
A Queda de João
Capítulo 2
João voltou para casa às dez da noite, e eu finalmente deixei escapar a pergunta que me atormentava o dia todo.
"Por que você não atendeu minhas ligações?"
Ele estava tirando os sapatos, e suas costas pareciam rígidas e cansadas. Ele não se virou, apenas respondeu com uma voz exausta.
"Estava em reunião, não ouvi. O que foi?"
"Uma amiga me mandou uma mensagem, disse que viu você e a Joana almoçando juntos no restaurante perto da empresa."
A atmosfera na sala de estar de repente ficou pesada.
João finalmente se virou, seu rosto mostrava uma impaciência mal disfarçada, mas ele se forçou a suavizar a expressão.
"Foi um almoço de equipe. Apenas isso. Você está pensando demais de novo."
Ele se aproximou, tentando pegar minha mão, mas eu a afastei.
"Não estou pensando demais," eu disse, olhando diretamente para ele. "Você disse que estava em reunião."
Ele suspirou, a exaustão em seu rosto parecia genuína, misturada com uma ponta de irritação. "Maria, eu estou cansado. Podemos não brigar por causa disso? Amanhã à noite tem o jantar da empresa, você pode vir comigo. Assim você vê com seus próprios olhos que não há nada, ok?"
Ele até tentou um tom conciliador, algo que não fazia há muito tempo. Antigamente, ele apenas teria me acusado de ser neurótica e batido a porta do quarto.
Meu coração se debateu com uma mistura de dúvida e uma ponta de esperança. Eu queria acreditar nele, queria que a vida voltasse ao normal. Mas uma sensação pegajosa na garganta me impedia de relaxar.
"Tudo bem," eu disse, com a voz baixa.
À noite, deitados na cama, ele se virou e me abraçou. Seu corpo estava quente, mas seu toque parecia uma obrigação, um ritual para manter as aparências.
"Nós ainda somos marido e mulher, Maria," ele sussurrou no meu ouvido, como se estivesse me concedendo uma honra.
Eu fechei os olhos, sentindo o peso do corpo dele sobre o meu. A lua lá fora parecia cansada e fria. Eu me senti como um objeto, uma parte da mobília da casa que ele precisava polir de vez em quando para manter a fachada.
A sensação pegajosa na minha garganta se tornou insuportável.
Eu não consegui mais me segurar.
"Você realmente não tem nada com a Joana?"
O nome dela, dito em voz alta na escuridão do nosso quarto, fez o ar congelar.
O corpo de João enrijeceu completamente. Ele saiu de cima de mim abruptamente, e a mudança de temperatura foi instantânea.
Ele se sentou na cama, sua respiração pesada no silêncio. Quando ele finalmente falou, sua voz era um rosnado baixo e furioso, irreconhecível.
"Você tinha que estragar tudo, não é? Tinha que mencionar o nome dela?"
O choque me deixou sem palavras. Sua raiva era tão desproporcional, tão violenta.
Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro no quarto, como um animal enjaulado.
"Eu volto para casa, tento consertar as coisas, tento ser um bom marido, e é assim que você me recebe? Com acusações? O que você quer, Maria? Me ver de joelhos? Ou você quer que essa família acabe de vez?"
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