
A perdição da CEO
Capítulo 3
JOSÉ
Observo a mulher muito bem-vestida largar o buquê no lixo e sair sem olhar para trás. Nem sequer pude ver seu rosto, já que estou saindo da cozinha somente agora.
Consegui um trabalho extra hoje de ajudante da cozinha com o meu amigo que trabalha de garçom em festas de pessoas ricas.
Carlos tem carta branca no buffet já que é amante da dona do buffet, a senhora Catherine.
Uma mulher muito bonita, por volta de seus cinquenta anos, loira e de olhos claros.
Sei que ela e Carlos estão envolvidos há algum tempo e o marido dela não pode nem desconfiar disso.
Sigo até o lixo e pego o lindo arranjo de flores delicadas e coloridas. Observo mais atentamente e decido guardar.
Essas flores não merecem ficar no lixo.
Por que alguém jogaria algo assim, já que se esforçou para pegar?
Até porque sei que a hora do buquê é quando as mulheres lutam por esse objeto tão precioso para elas, menos para essa mulher, pelo jeito.
Levo as flores até onde estão as minhas coisas e depois de guardar com cuidado, volto para a cozinha onde já tem uma pilha de copos e taças sujas para serem levados.
Isso nunca acaba.
— José, precisamos de mais taças, poderia agilizar aí? — Carlos, o responsável pela cozinha diz, me tirando dos meus pensamentos.
— É para já, chefia. — Começo a lavaras taças e colocar na secadora.
Logo temos taças limpas e esterilizadas para serem levadas ao salão e voltarem sujas.
É um ciclo sem fim...
Após longas horas em pé e de muita louça ser lavada, somos chamados no salão.
Seco as mãos no pano e acompanho meus companheiros de trabalho.
Ja no salão, observo o local muito bem decorado, já que não tive como fazer isso antes, enquanto aguardamos a dona do buffet dizer o motivo de termos sido chamados, algo anormal.
— Bom, não é algo costumeiro, mas a noiva fez questão disso — Catherine, a dona do buffet diz e dá um passo para trás.
Uma jovem radiante surge em um vestido branco e muito elegante.
Olha que não entendo muito de moda, mas acredito que o vestido que ela está usando custou mais do que pelo menos três casas minhas.
A moça de olhos puxados e cabelo loiro, sorri enquanto nos observa. Logo ela inclina o tronco para a frente e fico sem entender o que está acontecendo.
— Obrigada, a todos por tornar meu sonho em realidade — diz enquanto continua inclinada.
Ao vê-la daquele modo, decido perguntar a Carlos que está próximo.
— Por que ela está inclinada?
— Ela vem de uma família coreana e é assim que eles agradecem em seu país de origem — ele sussurra ao meu lado.
— Ah, legal isso — me limito a dizer.
— Bom, sobrou muita coisa e gostaria que vocês comessem, levasse para casa, afinal não se pode desperdiçar — a noiva diz e vejo a dona do buffet fazer careta.
Acredito que ela não concorda com isso, mas nesse caso o cliente tem sempre razão e vou amar levar uns docinhos para minha mãe e Mary.
A moça se vai ao ser chamada por um jovem que acredito ser seu marido e ficamos com Catherine que nos observa com o semblante sério.
— Bom, escutaram a noiva, comam o que quiserem e depois arrumem tudo. Agradeço o serviço de hoje, estão todos de parabéns. O pagamento dos temporários será entregue na saída — ela diz e sai sendo seguida por duas moças que usam o mesmo tipo de roupa que ela.
— Podemos mesmo comer? A dona Catherine não parecia muito feliz com isso — pergunto ao meu amigo que sorri.
— Aqui quem manda é quem paga e você ouviu a noiva, então vamos nos esbaldar — Carlos responde e sorrio.
Vou até à cozinha, pego um saquinho limpo que encontro e começo a colocar os diversos tipos de docinho que encontro. Alguns são tão diferentes que nem sei dizer do que são, mas são bonitos e parecem ser deliciosos.
Sei que terei que esconder para mamãe não exagerar já que finalmente conseguimos controlar a "tia Bete".
Após terminar de ajudar na limpeza e pegar meu saquinho de docinho e bolo, sigo para pegar as minhas coisas. Olho para o buquê tão delicado ao lado da minha mochila.
“Ainda bem que vim de mochila”, penso ao ver as sacolas cheias em minhas mãos.
Guardo tudo, pego o buquê e encontro Catherine na saída, distribuindo o pagamento aos temporários. Ela olha o buquê em minhas mãos, ergue a sobrancelha, mas não diz nada e não espero por isso. Seguro o envelope e sem conferir a quantia saio em direção ao ponto de ônibus.
Vai que ela queira descontar algo.
Assim que chego no ponto, o ônibus chega e sigo rumo a minha casa após o dia exaustivo de trabalho, afinal saí de casa às oito da manhã e agora já passa das onze da noite, em plena quarta-feira.
Pois é, os ricos se casam em dias improváveis, ou como já ouvi falar é chique se casar em dia da semana.
Uma hora e meia depois e dois ônibus chego em casa.
A rua está deserta devido o horário, mas sigo despreocupado pelas ruas, afinal a vizinhança aqui é bem tranquila.
Dez minutos depois estou abrindo a porta de casa que está silenciosa e na penumbra.
Guardo os doces e bolo que trouxe na geladeira, atrás de uns potes para não deixar à mostra e coloco o buquê em uma jarra com água em cima da mesa. Logo em seguida, vou para o banheiro, tomo um banho relaxante e o jeito agora é descansar um pouco.
Amanhã cedo tenho que levar os cachorros do senhor Evans para passear.
Não está sendo fácil ultimamente para se colocar comida na mesa, afinal o mercadinho que trabalhava fechou e estou atrás de um emprego fixo. Mas com minha pouca escolaridade não está nada fácil.
Então enquanto não arranjo nada, topo tudo que aparece.
Pego o envelope com dinheiro na mochila, conto as cédulas e com esse valor conseguirei pagar a conta de luz que está atrasada antes que cortem.
Fecho os olhos e a imagem daquela mulher jogando o buquê fora vem a minha mente.
O que será que aconteceu para ela fazer aquilo?
Entre suposições e nenhuma resposta concreta, acabo adormecendo.
***
— Filho, boa tarde, que flores são essas? — minha mãe pergunta olhando para as flores na jarra.
A doença da mamãe deu uma estacionada e graças a Deus, ela ainda tem uma boa locomoção ainda que com a ajuda da cadeia de rodas.
Minha mãe tem muita vontade de viver e fé e acho que isso que faz a diferença.
— Ah, mãe, uma moça jogou esse buquê no lixo e fiquei com dó. Então peguei e trouxe para casa.
— Você pegou o buquê da noiva? Eita, vai ser o próximo — Mary diz se aproximando e rindo.
— Tô fora, Mary. Não vou me casar tão cedo, isso sim.
— Deixa a Sheryl saber disso — Mary alfineta.
Sheryl insistiu tanto que meio que estamos namorando há três anos. Meio porque nunca formalizei nada, mas saímos juntos sempre e somos exclusivos, então somos namorados querendo ou não.
Mas digo que não sou apaixonado por ela, até gosto dela e da sua companhia. Acho que é cômodo estar com Sheryl, já que ela não me cobra nada e me aceita como sou.
— Estão falando de mim? — Sheryl diz entrando em casa. — Oi, meu amor, vi que chegou e vim te ver um pouquinho. — Dá um beijo em meus lábios.
— E já estou de saída, só vim tomar um copo de água. Preciso buscar os cachorros dos Evans no pet shop, eles foram tomar banho — digo pegando um docinho que está em cima da mesa.
Dou uma mordida e logo cuspo.
Eca, que horrível!
— Isso é doce? — pergunto olhando para o doce em minha mão que visualmente é lindo.
— Isso é doce fino — Sheryl diz pegando da minha mão e mordendo. — O recheio dele é de Tâmara.
— E você conhece isso desde quando? — pergunto admirado.
— Já comi um lá na loja uma vez quando uma cliente levou.
Sheryl trabalha em uma loja de roupa de grife no shopping e conhece algumas madames que dão boas gorjetas e alguns mimos para as vendedoras.
— Ninguém conhece o bom e inigualável brigadeiro? — pergunto indignado.
— Meu bem, brigadeiro aqui não é tão conhecido assim. Você só conhece porque ensinei a Mary a fazer — minha mãe diz.
Minha mãe é brasileira, ela veio de forma ilegal para o Canadá, mas ao se casar ganhou o direito a viver aqui como uma cidadã.
Meu nome inclusive é José porque ela é devota de São José, o pai de Jesus, o santo da família e do trabalho.
Será que é por isso que trabalho tanto?
Minha mãe antes de ficar debilitada era cozinheira em um restaurante brasileiro aqui perto. Com ela, aprendi a gostar de algumas iguarias desse país que tanto ouço falar, mas não conheço, principalmente o maravilhoso brigadeiro que sou viciado.
— Mas vocês ainda não responderam... O que estavam falando de mim? — Sheryl volta a perguntar.
— José pegou o buquê da noiva — Mary diz rindo.
— Que estava no lixo, deixando bem claro. — Rapidamente completo.
— Ah, vai ser o próximo a se casar! — Sheryl diz animada.
— Bom vou nessa, para mim, já deu esse assunto. De lá vou direto para o supletivo. Tchau para quem fica — digo já saindo antes que esse assunto de casamento se prolongue.
Sigo para o pet shop, pego os cães e vou para a casa dos Evan que não fica longe.
Espero conseguir pegar o senhor Evans em casa, afinal hoje é dia de pagamento.
Corro contra o tempo, sabendo que logo ele sairá de casa.
Dez minutos depois chego colocando os bofes para fora por ter corrido com os dois Golden Retrevier no meu encalço.
Toco a campainha e nada...
Toco de novo e a senhora Evans aparece bocejando.
— Já chegaram? Que rápido. — Ela olha desconfiada para dentro de casa enquanto observo a sua atitude.
Só falta levar um calote bem agora, ainda mais que estou contando com essa quantia.
— Sim, aqui estão os dois, limpos e cheirosos. O senhor Evans deixou o meu pagamento? — Sou direto.
— Peraí que vou ver, pois, ele saiu que nem vi — diz pegando os cachorros.
— Ficarei a espera já que ele nem saiu ainda — digo apontando para o carro na garagem.
Ela tosse para disfarçar já que ficou sem graça ao ser pega na mentira.
— Ah, é? Nem vi, só um momento.
Depois de longos quinze minutos que conto no relógio, ela volta com um envelope e me entrega.
— Está aqui.
Pego e conto na frente dela, até porque é melhor garantir.
— Obrigado, amanhã cedo voltarei para pegá-los.
Ela agradece e sigo para a escola, pois já estou atrasado.
Os Evan são gente boa, mas enrolam para pagar e tenho que ficar em cima senão eles acham que passeio com os cães porque gosto.
Já na escola, me sento na frente e o professor começa a passar umas equações que não sei se um dia usarei, mas que preciso saber.
Aff, por que tudo é tão difícil?
***
Me despeço dos meus colegas e meu telefone toca. Vejo que é Carlos e atendo.
— Cara, tudo bem? Apareceu uma vaga fixa para ser garçom no buffet, te interessa?
— Claro, Carlos, me interessa e muito.
— Perfeito, vou falar com a Catherine e depois voltamos a nos falar.
— Valeu, cara, te devo essa.
Bom, pelo menos parece que agora terei um emprego fixo e poderei ficar um pouco despreocupado em como pagar as contas de casa.
Você pode gostar





