
A Noiva Traída: Renascimento
Capítulo 3
Respirei fundo, endireitei as costas e saí do meu quarto. Cada passo que eu dava em direção ao salão era firme, deliberado. O som dos meus sapatos no chão de mármore fez com que as risadas cessassem. Todos os olhos se voltaram para mim.
Parei a poucos metros de Rafaela, meu olhar fixo nela, ignorando completamente as empregadas que agora me encaravam com uma mistura de surpresa e desdém.
"Tire esse vestido", eu disse. Minha voz saiu calma, mas carregada de uma autoridade que nem eu sabia que possuía. "Ele é meu."
O sorriso de Rafaela vacilou por um instante. Ela rapidamente recompôs sua máscara de inocência, seus olhos se enchendo de lágrimas falsas.
"Tônia, prima...", ela começou, a voz trêmula. "O que você está dizendo? Eu só estava... eu só queria ver como ficava. Para ter certeza de que estava perfeito para você amanhã."
Ela deu um passo em minha direção, como se fosse me abraçar.
"Não chegue perto de mim", eu a cortei, fria como o gelo. "Eu disse para tirar o meu vestido. Agora."
O rosto de Rafaela se contorceu em uma expressão de mágoa.
"Prima, por que você está sendo tão cruel? Eu nunca faria nada para te magoar."
As empregadas começaram a cochichar entre si, lançando-me olhares de reprovação.
"A Senhorita Tônia está sendo tão ingrata."
"A Senhorita Rafaela só queria ajudar."
"Que escândalo na véspera do casamento."
"Silêncio!", a voz do meu pai de criação, Sr. Carlos, trovejou pelo salão. Ele descia as escadas, seu rosto uma máscara de fúria contida. Seus olhos passaram por mim como se eu fosse um inseto insignificante e pousaram em Rafaela com uma falsa preocupação.
"O que está acontecendo aqui? Rafaela, querida, por que está chorando?"
Rafaela correu para o lado dele, agarrando seu braço e soluçando.
"Tio... eu não sei. A Tônia está tão estranha. Ela me acusou... ela disse que eu quero roubar o vestido dela."
Sr. Carlos me fuzilou com o olhar.
"Maria Antônia! Que comportamento é esse? Peça desculpas à sua prima imediatamente! Você não vê que ela só estava tentando ajudar? Você deveria ser grata por ter uma prima tão dedicada."
Ouvir aquelas palavras dele, sabendo o que eu sabia, foi como ter a ferida da minha vida passada reaberta e salgada. Aquele homem, que deveria me proteger, estava me jogando aos lobos mais uma vez. A dependência que eu sentia por ele, a busca por sua aprovação, tudo isso se desfez em pó. Eu vi seu rosto não como o de um pai, mas como o de um carrasco.
"Eu não vou pedir desculpas por algo que é meu por direito", respondi, minha voz firme. "Esse vestido foi desenhado por mim, para o meu casamento. Ela não tem o direito de usá-lo."
"Insolente!", ele gritou. "Você está me envergonhando! Rafaela é sua família! Você deveria ser mais generosa! Depois de tudo que fiz por você, é assim que você me retribui? Com ingratidão e escândalos?"
A moralidade distorcida dele era sufocante. A generosidade que ele exigia de mim era, na verdade, uma ordem para que eu me submetesse e entregasse tudo o que era meu.
Eu ri, um som amargo que ecoou pelo salão silencioso.
"Generosidade? Ou você quer que eu entregue meu lugar para ela? É isso, não é?"
O rosto do Sr. Carlos ficou pálido. Ele não esperava essa confrontação direta.
Ele se recompôs rapidamente, sua expressão se tornando ainda mais dura.
"Chega de bobagens. Você está cansada e estressada com o casamento. Vá para o seu quarto e descanse. Rafaela, querida, não se preocupe com isso."
Ele se virou para as empregadas.
"Levem a Senhorita Rafaela para trocar de roupa. E certifiquem-se de que a Senhorita Tônia não cause mais problemas."
Ele me deu as costas, dispensando-me como se eu não fosse nada. Tentei exercer a pouca autoridade que me restava.
"Vocês!", eu disse para duas empregadas que passavam. "Ajudem-me a levar o vestido de volta para o meu quarto."
Elas se entreolharam e riram debochadamente.
"Desculpe, Senhorita Tônia", disse uma delas com um sorriso zombeteiro. "Mas recebemos ordens do Sr. Carlos. E ele é quem paga nossos salários."
A outra acrescentou: "A senhora não manda mais em nada por aqui."
Elas se viraram e seguiram Rafaela e meu pai, deixando-me sozinha no meio do salão. O peso da minha situação me atingiu em cheio. Eu não era apenas uma noiva traída. Eu era uma prisioneira em minha própria casa, despojada de poder, de voz e de dignidade. A zombaria delas confirmou o que eu já sabia: para todos naquela casa, eu já era uma exilada.
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