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A Sombra de Um Rei

Após doze anos da guerra, Thalfry fragmentou-se em seis reinos que agora vigiam com temor a ambição do Leão de Dazzo. Nicolas, o príncipe aventureiro e braço direito do rei Archie, atua como seu escudo em missões ocultas para garantir a soberania das terras. Enquanto viaja entre nações, ele descobre um perigo iminente que ameaça a paz duramente conquistada. Para honrar uma promessa antiga, o guerreiro enfrentará qualquer desafio que surja diante de seu caminho.
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Capítulo 3

Evelyn

Vejo Any entrar no salão sozinha, parecendo tranquila de mais para quem teve as núpcias interrompidas.

O dia estava escaldante, e sentia um fio de suor escorrer por minhas costas enquanto a via se aproximar com as bochechas rosadas pelo calor.

— Majestade. _ ela se curvou e maneio a cabeça.

— Acho que não deu para passarem algum tempo juntos, não é? Eu teria parado o rei a tempo se soubesse...

— Oh! Foi divertido! _ Ela riu com seu peito vibrando e suas bochechas corando um pouco mais. _ Tudo é novo... então eu estava um pouco assustada.

— As vezes eu sinto falta do clima mais fresco de Hartz. _ comento abanando meu rosto e Any abaixou o rosto em concordância.

— Nunca estive em Hartz, majestade. Imagino que seja agradável. Sou acostumada com o calor de Cristalia.

Noto uma pontada de tristeza em seus olhos ao se lembrar de casa e maneio a cabeça.

— Sente falta de casa?

Ela ergueu seus olhos levemente arregalados para mim, e concordou com um aceno singelo, alisando o próprio braço.

— É que ... Aconteceu tão de repente, e provavelmente eu não voltarei para casa tão cedo. Nicolas disse que deveríamos ir até lá, mas eu sei que depois disso, não voltarei a ir para casa.

Dou um sorriso de canto abatido. Essa era a realidade, algumas de nós, nunca voltaria para casa depois de se casar.

— Eu te entendo. Mas quando vim a Dazzo, eu deseja voltar para Hartz porque me sentia mais em casa lá. Aqui eu ainda me sentia incomodada com os olhares curiosos, os sussurros... Mas, agora eu me sinto em casa aqui e lá. Eu nunca tive uma família para querer me encontrar em um abraço..._ Sussurrou baixinho deixando meu rosto repousar na mão. _ Aqui eu encontrei braços para me aconchegar, proteção e amor.

Any me encarou cética e a dei um sorriso tranquilo.

— Eu me sinto como se tivesse sido um objeto de troca ..._ ela sussurrou abaixando seus olhos para o chão com medo de suas palavras. _ Eu tinha dez anos quando recebi a notícia que um dia iria me casar, para um acordo com Dazzo. Eu fui preparada dia após dia para isso... E agora que estou aqui, não sei o que fazer.

— Eu fui preparada dia após dia, durante oito anos, Any, para ser entregue a um exército como uma distração. Um casamento não me parece tão ruim... _ Sussurrei me levantando do trono e suspirei pesadamente _ Você está muito cansada? Se ainda tiver um pouco de disposição e não quiser ir direto para o quarto, que tal dar uma volta comigo?

— Isso seria ótimo! Eu estava preocupada de ficar um pouco entediada..._ Ela sorriu, de um jeito doce e animada e acenei com a cabeça estendendo meu braço para ela segurar.

— A aldeia ainda está animada, mesmo com o festival chegando ao fim.

— Esse ano se prolongou um pouco mais...

— Archie está bastante empolgado esse ano. E ninguém quer contrariar a vontade do rei...

— Minha rainha, os príncipes e princesas estão querendo ir para Midorina, visitar o rei Lucien. Se eles forem, eu poderia ir também? Nunca estive em Midorina!

— É claro! Isso se o um certo rei ciumento e protetor permitir. Mas as crianças sabem exatamente como fazer o pai durão amolecer... _ ri rolando meus olhos pelo jardim. Acenei para um dos guardas e ele correu para o estábulo. _ Sinceramente, eu também quero ir. Já se passou doze anos desde que aquele pirata me fez uma promessa e eu aguardo ansiosa por isso.

— Às vezes me esqueço que o Rei Lucien é chamado de lendário pirata do mar estreito.

Ri rouca acenando em positivo.

— Eu vi com meus próprios olhos, Lucien tomar de volta sua honra quando decepou a cabeça do rei de Thalfry... E agora, temos novos seis reinos pequenos em batalhas constantes por território e poder.

Os cavalos foram trazidos e montei Aurora com tranquilidade. Artur, agora um paladino da minha guarda, colocou Any sentada sobre a sela.

— Minha rainha, devo acompanhá-las?

— Toda vez que olho para você, ainda vejo o pequeno menino medroso olhando diretamente para o rei. Você cresceu tanto Artur...

— Posso dizer que fiquei mais bonito?

— E esperto e forte também!_ respondi sorridente e ele sorriu largo.

Artur era o único paladino que recusou a armadura dourada. Ele se vestia ocasionalmente como em um dia qualquer, mas se misturava em qualquer lugar sem chamar atenção. Ele e Nicolas se tornaram espadachins extraordinários sob o treinamento intenso de Willy e Archie.

Balancei as rédeas e Aurora caminhou tranquila enquanto Any estava tensa sobre a sela de seu cavalo, provavelmente com medo de cair.

— Majestade, já esteve em algum desses reinos?

— Não! Desde a queda de Thalfry, nós ficamos onde devemos ficar: Em nossas terras. Se alguém quiser fazer alianças ou comércios, eles tem que vir até nós!

— Dizem que se tornou um lugar perigoso. _ Artur comentou, cavalgando um pouco atrás de nós, rolando seus olhos na paisagem. _ Uma terra sem lei, onde as pessoas tentam sobreviver se agarrando ao poder. Não é lugar para minha rainha colocar os pés. Iria manchar as solas de suas sapatilhas em terra perdida. Lá só tem ladrões, mercadores trapaceiros...

— Nossa... Eu não sabia que tinha se tornando um lugar assim. _ Any sussurrou tensa, com as sobrancelhas apertadas. _ Quem diria que a grande Thalfry se resumiria apenas a memórias gravadas em suas ruínas.

— Olho por olho, dente por dente... _ Artur sussurrou com amargor em sua voz.

Ele passou tanto tempo com Lucien, que pegou até mesmo ódio por Thalfry, como se fosse filho do pirata.

— Não acha que as pessoas inocentes pagaram por isso? Não pode chamar a todos de ladrões e mercadores trapaceiros! Deve ter alguém bom lá... alguém que não tem culpa! _ Any protestou e olhei de relance para ela e depois para Artur. Pessoas pagam pela violência, sabia?

Vi o rapaz sorrir debochado, arqueando a sobrancelha.

— Diga isso para seu marido, e ouça a resposta dele! Se eu der a minha, provavelmente perco a língua por ofender alguém de sangue nobre ...

— Olhe, o que estou dizendo, é que pessoas pagaram pelo erro de um cretino! Se a antiga Thalfry se tornou um lugar tão perigoso e ...

— Lutamos por este lugar!_ Artur rebateu ríspido_ Por estas pessoas! Por Dazzo e Hartz! Como princesa, deveria entender que uma guerra é o princípio de tentar defender aquilo que é o certo! Sem a violência, a ignorância das pessoas não é parada! Eu fui um menino de rua, e eu sei exatamente o que é ver a violência! Uma guerra, não é nada, quando todos os dias você vive a violência do seu próprio povo! Eu era de Avarya, mas agora aqui pertenço, e aqui defendo, não tenho pena de meus inimigos! E deveria começar a pensar assim, porque é o que seu marido pensa!

Any abriu a boca, mas a fechou, estressada com a resposta. Eu não poderia corrigir Artur por ele estar certo. A antiga Thalfry se tornou terra sem lei porque seu povo se mostrou ganancioso por poder. Eles não ergueram um novo regente, mas começaram batalhas entre si por causa de vários que se ergueram, com ganância e sede de poder.

— Dê uma oportunidade para um homem e ele vai aproveitá-la. Dê poder a ele, e verá o que ele se tornará! _ Artur sussurrou baixinho também irritado. _ É como estar passando fome durante anos de sua vida, e ser colocado na frente de um banquete...

— Ensopado e pão..._ comentei tranquila e olhei por cima do ombro para ver Artur dar um sorriso envergonhado. _ Você comeu tanto naquele dia que passou mal.

— Eu era uma criança... Homens têm desejos diferentes.

— Eu sei. Eu tive ... E eu conquistei o que eu queria para sobreviver e manter meu povo a salvo. _ sorri ladino e voltei a olhar a paisagem, com os olhos de Any arregalados. _ Ninguém é inocente, princesa... Ninguém é totalmente bom...apenas criança tem o coração puro, mas um dia elas também serão corrompidas por algo que almejam.

— Eu não penso assim...

— A lei é dos mais fortes! Se você fraquejar, alguém vai passar em cima... E vão tomar aquilo que vocês conquistou. Nenhum império nasce de um dia para a noite. Esses reinos vão continuar batalhando entre si, pessoas inocentes vão continuar pagando por erros que não são seus, até o dia em que um novo império se firme. Midorina se tornou ruínas, seu povo escravizados e mortos, garotas violentadas... Impérios demoram a ser construídos, mas caem em pouco tempo. Então é melhor ser forte o bastante para lutar contra as inconstâncias e ameaças... Ou não sobra nada de você, nem mesmo as cinzas para serem levadas com o vento.

— Eu não fui criada para isso..._ Any sussurrou como se a realidade tivesse batido na porta.

— Não. Você foi criada para se casar, porque alguém tinha que se tornar forte para não correr o risco de também se tornar ruínas. _ Sussurrei e ela apertou as rédeas. _ Estou sendo dura demais com você, Any, em minhas palavras? Espero que seja a única coisa dura de verdade contra você. Não vai querer encarar a realidade lá fora, que é grande, pesada e dura como uma montanha caindo sobre sua cabeça...

— Entendido, majestade... _ Any concordou ainda encarando séria a própria rédea apertada nas mãos.

— Vamos, relaxe! Viemos para um passeio, não para nos sentir chateadas...

Ela acenou, relaxando os ombros. Fiz Aurora galopar e Artur passou por Any a encarando nos olhos antes de me alcançar.

— Perdoe-me por ter sido rude com a princesa, minha rainha. Eu não tinha intenção de estragar o passeio das senhoras.

— Está tudo bem! Ela apenas nunca teve que lutar pela própria vida para entender isso. Não volte a confrontá-la, ela ainda é uma princesa... você pode arrumar problemas com isso. _ estiquei minhas mãos empurrando levemente seu rosto.

Artur concordou e parou seu cavalo, esperando Any conseguir fazer o seu galopar. Ele deu meia volta, parando o seu atrás do dela, e deu um tapa leve na traseira do cavalo que disparou, quase derrubando a princesa se ela não estivesse agarrada às rédeas com tanta força.

Ele riu quando ela gritou, e assistimos o rastro de poeira deixado pelo cavalo.

— Eu não sei o que Nicolas viu nessa ai...mas eles não combinam nadinha!_ Artur resmungou passando por mim e maneio a cabeça tendo que concordar.

___________________________________________

Boa leitura!

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