
A Prova da Negligência: O Abandono do Meu Marido
Capítulo 2
Quando o médico me disse que eu precisava de uma transfusão de sangue de emergência, o meu marido, Pedro, estava ao telefone, a discutir com a mãe sobre a cor das cortinas para o quarto do bebé.
"Mãe, já te disse, a Eva gosta de azul, não de amarelo. Sim, eu sei que é uma menina, mas ela quer azul. Podemos parar com esta discussão?"
A voz dele era impaciente, mas continha um carinho que ele raramente me mostrava.
Eu estava deitada na cama do hospital, com o suor a escorrer-me pela testa. A hemorragia pós-parto não parava.
O médico olhou para mim com pena e depois para o Pedro, que ainda estava de costas para nós, completamente absorto na sua chamada.
"Senhor, a sua esposa precisa de si. É uma emergência."
O Pedro finalmente virou-se, com o telemóvel ainda colado à orelha. O seu olhar passou por mim, sem qualquer preocupação, e focou-se no médico.
"O que se passa? Ela não acabou de ter o bebé? Está tudo bem com a minha filha?"
"A sua filha está perfeitamente bem, mas a sua esposa perdeu muito sangue. Precisamos de uma transfusão imediata. O tipo de sangue dela é raro, e o nosso banco de sangue está em baixo."
O Pedro franziu a testa. "E então? O que é que eu posso fazer? Não sou médico."
Ele ainda não tinha desligado a chamada. Ao fundo, ouvi a voz da minha sogra, a mãe dele, a gritar qualquer coisa sobre o azul ser uma cor para rapazes.
"O seu tipo de sangue é compatível. Pedimos que doe sangue para salvar a vida dela."
O Pedro riu-se, um som oco e sem alegria.
"Doar sangue? Agora? Eu acabei de passar a noite toda acordado. Estou exausto. Não podem encontrar outra pessoa?"
Antes que o médico pudesse responder, o Pedro voltou a falar ao telemóvel.
"Mãe, desculpa, estes médicos estão a ser ridículos. Ouve, compra as cortinas azuis. Eu pago. Tenho de ir ver a Eva. Sim, ela está bem. Beijo."
Ele desligou e meteu o telemóvel no bolso, finalmente a dar-nos a sua total atenção.
"Olhe, eu não vou doar sangue. Tenho pavor de agulhas. E se eu desmaiar? Quem é que vai cuidar da minha filha recém-nascida? A mãe dela certamente não pode, nesse estado."
A minha visão estava a ficar turva. A voz do médico parecia vir de longe.
"Senhor, isto é uma questão de vida ou de morte."
"Não me pressione," disse o Pedro, a sua voz a subir. "Eu sou o único que pode cuidar da minha filha agora. A minha saúde é mais importante. Encontrem outra solução."
Ele olhou para mim, na cama, e a sua expressão não era de preocupação, mas de aborrecimento.
"Sofia, porque é que tens de ser sempre tão dramática? Não podias ter um parto normal como toda a gente?"
Com isso, ele virou-se e saiu do quarto, dizendo que ia ver a nossa filha, a Eva.
Fiquei sozinha com a equipa médica, o som da minha própria respiração fraca a ecoar nos meus ouvidos.
Naquele momento, enquanto a minha vida se esvaía, percebi que o meu casamento também tinha acabado.
A única coisa que me ligava a ele era uma bebé que ele já usava como desculpa para me deixar morrer.
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