
A Promessa Quebrada do Elevador Lacerda
Capítulo 2
O vento frio da noite em Salvador soprava forte, chicoteando o rosto de Liam Neame. Ele estava no topo do Elevador Lacerda, o ponto mais alto da cidade, olhando para as luzes que brilhavam lá em baixo, na Baía de Todos-os-Santos.
Seus olhos estavam vazios, sem vida.
Quatro anos. Quatro anos de um casamento que era como um inverno sem fim. Ele amava Raegan Hayes com cada fibra do seu ser, mas para ela, ele não era nada.
Um calafrio percorreu seu corpo, mas não era do vento. Era do desespero que o consumia por dentro. Ele fechou os olhos, e a imagem dela apareceu em sua mente, fria e desdenhosa.
Três dias atrás, no aniversário de Raegan.
Ele passou o dia todo na cozinha do seu pequeno restaurante, não para os clientes, mas para ela. Ele preparou os acarajés que ela tanto amava quando criança, uma receita que ele aprendeu com a avó dela, na esperança de ver um vislumbre de sorriso em seu rosto.
Quando ele chegou em casa com a comida ainda quente, ela estava no sofá, olhando para o celular, a expressão impassível.
"Feliz aniversário, meu amor."
Ele disse, a voz um pouco trêmula.
Raegan nem sequer olhou para ele.
"Coloque na mesa."
A voz dela era gelada, sem qualquer emoção.
Liam sentiu seu coração apertar, mas ele não desistiu. Ele colocou o prato na mesa de centro, o cheiro de dendê e camarão enchendo a sala.
"Eu fiz seus acarajés favoritos, do jeito que você gostava."
Ela finalmente levantou o olhar, mas seus olhos estavam cheios de desprezo.
"Liam, quantas vezes eu tenho que te dizer? Este casamento é um contrato. Um acordo. Eu nunca vou te amar. Você acha que um prato de acarajé pode mudar isso?"
As palavras dela foram diretas, cada uma o ferindo profundamente.
"Você é ridículo."
Ela acrescentou, e então voltou sua atenção para o celular, como se ele nem estivesse ali.
A esperança que Liam carregava se desfez completamente. Ele se sentiu um tolo, um palhaço. A humilhação queimava em seu peito. Ele ficou ali parado, segurando a bandeja vazia, enquanto o silêncio da sala o sufocava.
O golpe final veio no dia seguinte. Uma carta anônima chegou pelo correio. Dentro, havia uma foto. Raegan, mais jovem, sorrindo ao lado de um homem carismático com os tambores do Olodum ao fundo. Era Hugo, seu primeiro amor.
Junto com a foto, um bilhete.
"O rim que você doou não foi para a irmã dela. Foi para Cecília, a irmã do Hugo. Você foi apenas uma ferramenta para ela salvar a família do homem que ela realmente amava. Ela nunca se importou com você."
A verdade o atingiu com a força de um soco. Todo o seu sacrifício, a dor da cirurgia, a esperança de construir uma vida com ela... tudo foi baseado em uma mentira. Ele não era um marido, era um peão. Uma peça descartável no jogo trágico de amor de Raegan.
Ele doou um rim, uma parte de si mesmo, acreditando que estava salvando a irmã de Raegan, Cecília, e em troca, casou-se com a mulher que amava. Ele pensou que com o tempo, com dedicação, o amor dela poderia florescer.
Que tolo ele foi. A Cecília que ele salvou não era a irmã de Raegan. A verdadeira Cecília, irmã de Raegan, estava perfeitamente saudável. Ele foi enganado.
Agora, de pé no topo do Elevador Lacerda, o peso daquela mentira, daquela humilhação, era insuportável. O amor de sua vida o via como um aproveitador, e o sacrifício que ele fez foi para um estranho, tudo para satisfazer a culpa ou o amor de Raegan por outro homem.
Não havia mais nada. A esperança estava morta.
Liam deu um passo à frente, para a beirada. Ele olhou para a cidade uma última vez. Salvador, a cidade que ele amava, a cidade que testemunhou seu amor não correspondido.
Ele se jogou.
O som de seu corpo se chocando contra o chão foi abafado pelo barulho da cidade, um final abrupto e brutal para uma vida cheia de um amor que nunca foi seu. O sangue se espalhou pelo concreto, a nota final e silenciosa de sua dor.
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