
A Prisioneira do Ódio
Capítulo 3
Sofia manteve a cabeça erguida durante o resto da cerimônia, uma máscara de calma impassível cobrindo a tempestade que se formava dentro dela. Cada olhar de pena, cada sussurro chocado, era uma facada, mas ela se recusava a dar a Lucas a satisfação de vê-la desmoronar. Ela sentia o peso do anel em seu dedo, frio e estranho, um símbolo não de união, mas de posse. A dor aguda que vinha de seu abdômen era um lembrete constante de seu segredo, de sua sentença de morte, e de alguma forma, isso lhe dava uma estranha força. Se ela já estava morrendo, o que mais Lucas poderia tirar dela?
Na recepção forçada que se seguiu, sua família a evitou. Quando finalmente conseguiu encurralar seu pai perto do bar, ele a recebeu com acusação em vez de conforto.
"Como você pôde deixar isso acontecer?" , Sr. Mendes sibilou, o rosto pálido de raiva e vergonha. "Ele nos humilhou na frente de todos! Você deveria ter dito alguma coisa, deveria ter controlado a situação!"
"O que você queria que eu fizesse, pai?" , Sofia respondeu, a voz baixa e cansada. "Isso foi o que você comprou. A humilhação era parte do preço."
Sua madrasta, Sra. Costa, aproximou-se, abanando-se com um leque. "Francamente, Sofia, você poderia ter sido um pouco mais charmosa. Talvez se você tentasse agradá-lo, ele não seria tão... hostil."
A hipocrisia deles era sufocante. Eles a jogaram aos lobos e agora a culpavam por ser mordida. Sofia sentiu uma onda de náusea, e não era apenas pela ansiedade. Ela discretamente pressionou a mão contra o estômago, tentando controlar a dor que se intensificava. Ela precisava tomar seu remédio, mas sua bolsa estava trancada no quarto que eles haviam designado para ela.
Ela se afastou deles, buscando um canto tranquilo. Enquanto se apoiava em uma coluna, uma lembrança a atingiu com força. Uma lembrança de um tempo muito diferente, antes da tragédia que envenenou tudo. Ela e Lucas, adolescentes, rindo em um piquenique de verão. Ele tinha um sorriso fácil na época, olhos que brilhavam com travessura, não com ódio. Eles eram amigos, talvez até o começo de algo mais. Ele a chamava de "Sofi-luz" porque dizia que ela iluminava qualquer lugar onde estivesse.
A lembrança era tão vívida que doía. O que aconteceu com aquele garoto? O acidente que matou a mãe dele, Helena, e a mãe de Sofia, Clara, que dirigia o carro, mudou tudo. As investigações concluíram que foi um acidente causado por falha mecânica, mas a família Ferreira nunca aceitou. Eles teceram uma narrativa de que Clara, supostamente infeliz no casamento, jogou o carro do penhasco de propósito, levando Helena com ela. Lucas, que idolatrava a mãe, abraçou essa versão com toda a força de seu luto e raiva. O garoto que a chamava de "Sofi-luz" morreu naquele dia, e em seu lugar nasceu o homem que a via apenas como a filha de uma assassina.
Sofia engoliu em seco, aceitando a ironia cruel do destino. Talvez aquele casamento fosse uma forma de penitência. Não pelo crime que sua mãe não cometeu, mas por ela não ter lutado mais por aquele garoto, por não ter conseguido alcançar Lucas através de sua dor. Ela o deixou afundar no ódio, e agora, ela estava se afogando com ele.
A festa finalmente terminou. Um motorista silencioso a levou para a mansão de Lucas, um lugar ainda maior e mais frio que a casa de seus pais. A propriedade era vasta e impecavelmente cuidada, mas parecia vazia de vida. Um mordomo a cumprimentou na porta com uma formalidade gélida.
"Sra. Ferreira. O Sr. Lucas instruiu que eu a levasse aos seus aposentos."
A palavra "aposentos" era um eufemismo. Ele a guiou por corredores luxuosos, passando por portas de quartos grandiosos, até uma escada de serviço nos fundos da casa. Eles desceram para uma área que claramente pertencia aos empregados. Ele parou em frente a uma pequena porta de madeira lascada.
"Este é o seu quarto" , disse ele, sem emoção.
Sofia abriu a porta e seu coração afundou. O quarto era minúsculo, pouco mais que um armário, com uma cama de solteiro estreita, uma cômoda velha e uma pequena janela gradeada que dava para uma parede de tijolos. Era um quarto de serva, um lugar projetado para ser esquecido. A humilhação do altar foi apenas o começo, esta era a realidade diária que a esperava.
Ela entrou, e o mordomo fechou a porta atrás dela, o som do clique da fechadura ecoando como a porta de uma cela de prisão. Sozinha no quarto frio e úmido, o estresse do dia finalmente cobrou seu preço. Uma dor lancinante atravessou seu corpo, fazendo-a dobrar-se. Ela cambaleou até a cama, ofegante, o suor frio brotando em sua testa. A doença estava se manifestando, lembrando-a de que seu tempo era curto e que ela passaria o resto dele neste lugar, sofrendo nas mãos do homem que um dia a chamou de luz.
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