
A Perna Que Me Salvou
Capítulo 3
Um arranhão.
O meu tio, o irmão da minha falecida mãe, chamou à minha perna amputada um "arranhão".
O meu pai levantou-se de um salto, o seu rosto normalmente calmo ficou vermelho de raiva.
"João, o que é que acabaste de dizer? Um arranhão? A Ana perdeu a perna! A perna dela!"
A sua voz ecoou no pequeno quarto de hospital.
"E daí?", gritou o meu tio do outro lado. "Pelo menos está viva! A Sofia podia ter morrido! O Pedro fez a escolha certa, a família ajuda-se. A Ana está a ser egoísta e a tentar destruir o noivado por capricho."
"Ela não tem consideração nenhuma!"
O meu pai estava a tremer de fúria. "Tu és inacreditável. A minha filha está numa cama de hospital sem uma perna, e tu chamas-lhe egoísta? Desliga. Não quero mais falar contigo."
Ele desligou o telefone com força. O silêncio que se seguiu foi pesado, cheio de dor e incredulidade.
O meu pai virou-se para mim, os seus olhos cheios de uma dor que espelhava a minha.
"Ana, minha filha... desculpa. Eu falhei em proteger-te deles."
Eu abanei a cabeça, incapaz de falar. As lágrimas que eu tinha segurado finalmente rolaram pelo meu rosto. Não eram lágrimas de auto-piedade, mas de raiva e de uma clareza dolorosa.
A família que eu pensava ter, as pessoas que eu achava que me amavam, tinham-me mostrado as suas verdadeiras cores.
Naquela noite, não consegui dormir. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto zangado do Pedro, ouvia a voz desdenhosa do meu tio.
No dia seguinte, a porta do meu quarto abriu-se.
Era a Sofia. O seu braço estava numa tipóia, mas ela usava um vestido caro e maquilhagem impecável. Ao lado dela, estava o Pedro, com um ar cansado mas protetor.
"Ana, prima," disse a Sofia com uma voz doce e chorosa. "Ouvi dizer o que aconteceu. Sinto muito. Mas não podes culpar o Pedro. Eu precisava dele."
Ela olhou para o Pedro com adoração. "Ele foi o meu herói."
Pedro olhou para mim, a sua expressão era uma mistura de culpa e aborrecimento.
"Ana, vamos ser razoáveis. Foi uma situação de emergência. Eu tive de fazer uma escolha."
"Uma escolha," repeti eu, a minha voz era um sussurro gelado. "E tu escolheste."
Ele suspirou, impaciente. "Não vamos dramatizar. O que está feito, está feito. Agora temos de seguir em frente. O nosso casamento ainda está de pé, certo?"
Olhei para ele, depois para a Sofia, que se agarrava ao seu braço. A imagem deles os dois juntos era tão clara, tão óbvia.
"Não," disse eu, a minha voz a ganhar força. "Não há casamento. Acabou, Pedro."
O rosto do Pedro endureceu. "Não sejas ridícula. Estás a reagir de forma exagerada por causa da tua... condição. Vais arrepender-te disto."
"A única coisa de que me arrependo," disse eu, olhando diretamente nos olhos dele, "é de não ter visto quem tu realmente és mais cedo."
"Peguem nas vossas coisas e saiam do meu quarto. Agora."
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