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Capa do romance A RUÍNA

A RUÍNA

Clara volta à sua terra natal movida por um desejo implacável de justiça contra o homem que destruiu seu pai. Disposta a tudo, ela se infiltra em círculos perigosos para executar sua vingança. No entanto, um encontro inesperado durante uma noite de excessos apresenta alguém capaz de abalar suas convicções e planos meticulosos. Dividida entre o ódio e uma paixão imprevista, ela enfrentará o dilema: o amor pode superar sua sede de retribuição?
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Capítulo 1

A grama verdinha estava sendo pisoteada por pessoas de várias idades. A praça era grande e ladeada por ruas largas. Em seu entorno, havia prédios públicos, algumas casas e pequenos comércios locais. Do lado esquerdo, logo depois da linha do trem, crianças brincavam de pular corda em uma rua cheia de casas coloridas. Do lado oposto, jovens entoavam uma canção sem ritmo no karaokê da pizzaria. A biblioteca, que em outros tempos possuía um jardim bem-cuidado, estava com a fachada toda destruída. No centro, havia um coreto decorado com mosaicos, de lá tinha-se uma visão panorâmica de toda a praça e de tudo em seu entorno. Era lá que eu estava.

Do coreto, eu conseguia ver um palanque armado em frente ao acarajé mais famoso da cidade. Várias pessoas estavam ao redor dele, a maior parte delas trajava camisetas personalizadas exibindo a foto e o partido de seu candidato a prefeito. Todos comportavam-se como se ali fosse um ídolo ou um Messias. Eu sabia que ele estava longe de ser qualquer um dos dois, mas, se quisesse que tudo desse certo, teria que me comportar como parte da massa.

Enquanto eu ia de encontro às pessoas, parei, olhei para o céu e fiz uma breve prece. Era uma noite de céu limpo e estrelado, uma noite onde nada deveria ou poderia dar errado. Era a noite que marcava a abertura da campanha eleitoral e o momento perfeito para eu dar início aos meus planos.

Tirei o celular da bolsa, me misturei à multidão enlouquecida e comecei a sorrir debilmente enquanto fazia selfies com o palanque ao fundo. Precisava de uma boa foto para exibir nas redes sociais, precisava provar aos miranguenses que eu não era da oposição, que eu estava com a maioria, mesmo que essa maioria se oferecesse como carniça aos urubus.

Ao fim do longo e esperançoso discurso, santinhos políticos foram jogados para o alto como confetes. Logo depois, todos foram para a Igreja Matriz, que ficava a poucos metros da praça central onde o comício havia acontecido, e claro que eu também fui com a multidão.

Assim que subi os quatro degraus que margeavam toda a frente da igreja, parei e fiquei olhando a nova pintura, cuidadosamente bem-acabada e nas cores da campanha de Daniel. A igreja era simples, o único luxo eram os azulejos portugueses azul e branco que decoravam as paredes cortadas por compridas janelas. Duas fileiras de enormes bancos de madeira ficavam de frente para um altar simples, forrado com toalhas brancas.

Coincidentemente — eu não acreditava nisso —, aquele era o dia do aniversário de Daniel Murtiga, o candidato com mais chance à eleição. Era em sua homenagem que aconteceria a missa na Igreja Matriz.

Miranga era uma cidade atrasada em relação ao resto do mundo, mas não muito diferente de várias outras cidadezinhas do interior baiano. Política e religião se misturavam num sincretismo pavoroso, onde mentes maquiavélicas se aproveitavam da fé alheia para usurpar votos em troca de promessas ungidas e abençoadas.

— Clara, aqui! — Ouvi a voz de Tércia, a minha melhor amiga, ela havia guardado um lugar para mim. — Bem no meio, como você pediu.

Sentei-me, abraçando a minha amiga. Foi um abraço demorado e carinhoso. Tércia não morava mais em Miranga, foi até ali só para me dar uma força, e eu sei que, lá no fundo, ela ainda tentaria me convencer a desistir dos meus planos.

Eu havia voltado para a cidade há um mês com o único propósito de buscar justiça, depois iria embora para nunca mais retornar. O plano era arriscado, eu sabia disso, mas não iria recuar, nem mesmo pela minha melhor amiga. Tércia insistia que aquilo não seria saudável para mim, dizia que, no final, eu sairia muito mais destruída dessa história.

— Você está bem? — foi a primeira coisa que perguntou assim que nos soltamos. Afirmei com um resoluto movimento de cabeça. — Será que ainda consigo dissuadi-la a voltar atrás? — Neguei com a mesma energia.

— Você vem tentando isso há meses, e nunca conseguiu, não vai ser agora que já estou aqui que vou ceder. — Acariciei o seu rosto com gentileza. — Amiga, eu te amo, mas não me peça mais isso.

Ela se conformou, pelo menos foi o que me pareceu. Tércia sabia o quanto fazer aquilo seria importante para mim. O ódio que eu nutria pela família Murtiga era uma gangrena que corroía a minha alma, mas eu não conseguia me livrar dele.

De mãos dadas, voltamos a atenção para o púlpito da igreja que, a propósito, estava lotada. Muitas pessoas ficaram em pé, cabeças se espremiam na porta, todos se aglomeravam para tentar ver o candidato a prefeito de perto.

— Eita, tem gente saindo pelo ladrão! — Tércia comentou enquanto se abanava devido ao calor do final do outono.

— Não usa essa expressão, aqui muitos vão pensar que é indireta. — Sorri da minha piada e percebi o quanto estava tensa.

O padre Carlos começou a missa.

— Hoje nós temos a casa cheia. Obrigado, meu bom Deus! Está como o Senhor gosta. Amém?

— Amém! — Todos em uníssono.

— Temos muitas pessoas lindas neste recinto, mas não posso deixar de falar da presença de nosso ilustríssimo cidadão, filho da terra, cria da nossa paróquia, Daniel Murtiga. — Estendeu o braço na direção do candidato, que sorriu acenando para todos. — Um homem honrado e digno de nossa confiança. — Todos o aplaudiram como em um comício. — Eu poderia passar a noite listando as qualidades desse homem, poderia falar o quanto ele é e sempre foi importante para o nosso município, o quanto ajudou os mais necessitados e o quanto ainda pode vir a ajudar, se é que me entendem. — Todos caem na risada. — A lista seria enorme, mas vou falar apenas vinte e cinco motivos para gostarmos dele.

As risadas tornam-se estrondosas, pois vinte e cinco era o número de campanha do candidato em questão. O padre começou a enumerar todos os favores que Daniel havia prestado aos cidadãos miranguenses. Das cirurgias gratuitas à dentadura que permitia um sorriso mais simpático, do botijão de gás até aquelas telhas que impediam as goteiras dentro das casas. Tudo era jogado na cara de um povo simples e necessitado, que levava a gratidão tão a sério quanto a própria religião. Eles não percebiam que tinham seus direitos negados para serem humilhados. Eram induzidos a trocar votos por pão. Eu estava boquiaberta e visivelmente enojada com toda aquela situação.

— Meu Deus, isso é prostituição moral! Como pode um líder religioso usar o altar como palanque? — falei bem próximo ao ouvido de Tércia. — Isso é tão mesquinho, tão feio.

— É feio para quem é contra! — a fala veio acompanhada de uma batida em meu ombro, era a diretora de educação municipal que estava logo atrás de mim. — Por acaso você é da oposição?

Eu e Tércia nos assustamos com a inquisição de Irene Santos. Me perguntei como ela ouviu algo que foi dito ao pé do ouvido de outra pessoa e em um tom baixo. Miranga, pelo jeito, não mudou em nada, tinha olhos e ouvidos em todos os cantos. Percebi que precisaria ter muito cuidado e sangue frio para que meus planos tivessem o sucesso almejado.

— Meu voto é secreto — respondi, encarando uma Tércia que balançava a cabeça, pedindo que eu tivesse cautela —, mas acho que isso deixa claro a minha posição. — Virei-me para a diretora e apontei o adesivo colado ao bojo do vestido preto e superdecotado. — Só não tô acostumada com essa mistura de política com religião.

Irene não se convenceu de que foi um inocente descuido de minha parte e nem se dignou a responder-me, apenas voltou a cabeça para o padre, ignorando-me.

A missa continuou com o padre tocando nas feridas da população, fazendo com que todos se lembrassem da miséria em que viviam e a quem deviam gratidão, caso quisessem continuar recebendo auxílio. Era assim que a política em Miranga funcionava. O voto era de um cabresto arraigado, porém, disfarçado, moldado pela religião e alimentado com migalhas.

Assim que a missa acabou, formou-se uma fila, todos queriam apertar a mão do homem que, segundo o padre local, traria melhorias para a população. Parecia uma procissão, cada um com o seu pedido, respondido com promessas vazias de “Se eleito, vou dar o meu sangue por este lugar, assim como vem fazendo o meu pai”.

Pai.

Essa palavra tão forte e cheia de significados que me levou até ali e que me dava forças para continuar.

Depois do que pareceu uma eternidade, chegou a minha vez apertar a mão do ilustre candidato. Eu tremia só de imaginar tocar naquele homem asqueroso, mas era um sacrifício que valeria a pena. Teria que valer! Ajeitei o generoso decote e estiquei a bainha do vestido para que não parecesse tão vulgar.

Eu tenho estatura mediana e não sou dotada de muitas curvas. Não gosto de atividades físicas, faço apenas natação. Eu adoro o contato com a água, pois me traz doces recordações da infância. Com uma aparência normal, nada exuberante, um rosto bonito e um olhar sensual, é o que dizem, eu conseguia seduzir usando elegância e inteligência.

— Prazer, Clara! — Minha voz estava trêmula, mas poderia passar a impressão de nervosismo diante do ídolo.

— Não vai fazer nenhum pedido? — Daniel perguntou sem soltar a minha mão.

— Um emprego, estou retornando para a cidade e estou precisando de trabalho. — Eu estava planejando apresentar currículo na única escola particular da cidade, mas poderia aproveitar que ano eleitoral era melhor para se conseguir empregos nos cargos públicos.

— “Um bom filho à casa retorna”.

— É o que dizem.

— E bela moça faz o quê? — Daniel oscilava o olhar entre meu decote e os meus lábios.

— Sou professora de Língua Portuguesa. — Sorri pequeno, tentando parecer tímida e, ao mesmo tempo, sensual.

— Seja bem-vinda, professora! Que profissão bonita! Vocês são o alicerce de nosso país — falou a última frase elevando a voz. — E não esqueça de transferir o título de eleitor, se for do seu interesse, é claro!

— Ah, é claro! Já providenciei isso — respondi, soltando a sua mão.

Saí da igreja assim que pude. Tércia estava na porta, esperando-me com uma garrafinha de água mineral, que eu bebi em grandes goles antes de deixar as lágrimas caírem.

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