
A Noite Em Que Ele a Escolheu
Capítulo 2
Ponto de Vista de Helena:
Minhas mãos, que antes embalavam a vida, agora repousavam sobre um espaço oco. Minha barriga, ainda arredondada pela gravidez, estava vazia. O fantasma de um chute, um tremor fantasma, era tudo o que restava da criança que carreguei por nove meses. Ele se foi. Meu bebê, meu milagre, se foi.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Essa vida perfeita, esse amor perfeito, tudo não passava de uma piada cruel. Cada toque terno, cada promessa sussurrada, cada folha de couve orgânica, agora parecia um soco no estômago. A ironia me sufocava.
Arthur ainda segurava minha mão, seu aperto frouxo, quase superficial. Com calma, deliberadamente, puxei minha mão. O gesto foi pequeno, mas pareceu monumental. Um abismo se abriu entre nós, mais largo que qualquer oceano.
"Você se lembra, Arthur?" Minha voz estava calma, quase distante. "Daquele pequeno café onde você me pediu em casamento? Você se ajoelhou, com uma única rosa vermelha, prometendo-me o para sempre. Você disse que eu era a luz da sua vida, sua alma gêmea."
Ele se encolheu, seus olhos piscando com um toque de desconforto. "Helena, por favor. Não é a hora."
"Você me deu aquele medalhão antigo", continuei, ignorando-o. "Gravado com 'A & H, Para Sempre'. Você disse que nosso amor era eterno, inquebrável. Você disse que construiríamos uma dinastia, uma família linda."
Ele engoliu em seco, o olhar caindo para as próprias mãos. "Eu quis dizer isso, Helena. Eu ainda quero."
"Você quis dizer isso?" Minha voz falhou, as lágrimas finalmente escorrendo pelo meu rosto. "Você quis dizer isso quando me deixou sangrando, sozinha, enquanto nosso bebê morria? Você quis dizer isso quando a escolheu, de novo e de novo, em vez de mim, em vez do nosso filho? Você algum dia me viu de verdade, Arthur? Ou eu era apenas uma esposa conveniente, um acessório perfeito para a sua vida perfeita?"
Seu rosto se contorceu, um lampejo de algo parecido com dor em seus olhos. Ele abriu a boca, depois a fechou. "A Bia... ela está doente, Helena. Ela é frágil. Ela precisa de mim."
"E eu não preciso?", perguntei, uma nova onda de desespero me invadindo. "Nosso bebê não precisava? Eu não te reconheço mais, Arthur. Este homem que está diante de mim... é um estranho."
Minha voz ficou mais forte, alimentada por uma raiva ardente. "Saia, Arthur. Saia da minha frente. Não quero te ver. Nem agora. Nunca mais."
Ele hesitou, depois se levantou lentamente, os ombros caídos. Ele saiu do quarto, me deixando sozinha com meu luto, minha raiva e a ferida aberta de sua traição.
O funeral foi um borrão. Meus pais e alguns amigos próximos ficaram ao meu lado, seus rostos uma mistura de tristeza e fúria mal disfarçada pela ausência de Arthur. Ele não veio. Mandou flores, um buquê branco e estéril, e um bilhete que dizia: "Sinto muito pela sua perda. Pensando em você." Pareceu um insulto final.
Fiquei ao lado do pequeno túmulo, um pequeno caixão branco sendo baixado à terra. O céu estava cinza, espelhando a paisagem da minha alma. Ajoelhei-me, traçando o mármore liso da lápide. Bebê Britt, Para Sempre em Nossos Corações.
"Olá, meu menino doce", sussurrei, minha voz crua. "A mamãe está aqui. Sinto muito. Muito, muito mesmo."
Minha mãe se ajoelhou ao meu lado, o braço em volta dos meus ombros. "Ele está em um lugar melhor, meu amor. Ele está em paz."
"Talvez seja melhor assim, mãe", eu disse, as palavras surpreendendo até a mim mesma. "Talvez ele tenha sido poupado de uma vida com um pai que não pôde escolhê-lo. Poupado de uma vida em uma família que já estava quebrada."
Minha mãe olhou para mim, seus olhos cheios de um novo tipo de tristeza. Ela entendeu.
Nesse momento, um carro parou. Arthur. Ele saiu, sozinho, vestido com um terno escuro, parecendo impecavelmente triste. Ele caminhou em direção ao túmulo, o olhar fixo no pequeno monte de terra. Ajoelhou-se, colocando uma única rosa vermelha ao lado da lápide.
Ele estendeu a mão, como se para tocar a terra, depois hesitou. Olhou para mim, os olhos cheios de uma tristeza performática. "Helena", ele começou, a voz baixa. "Eu... eu só queria prestar minhas homenagens."
"Homenagens?" Minha voz estava carregada de veneno. "Você quer prestar homenagens à criança que você abandonou? À esposa que você traiu?"
Ele se encolheu. "Helena, eu sei que você está sofrendo. Mas você está sendo irracional. Eu estou aqui agora. Eu também estou sofrendo. Ele era meu filho."
"Seu filho?", zombei, uma risada amarga me escapando. "Você perdeu esse direito no momento em que saiu daquela sala de parto, Arthur. Você não é pai desta criança. E você não é mais meu marido."
Seu rosto endureceu. "Helena, não diga isso. Você está emotiva. Não está pensando direito."
"Oh, estou pensando perfeitamente bem, Arthur", eu disse, minha voz fria e clara. "E o que estou pensando é que sua tristeza é uma atuação. Sua culpa é um inconveniente temporário. E seu amor por mim foi uma mentira."
"Como você pode dizer isso?", ele exigiu, a voz se elevando. "Eu te amei, Helena! Eu ainda amo! É o luto falando. Podemos superar isso, juntos."
"Juntos?", perguntei, uma calma arrepiante se instalando sobre mim. "Não existe 'nós', Arthur. Apenas você e suas promessas. E eu e minha dor. Agora, saia. Deixe-nos em paz."
Ele me encarou, os olhos arregalados, como se finalmente entendesse a finalidade das minhas palavras. Mas então, um lampejo de sua antiga arrogância retornou. "Helena, estou tentando ser compreensivo. Mas você não pode simplesmente ditar como eu sofro. Tenho todo o direito de estar aqui."
"Você não tem direitos aqui", afirmei, minha voz firme. "Nem como marido. Nem como pai. E em breve, nem mesmo como uma memória distante. Agora, vá embora."
Ele ficou ali, uma estranha mistura de raiva e confusão no rosto. Parecia prestes a discutir, a se defender, a continuar sua farsa. Mas antes que pudesse, uma nova figura entrou em cena, sua presença mudando instantaneamente a dinâmica.
Era Bia.
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