
A Promessa do Desenho: O Amor Oculto de William
Capítulo 3
Nancy acordou com o som de murmúrios e o cheiro familiar de relva acabada de cortar. A luz do sol entrava forte por uma janela, demasiado forte. Ela piscou, confusa. Não estava no seu quarto escuro. Estava deitada num banco de jardim, no meio do campus da Universidade de Lisboa.
"Ela desmaiou. Achas que devíamos chamar uma ambulância?" disse uma voz desconhecida.
"Deixa-a estar. É a Nancy Dixon. Provavelmente está a fazer mais um dos seus dramas para chamar a atenção do William."
Nancy sentou-se de repente. O seu corpo sentia-se jovem, cheio de energia. Olhou para as suas mãos. Lisas, sem a aliança de casamento. Olhou para as suas roupas. Um vestido de verão florido que não usava há anos.
O seu coração começou a bater depressa. Ela olhou em volta, reconhecendo o local. Era o jardim em frente à faculdade de Engenharia Civil. E então, ela viu-o.
William Gordon estava ali, a poucos metros de distância, encostado a uma árvore. Parecia exatamente como ela se lembrava da universidade: alto, com uma camisa branca impecavelmente passada, calças escuras e uma expressão de fria indiferença. Ele olhava para o seu relógio de pulso, um modelo clássico que ela lhe tinha oferecido no primeiro ano e que ele usava sempre.
Uma onda de dor e raiva percorreu-a. A imagem dele, frio e distante, misturava-se com a memória do "Ok." que tinha destruído o seu mundo.
De repente, a memória atingiu-a com a força de um soco. Ela sabia exatamente que dia era este. Era o dia da sua grande confissão pública. Na sua vida passada, ela tinha reunido toda a sua coragem, interrompido uma conversa dele com os amigos e declarado o seu amor em frente de dezenas de estudantes. A resposta dele tinha sido um olhar vazio e um virar de costas que a humilhou profundamente.
Ela tinha renascido. Tinha voltado ao início do seu pesadelo.
Mas desta vez, seria diferente.
Ela levantou-se, limpou o vestido e caminhou na direção dele. A multidão de estudantes que se tinha juntado, esperando o espetáculo do costume, ficou em silêncio. Fiona, a sua fiel amiga, correu para o seu lado, sussurrando "Nancy, não faças isto de novo."
Nancy ignorou-a. Os seus olhos estavam fixos em William, que finalmente levantou o olhar do relógio, uma sobrancelha arqueada em antecipação irritada. Todos esperavam a declaração de amor.
Nancy parou em frente a ele, respirou fundo, levantou um dedo e apontou para a cintura dele. Com uma voz clara e alta, para que todos ouvissem, ela disse:
"Desculpa, colega, a etiqueta da tua calça está para fora."
Um silêncio chocado caiu sobre o jardim, seguido por uma onda de risinhos abafados. A expressão de William passou de arrogância fria para pura estupefação. O rosto dele, normalmente pálido, ganhou uma tonalidade avermelhada. Os amigos dele, Leonel e Jacob, olhavam de boca aberta.
Nancy deu-lhe um sorriso trocista, virou-se e começou a afastar-se. Na sua mão, ela ainda segurava um pequeno cartão que tinha preparado para lhe dar com a confissão. Sem hesitar, ela amassou-o e atirou-o para o caixote do lixo mais próximo com um gesto definitivo.
"Nancy Dixon! O que é que pensas que estás a fazer?" A voz de William soou atrás dela, dura e irritada.
Ela parou, mas não se virou. "A fazer o quê? A poupar-nos a ambos de um momento embaraçoso. De nada."
E com isso, ela continuou a andar, deixando para trás um William Gordon completamente atordoado e, pela primeira vez na vida dela, furioso com a sua indiferença.
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