "Cris, você conseguiu!", exclamou Eduardo, sua voz muito alta, muito alegre. Ele gesticulou vagamente para o ambiente opulento. "Bem-vinda de volta. Ou, sabe, a um lar. Seu novo lar."
Karina interveio: "Achamos que você gostaria de um lugar tranquilo, mana. Um lugar onde você possa, sabe, se recuperar sem muito alarde." Seus olhos brilhavam com falsa preocupação. "Colocamos você na casa de hóspedes. É pitoresca, privada. Perfeita para você agora."
A casa de hóspedes. Era uma relíquia dilapidada no extremo da propriedade, mal usada mesmo quando eu era criança. Um lugar para coisas esquecidas. Outra farpa deliberada. Giovanna Matarazzo, a sombra de Karina, emergiu da sala de estar, uma taça de champanhe na mão. Ela usava um sorriso que combinava perfeitamente com o de Karina.
"É como a Ka disse", Giovanna arrastou as palavras, sua voz pingando de falsa doçura. "Você realmente precisa de um ambiente calmo. Lembra como você era, Cris? Tão... intensa." Ela enfatizou a palavra, fazendo-a soar como uma doença mental.
Eduardo deu um passo à frente, pegando meu braço, um gesto que pareceu possessivo e condescendente. "Estamos fazendo isso para o seu próprio bem, Cris. Depois de... Angra. Só queremos que você esteja segura. E bem." Ele apertou meu braço, seus dedos cravando em minha carne. "Sabe, os médicos disseram que você ainda tem alguns problemas de raiva para resolver. Estamos aqui para ajudar."
Assenti lentamente, meu rosto inexpressivo, meus olhos vagos. "Eu entendo", sussurrei, minha voz quase inaudível. "Obrigada, Duda. Ka. Gio." Minha submissão pareceu agradá-los. O aperto de Eduardo em meu braço afrouxou ligeiramente, um sorriso satisfeito brincando em seus lábios. Karina apertou o braço dele triunfantemente.
"Boa menina", disse Karina, dando um tapinha no meu ombro, como se eu fosse um animal de estimação. "Agora, por que você não vai se instalar? Teremos uma pequena reunião mais tarde, nada muito cansativo, mas você pode se juntar a nós se se sentir à vontade." Seus olhos me desafiaram a recusar.
Afastei-me, meus movimentos lentos e deliberados. "Vou tentar", murmurei, meu olhar fixo no chão. Virei-me para sair, mas Eduardo parou na minha frente, bloqueando meu caminho.
"Espere", ele disse, sua voz caindo para um tom baixo e íntimo. Ele estendeu a mão, seus dedos traçando a linha da minha mandíbula, depois descendo para o meu pescoço. Um arrepio percorreu meu corpo, mas mantive meu rosto impassível. Seu toque era uma violação, um lembrete do que ele um dia fingiu sentir. Ele se inclinou mais perto, seu hálito quente contra minha orelha. "Podemos fazer as coisas funcionarem, Cris. Você e eu. Talvez não como eram, mas... uma parceria. Você ainda é bonita, do seu jeito."
Seus olhos me percorreram, um brilho de algo sombrio e transacional em suas profundezas. Ele tentou me puxar para mais perto, sua mão deslizando pelas minhas costas. Foi quando seus dedos roçaram o tecido cicatricial fresco e irregular que cruzava minha omoplata, uma lembrança da "terapia" na clínica.
Sua mão recuou como se estivesse queimada. O brilho de desejo desapareceu, substituído por uma expressão de pura repulsa. Seu rosto empalideceu e ele visivelmente estremeceu. "O que... o que é isso?", ele engasgou, sua voz carregada de nojo.
Permaneci em silêncio, meus olhos ainda distantes, mas uma pequena centelha de triunfo se acendeu dentro de mim. Ele estava enojado. Bom. Seu narcisismo não tolerava a imperfeição.
Karina, notando sua súbita retirada, deu um passo à frente, a testa franzida de curiosidade. "O que há de errado, Duda?"
Ele balançou a cabeça, desviando o olhar de mim, o rosto ainda pálido. "Não é nada. Apenas... a internação. Eles tentaram muitos tratamentos experimentais. Deixou-a... mudada." Ele estremeceu novamente, depois forçou um sorriso. "Mas ela vai se recuperar. Ela vai ficar bem."
Giovanna, sempre atenta ao drama, chamou da sala de estar. "Duda, querido! Volte, os fornecedores precisam da sua aprovação final para a pasta de trufas!"
Eduardo aproveitou a oportunidade para escapar. Ele me deu um último olhar desdenhoso, depois se virou e praticamente fugiu em direção a Giovanna. "Estou indo, Gio!", ele gritou de volta, sua voz recuperando seu charme praticado.
Eu o vi ir, o fantasma de seu toque ainda pairando em minha pele. Ele costumava me dizer que amava cada centímetro de mim, cada curva, cada sarda. Ele costumava traçar padrões em minha pele nua, sussurrando promessas de eternidade. Mentiras. Tudo. Ele sempre se sentiu repelido por qualquer coisa menos que perfeita, qualquer coisa quebrada, qualquer coisa que mostrasse as cicatrizes de uma luta. Ele só não tinha visto minhas cicatrizes ainda.
A dor daquela memória, tão vívida e fresca, ameaçou me sobrecarregar. Mas eu a empurrei para o fundo, para o poço da minha determinação. Eduardo e Karina jogaram um jogo perigoso, que me custou quatro anos da minha vida, o legado da minha família e quase minha alma. Eles esculpiram essas cicatrizes em minha carne e em meu espírito. Eles pensaram que me quebraram. Estavam errados. Eles apenas me afiaram.
Peguei o celular pré-pago.
"Mudança de planos. Amplificar a fase um. Alvo no Eduardo primeiro. Esta noite."
O telefone vibrou quase instantaneamente.
"Entendido. Detalhes?"
"Humilhação. Pública. Tudo o que ele valoriza. Quero que o mundo o veja como ele é. E então, quero que ele sinta o que eu senti."
Ouvi a risada estridente de Karina da sala de estar, seguida pela risada profunda de Eduardo. Eles pareciam tão felizes, tão seguros em suas vidas roubadas.
"Considere feito", dizia a mensagem de Dante. "Algo mais, minha rainha?"
Meus dedos pairaram sobre a tela. Fechei os olhos, imaginando o rosto de Eduardo, contorcido de nojo. Depois o de Karina, presunçoso e triunfante.
"Sim", digitei. "Certifique-se de que todos saibam que fui eu. Deixe-os ver o monstro que criaram."
Guardei o telefone, uma calma fria e predatória se instalando sobre mim. Eles queriam um show? Eu lhes daria um. E esta noite, a cortina se abriria para a queda deles.
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