
A Revelação Que Quebrou o Casamento
Capítulo 2
O cheiro de camarão atingiu-me primeiro, um aroma rico e amanteigado que fez o meu estômago revirar.
Eu sou mortalmente alérgica a marisco.
O meu marido, Pedro, sabe disso. A família dele sabe disso.
"O que é isto, Sofia?" perguntei, afastando o prato.
A prima do Pedro, Sofia, sorriu, um sorriso demasiado doce.
"É só um risoto de cogumelos, Ana. O teu favorito. Fiz especialmente para ti."
Todos na mesa de jantar da família olharam para mim. A mãe do Pedro, Lúcia, observava-me com os seus olhos pequenos e atentos.
"Parece delicioso, querida," disse Lúcia, mas a sua voz era fria.
Hesitei, mas Pedro colocou a mão na minha perna por baixo da mesa.
"Come, amor. A Sofia passou a tarde toda a cozinhar."
Confiei nele. Confiei no meu marido.
Levei uma garfada à boca. O sabor era bom, cremoso, terroso. Mas por baixo, havia algo mais. Um travo subtil, metálico e familiar.
O meu corpo reagiu antes da minha mente.
A minha garganta começou a fechar.
Uma comichão violenta explodiu na minha pele. Lutei para respirar, o ar a entrar em assobios finos.
"Ana?" A voz do Pedro soou distante.
Apontei para a minha garganta, os meus olhos a arregalarem-se de pânico. O meu bebé. Eu estava grávida de oito meses. O meu filho.
"Marisco," consegui sussurrar, a minha voz um guincho.
O pânico instalou-se na sala.
Sofia começou a chorar alto.
"Oh meu Deus! Eu não sabia! Juro que usei caldo de legumes! Talvez estivesse contaminado!"
Lúcia correu para abraçar Sofia, não para me ajudar a mim.
"Calma, querida, foi um acidente. A Ana é tão sensível."
Pedro ficou paralisado entre mim e a sua prima a soluçar. Eu estava a sufocar, o meu rosto a ficar azul, mas ele olhou para Sofia.
"Leva-a para o hospital!" gritou a minha mãe, Helena, que estava sentada do outro lado da mesa. Ela correu para o meu lado, a sua expressão de puro terror.
Pedro finalmente se moveu, mas a sua primeira ação foi afagar o ombro de Sofia.
"Está tudo bem, Sofia, não te preocupes."
Depois, ele virou-se para mim, a sua cara uma máscara de irritação e pânico.
"Vamos. Entra no carro."
A viagem para o hospital foi um borrão de sirenes na minha cabeça e da voz ofegante do Pedro. Ele não estava a falar comigo. Estava ao telefone com a mãe dele.
"Sim, mãe. Sim, a Sofia está bem? Diz-lhe para não se preocupar. Foi só um susto. Sim, eu cuido disto."
Um susto.
Eu estava a lutar pela minha vida e pela do meu filho por nascer, e para ele, era apenas um susto que incomodava a sua prima.
A escuridão tomou conta das bordas da minha visão. A última coisa que ouvi foi a voz do Pedro, não para mim, mas para a mãe dele.
"Vou ligar-te assim que deixar a Ana no hospital e me certificar de que a Sofia está mais calma."
Depois, nada.
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