
A Promessa Quebrada de Pedro
Capítulo 3
O som dos aplausos e dos gritos de "Beija! Beija!" era ensurdecedor. Cada grito era uma onda de choque que me atingia em cheio, me paralisando no lugar. Eu via Pedro e Gabi, o casal perfeito sob os holofotes improvisados da festa de rua, e o ar simplesmente não entrava nos meus pulmões.
Minha mente estava em branco. Não havia pensamentos, apenas uma dor surda e oca no centro do meu peito.
Então, a dor se tornou aguda.
Eu me virei, sem fazer barulho, e corri. Corri para dentro de casa, passando pela minha mãe que me olhava com preocupação na porta da cozinha. Eu não consegui dizer uma palavra. Subi as escadas correndo, entrei no meu quarto e bati a porta, girando a tranca.
O som do clique da fechadura foi o som mais alto do mundo.
Eu me joguei na cama, enterrando o rosto no travesseiro para abafar o som do meu próprio soluço, um som que parecia vir de outra pessoa.
Eu não queria acreditar. Não podia ser real.
"Mari? Filha, o que aconteceu?" A voz da minha mãe do outro lado da porta era suave, cheia de preocupação.
Eu não respondi. Como eu poderia explicar? Como eu poderia dizer a ela que a história de amor que ela tanto admirou por trinta anos era uma mentira? Que o genro perfeito dela tinha acabado de me apunhalar pelas costas, em outra vida?
Eu fiquei ali, deitada no escuro, enquanto as vozes da festa lá fora continuavam. E na escuridão, as peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar, formando uma imagem horrível.
Gabi Santos.
O nome ecoava na minha cabeça. E com ele, vieram as memórias. Pedaços de conversas da nossa vida passada que eu tinha ignorado.
"A família Santos inaugurou outra fábrica," Pedro comentava, lendo o jornal. "Eles sabem como ganhar dinheiro."
"Você viu a filha dos Santos na revista? Ela vai ser bonita quando crescer," ele disse uma vez, casualmente.
Na época, pareciam comentários inofensivos. Agora, eles soavam como obsessões.
Todos os momentos importantes da nossa vida passada... de repente, eu os via sob uma nova luz. O dia em que nos casamos. A família Santos tinha sido convidada, um convite de negócios do meu pai. Pedro ficou estranhamente nervoso naquele dia. Eu pensei que era por minha causa. Agora eu sabia que não era.
O dia em que compramos nossa primeira casa. Era em um bairro que ficava coincidentemente perto da antiga mansão da família Santos. Eu achei que era uma boa oportunidade. Agora eu via o brilho nos olhos dele quando fechamos o negócio.
Seu esforço nesta vida... a faculdade de TI, a busca incessante por sucesso e dinheiro... não era para nós. Era para ela.
Ele não renasceu para me encontrar. Ele renasceu para consertar o que ele considerava o erro da sua vida anterior: não ter tido a chance de ficar com ela.
A percepção me atingiu como um soco no estômago, tirando todo o ar que me restava. O choro se transformou em um gemido de pura agonia. Aquele amor que eu achava tão puro, tão eterno, não passava de um prêmio de consolação. Eu era o prêmio de consolação dele.
Eu chorei até não ter mais lágrimas, até meus olhos arderem e minha garganta ficar seca. Chorei pela garota tola que eu fui por trinta anos e pela garota ainda mais tola que eu fui por dezoito anos nesta vida.
Quando a exaustão finalmente chegou, eu ouvi o silêncio do lado de fora da porta do meu quarto. Minha mãe ainda estava lá. Eu podia sentir sua presença. Ela não tinha ido embora. Ela estava montando guarda, sofrendo em silêncio comigo.
O amor dela... esse era real. Incondicional.
Por ela, eu me levantei. Lavei o rosto na pequena pia do meu banheiro, olhando para a garota inchada e de olhos vermelhos no espelho. Eu tinha que continuar.
Nos dias seguintes, a fofoca sobre o novo casal da cidade era o único assunto na vizinhança e no meu trabalho de meio período na lanchonete.
"Você viu o presente que o Pedro deu pra Gabi? Um colar de diamantes!" disse uma colega, mostrando a foto no celular.
"Ele levou ela pra jantar naquele restaurante chique do centro. A conta deve ter sido uma fortuna!" disse outra.
Eu ouvia tudo em silêncio, limpando as mesas. Cada palavra era mais uma prova. Na nossa vida passada, Pedro era incrivelmente pão-duro. Ele reclamava de cada centavo. No nosso aniversário de dez anos, ele me deu um liquidificador. Ele dizia que era prático.
Ele não era romântico. Era o que eu sempre dizia a mim mesma.
Era o que ele sempre me dizia.
Mas ouvindo sobre seus gestos grandiosos para Gabi, uma verdade fria e dura se instalou no meu coração.
Pedro não era ruim em romance. Ele apenas não queria ser romântico comigo. Ele não era pão-duro. Ele apenas não queria gastar seu dinheiro comigo.
Toda a sua gentileza, todo o seu "amor prático" , era apenas o mínimo que ele podia fazer para manter a fachada do casamento perfeito que o beneficiava socialmente.
A última faísca de esperança que teimava em existir dentro de mim se apagou.
Com o tempo, como todas as fofocas, o assunto foi morrendo. As pessoas encontraram novos tópicos para discutir. O nome de Pedro e Gabi parou de ser mencionado a cada cinco minutos.
E no silêncio que se seguiu, eu comecei a me concentrar. Não nele. Não neles.
Em mim. Em uma vida que agora era uma tela em branco, assustadora, mas minha.
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