
A Traição Dele, o Coração Despedaçado Dela
Capítulo 3
Ponto de Vista: Helena
A ligação veio no meio da noite, cortando o fino véu de inconsciência que eu consegui arrancar após horas de choro inconsolável. Minha mão desajeitada procurou o telefone, meu coração já um tambor frenético contra minhas costelas. O pavor, frio e pesado, tinha sido meu companheiro constante desde a traição de Ricardo.
"Senhorita Carpenter?" Uma voz sombria do outro lado, formal e estéril, confirmou meus piores medos. "Aqui é o Dr. Evans do Hospital Sírio-Libanês. Estou ligando para informar... perdemos a Júlia."
O mundo girou. O telefone escorregou de meus dedos dormentes, caindo no chão. "Não," sussurrei, o som arrancado da parte mais profunda da minha alma. "Não, não, não." Não podia ser verdade. Simplesmente não podia. Júlia, minha brilhante e esperançosa Júlia, não podia ter partido. Ela deveria viver. Ela tinha tanta vida pela frente.
Minhas pernas cederam. Caí no chão, o azulejo frio pressionando minha bochecha, espelhando o frio que havia tomado meu âmago. Meus pulmões queimavam, o ar se recusando a entrar ou sair. Arranhei minha garganta, desesperada por uma respiração, mas era como tentar respirar debaixo d'água. Sufocamento. Era o que parecia. Não apenas físico, mas espiritual.
A culpa, crua e corrosiva, me rasgou. A culpa é toda sua, Helena. Eu deveria ter lutado mais. Eu deveria ter encontrado outro jeito. Eu nunca deveria ter confiado em Ricardo. O rosto da minha mãe brilhou diante dos meus olhos, seu sorriso gentil, seu olhar amoroso. Eu te decepcionei, mãe. Eu decepcionei a Júlia.
Um ódio ardente por Ricardo, um fogo venenoso e consumidor, acendeu-se em meu peito. Ele tinha feito isso. Ele havia assassinado minha irmã. Ele havia tirado a vida dela com sua indiferença cruel, sua arrogância egoísta. Ele havia roubado o coração, mas havia arrancado o meu no processo. Ele não era apenas um marido; ele era um assassino. Eu nunca o perdoaria. Eu nunca esqueceria.
O mundo ficou preto.
Os dias seguintes se transformaram em uma névoa indistinguível de luto e dor. Meu corpo se movia no piloto automático, uma casca oca guiada pelo instinto. Encontrei-me ao lado do túmulo de Júlia, a terra recém-revolvida uma ferida aberta em meu coração. Dois túmulos, lado a lado. O da minha mãe, e agora o da Júlia. Parecia errado, totalmente errado, uma vida tão jovem ser enterrada.
Eu encarei sua lápide, a foto sorridente de Júlia, vibrante e cheia de vida, seus olhos brilhando com sonhos. Ela tinha apenas dezesseis anos. Dezesseis. Ela queria viajar pelo mundo, cantar, dançar como sua irmã mais velha. Agora, ela se foi. Vítima das circunstâncias. Não. Vítima de traição.
"Sinto muito, minha pequena," sussurrei, minha voz rouca, crua de lágrimas não derramadas. "Eu tentei. Eu realmente tentei."
A capelã do hospital, uma mulher de rosto gentil com olhos tristes, aproximou-se de mim com cautela. "Helena," ela disse suavemente, sua voz cheia de compreensão gentil. "Eu só queria dizer o quanto sinto muito por sua perda. Fizemos tudo o que podíamos."
Ofereci uma risada amarga e sem humor. "Fizeram? Fizeram mesmo, padre? Ou apenas seguiram ordens?"
Seu olhar vacilou, um lampejo de desconforto cruzando seu rosto. "Às vezes," ela começou, depois parou, suas palavras presas na garganta. Ela simplesmente balançou a cabeça e se afastou, deixando-me sozinha com meus fantasmas.
O céu acima espelhava minha alma, uma tela pesada e cinzenta que ameaçava chuva. Uma rajada de vento frio bagunçou meu cabelo, trazendo consigo o cheiro de terra úmida e folhas morrendo. Alcancei o bolso do meu casaco, meus dedos se fechando em torno do pequeno pássaro de madeira primorosamente esculpido que Júlia me dera anos atrás. Era seu amuleto da sorte, ela dissera. Seu coração.
"Helena, você é a melhor irmã mais velha do mundo inteiro," a voz de Júlia, brilhante e clara, ecoou em minha memória. Estávamos sentadas perto da janela, observando a chuva, anos atrás. Ela tinha acabado de me ver chorar após um treino de balé particularmente exaustivo, minha prótese doendo. "Não se preocupe, você vai encontrar alguém que te veja, toda você, não apenas sua perna. Alguém que te ame completamente."
"Você acha, Juju?" eu havia perguntado, cética, enxugando minhas lágrimas.
Ela assentiu enfaticamente, seus olhos sérios. "Eu sei que sim. E quando você o encontrar, ele será o homem mais sortudo do mundo. Você merece toda a felicidade."
Suas palavras, antes um bálsamo reconfortante, agora pareciam uma ironia cruel. Eu acreditei nela. Acreditei que encontrei essa pessoa em Ricardo. Acreditei que meu amor, embora imperfeito, era verdadeiro. Acreditei que merecia a felicidade. E veja onde isso nos levou.
Apertei o pássaro de madeira na mão, as bordas afiadas cravando em minha palma. A chuva começou a cair, suave no início, depois mais forte, misturando-se com as lágrimas frescas que escorriam pelo meu rosto. Meu amor por Ricardo levara à morte de Júlia. Minha confiança nele custara tudo.
Limpei o rosto com as costas da mão, uma determinação fria e dura se instalando em meu coração. As lágrimas acabaram. O luto, embora sempre fizesse parte de mim, não me paralisaria mais. Ricardo havia tirado tudo, mas não levaria meu espírito. Ele não levaria minha vontade de lutar. Eu me divorciaria dele. Cortaria todos os laços. Ele fizera sua escolha. Agora, eu faria a minha. Ele não era meu marido. Ele era o assassino de Júlia. E ele pagaria.
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