
A Promessa Quebrada: Um Amor Perdido na Mentira
Capítulo 2
A noite no Rio de Janeiro era abafada, e o cheiro de suor e cerveja barata misturava-se no ar quente do barracão da escola de samba. Eu precisava de 5.000 reais. Com urgência. A minha avó, a única família que me restava, estava no hospital, e o tratamento não podia esperar.
Foi por isso que aceitei a proposta da minha prima, Nicole. Uma apresentação privada para uns empresários ricos. "É dinheiro fácil, Lauren", ela disse, com aquele sorriso que eu conhecia tão bem. Um sorriso que escondia mais do que mostrava.
Mas o dinheiro não foi fácil. O ambiente era pesado, os olhares dos homens eram pegajosos. Eles não queriam ver a minha arte, o samba que a minha mãe, uma lenda da escola, me ensinou. Eles queriam o meu corpo. O assédio começou com palavras, depois com toques "acidentais". A situação saiu do controle rapidamente. Tentei ir embora, mas fui impedida. A humilhação transformou-se em medo, e o medo em dor física quando me empurraram e caí, batendo a cabeça.
Acordei no hospital, com uma dor latejante na cabeça e o corpo dolorido. A primeira pessoa que vi foi Hugo Gordon, meu namorado, o baterista talentoso da nossa escola, o homem que eu amava com todo o meu coração.
Mas o olhar dele não era de preocupação. Era de fúria e nojo.
"Quanto eles te pagaram, Lauren?"
A voz dele era fria, cortante. Cada palavra me feria mais do que a queda.
"O que estás a dizer, Hugo?"
"Não te faças de desentendida. Encontrei-te neste estado. A Nicole contou-me tudo. Que te vendeste."
Nicole. Claro. Ela tinha planeado tudo. A armadilha, a humilhação e agora, a destruição do meu amor. Ela também me tinha ameaçado. Se eu contasse a verdade ao Hugo, ela far-se-ia de vítima e arranjaria maneira de o prejudicar na escola de samba, de acabar com o sonho dele. Eu não podia permitir isso.
Olhei para o rosto dele, o rosto que eu tanto amava, agora contorcido pela raiva. Senti-me suja, indigna do seu amor. A única forma de o proteger era afastá-lo.
Engoli o choro e a verdade. Forcei uma frieza que não sentia.
"Você não pode me dar a vida que eu quero."
Vi a dor nos olhos dele, a incredulidade a transformar-se em desprezo. O seu orgulho, tão grande quanto o seu talento, foi ferido. Ele não disse mais nada. Apenas se virou e saiu, deixando-me sozinha com a minha dor e o meu segredo.
Uma semana depois, a minha avó faleceu. Eu não tinha conseguido o dinheiro a tempo. Não tinha mais nada no Rio de Janeiro. Vendi o pouco que tinha e parti, deixando para trás a escola de samba, o fantasma da minha mãe e o coração partido de Hugo.
Cinco anos depois.
A vida tinha mudado. Eu era Lauren Dixon, uma produtora cultural e coreógrafa de renome em Salvador, Bahia. Tinha a minha própria companhia de dança, o meu nome era respeitado. O samba do Rio tinha ficado para trás, substituído pelo axé e pela força da cultura baiana.
Hugo Gordon também tinha mudado. Era agora um magnata da música, dono da maior gravadora do país, com sede em São Paulo. Um nome poderoso, intocável.
Um dia, o meu telefone tocou. Era um número de São Paulo. Uma voz profissional informou-me que o Sr. Gordon queria uma reunião comigo. Uma oportunidade profissional, pensei. Uma grande oportunidade. O meu coração acelerou, uma mistura de nervosismo e uma pontada de algo que eu pensava estar morto. Aceitei e viajei para São Paulo.
O hotel era luxuoso, o tipo de lugar que eu só via em revistas. Subi até à suite presidencial, como indicado. Bati à porta, ajeitando a minha roupa, preparando o meu discurso profissional.
A porta abriu-se. Era Hugo. Ele estava apenas de toalha, o cabelo molhado, o peito nu. O mesmo peito onde eu costumava repousar a cabeça. O olhar dele era gelado, cínico.
"Entra", disse ele, com um tom de sarcasmo. "Estava à tua espera."
Entrei, confusa. E então, vi-a. Nicole. Sentada na cama, vestindo apenas uma camisa de seda que eu sabia ser de Hugo. Ela sorriu, um sorriso vitorioso.
O meu mundo desabou.
"Então", começou Hugo, a voz a pingar desprezo, "a pequena passista do morro agora é uma grande produtora. Deves ter dormido com muitos homens importantes para chegar onde chegaste, não é?"
Cada palavra era um soco no estômago. Eu não conseguia respirar.
"Hugo, eu..."
"Nós vamos casar", ele interrompeu, apontando para Nicole. "E a reunião era só um pretexto. Queria convidar-te pessoalmente para o nosso casamento. Afinal, és da família."
O choque deu lugar a uma dor avassaladora. O homem que eu amava, o homem por quem eu sacrifiquei tudo, estava noivo da minha pior inimiga.
Nicole levantou-se, aproximando-se de mim.
"Lauren, não fiques assim. E a propósito, onde está o dinheiro que o meu pai te deu para o tratamento da avó? Ele foi tão generoso, e tu simplesmente desapareceste com o dinheiro. Que ingratidão."
Ela estava a distorcer tudo, a pintar-me como uma ladra, uma aproveitadora. Olhei para Hugo, procurando um pingo de dúvida nos olhos dele, um vestígio do rapaz que me amou. Não encontrei nada. Apenas gelo.
"Sai daqui", disse ele, a voz baixa e ameaçadora. "Não quero voltar a ver a tua cara."
Tentei defender-me, dizer que era tudo mentira, mas a minha voz não saía. Cego pelo ressentimento, ele agarrou-me pelo braço e empurrou-me para fora da suite, fechando a porta na minha cara.
Fiquei ali, no corredor luxuoso, completamente destruída. A minha carreira, o meu sucesso, nada importava. Naquele momento, eu era apenas a rapariga humilhada de cinco anos atrás, a chorar por um amor que nunca mais teria de volta.
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