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Capa do romance A Perna Que Me Salvou

A Perna Que Me Salvou

Após um sismo devastador, acordo no hospital com a perna esquerda amputada. Ao procurar apoio, encontro apenas o desprezo do meu noivo, Pedro, que está focado em resgatar a minha prima e o seu gato. Ele acusa-me de egoísmo, ignorando a minha perda irreversível, enquanto o meu tio minimiza a tragédia como um mero arranhão. Diante da traição e da frieza de quem deveria amar-me, decido transformar a dor em força para provar que sou uma sobrevivente.
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Capítulo 3

Um arranhão.

O meu tio, o irmão da minha falecida mãe, chamou à minha perna amputada um "arranhão".

O meu pai levantou-se de um salto, o seu rosto normalmente calmo ficou vermelho de raiva.

"João, o que é que acabaste de dizer? Um arranhão? A Ana perdeu a perna! A perna dela!"

A sua voz ecoou no pequeno quarto de hospital.

"E daí?", gritou o meu tio do outro lado. "Pelo menos está viva! A Sofia podia ter morrido! O Pedro fez a escolha certa, a família ajuda-se. A Ana está a ser egoísta e a tentar destruir o noivado por capricho."

"Ela não tem consideração nenhuma!"

O meu pai estava a tremer de fúria. "Tu és inacreditável. A minha filha está numa cama de hospital sem uma perna, e tu chamas-lhe egoísta? Desliga. Não quero mais falar contigo."

Ele desligou o telefone com força. O silêncio que se seguiu foi pesado, cheio de dor e incredulidade.

O meu pai virou-se para mim, os seus olhos cheios de uma dor que espelhava a minha.

"Ana, minha filha... desculpa. Eu falhei em proteger-te deles."

Eu abanei a cabeça, incapaz de falar. As lágrimas que eu tinha segurado finalmente rolaram pelo meu rosto. Não eram lágrimas de auto-piedade, mas de raiva e de uma clareza dolorosa.

A família que eu pensava ter, as pessoas que eu achava que me amavam, tinham-me mostrado as suas verdadeiras cores.

Naquela noite, não consegui dormir. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto zangado do Pedro, ouvia a voz desdenhosa do meu tio.

No dia seguinte, a porta do meu quarto abriu-se.

Era a Sofia. O seu braço estava numa tipóia, mas ela usava um vestido caro e maquilhagem impecável. Ao lado dela, estava o Pedro, com um ar cansado mas protetor.

"Ana, prima," disse a Sofia com uma voz doce e chorosa. "Ouvi dizer o que aconteceu. Sinto muito. Mas não podes culpar o Pedro. Eu precisava dele."

Ela olhou para o Pedro com adoração. "Ele foi o meu herói."

Pedro olhou para mim, a sua expressão era uma mistura de culpa e aborrecimento.

"Ana, vamos ser razoáveis. Foi uma situação de emergência. Eu tive de fazer uma escolha."

"Uma escolha," repeti eu, a minha voz era um sussurro gelado. "E tu escolheste."

Ele suspirou, impaciente. "Não vamos dramatizar. O que está feito, está feito. Agora temos de seguir em frente. O nosso casamento ainda está de pé, certo?"

Olhei para ele, depois para a Sofia, que se agarrava ao seu braço. A imagem deles os dois juntos era tão clara, tão óbvia.

"Não," disse eu, a minha voz a ganhar força. "Não há casamento. Acabou, Pedro."

O rosto do Pedro endureceu. "Não sejas ridícula. Estás a reagir de forma exagerada por causa da tua... condição. Vais arrepender-te disto."

"A única coisa de que me arrependo," disse eu, olhando diretamente nos olhos dele, "é de não ter visto quem tu realmente és mais cedo."

"Peguem nas vossas coisas e saiam do meu quarto. Agora."

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