
A Noz Que Matou Meu Mundo
Capítulo 2
Quando o médico me disse que o meu filho, Leo, tinha morrido, o mundo pareceu parar. O barulho do hospital desapareceu, e tudo o que eu conseguia ouvir era um zumbido nos meus ouvidos.
"A causa da morte foi asfixia por um objeto estranho. Um pedaço de noz ficou preso na sua traqueia."
As palavras do médico eram claras, mas a minha mente recusava-se a entendê-las.
Nós estávamos a comemorar o terceiro aniversário do Leo. A minha sogra, Helena, insistiu em fazer um bolo de nozes, a sua especialidade.
Eu disse-lhe que não.
"Helena, por favor, o Leo é alérgico a nozes. O médico disse que é grave."
Ela riu-se e afastou a minha preocupação com um aceno de mão.
"Que disparate, Sofia. Alergias são invenções de gente fresca. Na minha altura, comíamos de tudo e ficávamos fortes. O meu Pedro comeu este bolo a vida toda e olha para ele, um homem forte e saudável."
O meu marido, Pedro, ficou ao lado dela, sorrindo.
"Amor, a mãe sabe o que faz. Além disso, é só um bocadinho. Não lhe vai fazer mal."
Eu confiei nele. Confiei no meu marido.
Mas agora, o meu filho estava morto.
E a minha sogra estava a chorar no corredor, não por tristeza, mas por raiva.
"A culpa é dela! Ela nunca cuidou bem do meu neto! Sempre a inventar doenças, a dar-lhe porcarias para comer! Se ela fosse uma boa mãe, o meu Leo ainda estaria aqui!"
A voz dela era estridente, cortando o silêncio do hospital.
Pedro correu para a consolar, abraçando-a com força.
"Mãe, acalme-se. Não é sua culpa. A Sofia..."
Ele parou, olhando para mim com uma expressão que eu nunca tinha visto antes. Era uma mistura de dor e acusação.
Ele não me defendeu. Nem uma única vez.
Nesse momento, eu soube que o meu casamento, tal como o meu filho, estava morto.
Sentei-me no chão frio do corredor, o meu corpo vazio de lágrimas e de força. O mundo deles continuava, com os seus dramas e as suas culpas, mas o meu tinha acabado.
O meu telemóvel tocou. Era Pedro. Recusei a chamada.
Ele ligou outra vez. E outra.
Finalmente, atendi, a minha voz era um sussurro rouco.
"O que queres?"
"Sofia, onde estás? A mãe está a passar muito mal. Ela desmaiou. Precisamos de ir para casa. Tens de a ajudar."
Ajudá-la? A mulher que matou o meu filho?
Uma gargalhada amarga escapou dos meus lábios.
"Pedro, vamos divorciar-nos."
Houve um silêncio do outro lado. Depois, a sua voz explodiu, cheia de fúria.
"Divorciar-te? Agora? O nosso filho acabou de morrer e é nisto que pensas? És inacreditável! A minha mãe está a sofrer, e tu só pensas em ti mesma! Que tipo de mulher és tu?"
A mãe dele estava a sofrer. E eu? O que era eu? Uma estátua de pedra?
"Ela precisa de nós, Sofia! Para de ser egoísta!"
Desliguei o telefone. Bloqueei o número dele.
Olhei para as minhas mãos vazias. Há poucas horas, elas seguravam a mãozinha do meu filho. Agora, não seguravam nada.
O Leo era tudo o que me prendia a esta família. A única razão pela qual eu suportava os insultos da Helena e a indiferença do Pedro.
Agora ele tinha-se ido.
Não havia mais nada para me segurar.
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