
A Reviravolta Espetacular da Esposa Negligenciada
Capítulo 3
Ponto de Vista: Helena Barreto
Talita entrou no meu consultório como se fosse a dona do lugar, um sorriso triunfante brincando em seus lábios.
"Que queda, não é, Helena?", ela ronronou, passando a mão sobre sua barriga ainda lisa, onde o filho do meu marido estava crescendo.
Permaneci em silêncio, meus olhos fixos no prontuário do meu pai. Alcancei sob minha mesa e pressionei o pequeno e discreto botão que ativava a função de gravação da câmera de segurança. No mundo dos Almeida Prado, nunca se é cuidadoso demais.
Talita notou o movimento sutil.
"Ainda tão cautelosa", ela zombou.
"Gravando nossa conversinha? Não se preocupe, não estou aqui para te ameaçar. Estou aqui para... me gabar."
Ela riu, um som feio e triunfante.
"Logo, serei a Sra. Bernardo Almeida Prado. E você não será nada. Mas ainda seremos melhores amigas, certo? Irmãs, até?"
A palavra 'irmãs' foi como um tapa. Olhei para ela, realmente olhei para ela, e vi uma estranha. Lembrei-me do dia em que a conheci, uma garota assustada e sem dinheiro que acabara de chegar a São Paulo com nada além de uma mala surrada e uma história de um passado trágico. Sua família era um caos de vício e abuso, uma história que ela contou com lágrimas tão convincentes que a acolhi sem pensar duas vezes. Dei a ela um lugar para morar, a apresentei aos meus amigos, até consegui um emprego para ela no departamento administrativo do hospital. Eu a apresentei a Bernardo.
Eu tive pena dela. Tentei salvá-la. E ela usou essa pena, essa história de vitimismo, para manipular todos ao seu redor, incluindo Bernardo. Ela jogou com a culpa dele, seu desejo de ser um salvador, e teceu uma teia de mentiras tão intrincada que ele agora estava completamente enredado.
"Eu sei que você me odeia", disse ela, sua voz baixando para um sussurro conspiratório.
"Mas você tem que entender. Eu estava desesperada. Tinha que fugir da minha família."
Ela se inclinou mais perto.
"Bernardo é meu bilhete de saída. Este bebê é minha apólice de seguro."
Ela colocou uma receita de vitaminas pré-natais na minha mesa.
"O médico disse que preciso começar a tomar. Pensei que você poderia aviar para mim. Pelos velhos tempos."
Ela se virou e saiu do meu consultório, deixando a receita para trás como um cartão de visita.
No momento em que a porta se fechou, a força me abandonou. Desabei na cadeira, o peso da dupla traição me esmagando. Eu havia perdido meu marido e minha melhor amiga em um único e devastador golpe.
De repente, o alerta de emergência na minha mesa soou violentamente. Um código azul. No quarto do meu pai.
Saltei da cadeira e corri, meu coração martelando em meus ouvidos. Entrei em seu quarto e encontrei uma cena de caos. Meu pai estava ofegante, seu rosto com uma terrível tonalidade azul. E Talita estava ao lado de sua cama, a mão no painel de controle de seu ventilador, um olhar de pura malícia em seu rosto. Ela estava mexendo no suporte de vida dele.
"Talita!", gritei, um som cru e animal de puro terror.
Enfermeiras e médicos entraram correndo, me empurrando para o lado enquanto trabalhavam freneticamente para salvá-lo. Vi a linha reta no monitor cardíaco, ouvi o bipe contínuo e ensurdecedor que sinalizava o fim. Minhas pernas cederam e eu desabei no chão.
Ele se foi. Depois de dois anos lutando, esperando, torcendo por um novo coração que finalmente estava programado para chegar na próxima semana, ele se foi. Simples assim.
Uma raiva incandescente, mais pura e intensa do que qualquer coisa que eu já senti, surgiu em mim. Levantei-me cambaleando e me lancei sobre Talita, minha mão acertando sua bochecha em um tapa que ecoou pela sala.
Ela gritou, cambaleando para trás. Naquele exato momento, Bernardo apareceu na porta, um buquê de rosas na mão.
Ele viu Talita segurando a bochecha, me viu com a mão levantada, e não viu mais nada. As rosas caíram no chão, suas pétalas se espalhando como gotas de sangue nos azulejos brancos e estéreis. Ele se lançou sobre mim, agarrando meu rosto, seus dedos cravando em minha pele. Um dos espinhos de uma haste caída arranhou minha bochecha, desenhando uma fina linha de sangue.
"O que diabos você pensa que está fazendo?", ele rosnou, seu rosto a centímetros do meu.
"Ela está grávida do meu filho! Você enlouqueceu?"
"Ela o matou", solucei, as palavras engasgadas e quase ininteligíveis.
"Bernardo, ela matou meu pai."
"Peça desculpas a ela", ele ordenou, sua voz fria e dura.
"Agora."
Ele voltou seu olhar para Talita, que agora chorava dramaticamente.
"E você", disse ele a ela, sua voz suavizando.
"Se você não consegue fazer Helena feliz, se continuar causando problemas, eu vou fazer você se livrar desse bebê."
A ameaça pairou no ar, um lembrete arrepiante de que, para ele, Talita e o bebê eram apenas ativos a serem gerenciados.
Arranquei-me de seu aperto e me virei para sair. Eu não podia ficar naquele quarto, com aquelas pessoas, por mais um segundo.
Talita, sempre a atriz, correu para frente.
"Helena, sinto muito", ela chorou, saindo correndo do quarto.
Bernardo agarrou meu braço novamente, me puxando de volta.
"Não se atreva a me dar as costas", ele sussurrou, sua voz uma ameaça baixa. Ele se inclinou e beijou o canto do meu pescoço, um gesto possessivo, de marcação.
"Tenho uma reunião. Volto para ver seu pai mais tarde."
Ele beijou minha testa, um gesto final e vazio de afeto.
"Seja boazinha."
Ele saiu. Fiquei ali, minha garganta tão apertada que não conseguia falar, tão seca que não conseguia nem engolir.
Uma enfermeira se aproximou de mim, seu rosto cheio de pena.
"Dra. Barreto... sinto muito. Seu pai... ele se foi."
Ela hesitou, depois baixou a voz.
"Há algo que você deveria saber. O coração que foi compatível com ele... o Sr. Almeida Prado cancelou a doação há duas semanas. Ele o redirecionou para o irmão da Talita."
O mundo inclinou e ficou preto. Desmaiei, o último som em meus ouvidos o eco de sua traição final.
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