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Capa do romance A Ninfeta e o Mafioso

A Ninfeta e o Mafioso

Quinze anos se passaram, mas o trauma daquela travessia clandestina persiste. O que começou como o sonho de uma vida melhor na América, prometido por seu pai pedreiro e sua mãe professora, tornou-se um pesadelo sufocante. A jornada do Brasil até o México culminou no confinamento em um caminhão insalubre, repleto de medo e odores fortes. Entre memórias de sorrisos maternos e a falsa promessa da Disney, ela revive a dor de ser lançada contra a lataria.
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Capítulo 2

— Quanto aquele maldito pediu?

— Quinhentos mil – respondi. Ele praguejou e cerrou o punho.

— Se ele não fosse tão bom para a máfia, já estaria morto. Hoje em dia é difícil comprar delegados e ele faz o serviço querendo ou não – justifiquei —, por isso achei que valia a pena pagar.

— Se eu estivesse de pé, tudo ficaria bem! – Ele respirou com dificuldade.

— Fique calmo – eu pedi acariciando seu braço —, estamos dando conta do trabalho, Carlo tem se esforçado e...

— Aquele merda! – xingou o filho. — A única coisa que ele sabe fazer é se drogar e enfiar o pau em qualquer boceta que apareça na sua frente! Vai morrer de AIDS ou de cirrose, é o mais provável!

Não retruquei. Carlo era fraco, tudo era desculpa para enfiar a cara na cocaína. Nessa parte, Nicoletta seria uma chefe da máfia melhor que o irmão. Ela era fria, má, mas tinha um grave problema. Não sabia ser justa e era mimada demais.

— Não quero que pense nisso agora – eu o confortei —, está tudo

bem.

Não podia dizer a ele que havia especulações sobre ele vir a morrer

e isso estava abalando os clãs. Dom Andreas era o mais forte, o mais

poderoso e muitos queriam o seu fim, sua doença abalava tudo, não confiavam em ninguém e se ele viesse a morrer, haveria uma guerra sangrenta e Carlo não estava pronto para isso. Ele nunca estaria pronto para tomar o lugar do pai e não deixariam que Nicoletta o fizesse. Talvez Genaro, mas ele afundaria o barco de uma vez, era ganancioso demais e se venderia aos federais se pudesse. Apenas não fez isso porque Dom Andreas o faria mastigar o próprio saco ainda vivo.

— Não está escondendo nada de mim, está? – ele perguntou desconfiado.

Ele era bom, por isso era o chefe, por isso era o dono de Chicago e da América, por isso todos respondiam a ele. Tinham medo dele. Menos eu. Sabia que ele ficaria furioso comigo se soubesse que estava mentindo, mas era por uma boa causa, para que ele não se preocupasse.

— Não estou. Está tudo bem – eu garanti —, como eu disse, apenas um soldado e outro que temos que colocar na linha. Os negócios vão bem.

— Recebi uma visita de Otto Vettore – ele contou muito sério.

Otto Vettore era chefe da Camorra nos Estados Unidos. Ele não morava em Chicago e sim em Nova Iorque. O que ele queria com capo? Nós tínhamos negócios com eles, mas babbo estava acima, criou seu próprio império, não respondia a ninguém além de si mesmo.

— Espero que ele não tenha trazido preocupações para você! Aquele bastardo pode ser uma cobra e inventar mentiras! – eu o precavi.

Ele riu da minha desconfiança.

— Acalme-se! Ele me fez uma sugestão e andei pensando sobre o assunto – ele contou —, foi por isso que quis ficar a sós com você.

— Um homem que o odeia?

— Me diga quem não quer me ver morto? – ele retrucou. — Ele só me deu um conselho sincero de quem tem grandes negócios comigo.

— O que seria? – perguntei impaciente querendo saber o que era.

— Como vou ter que ficar deitado nessa cama até os exames saírem para saber se preciso de cirurgia ou não, e o doutor Brian Dickson acredita que é noventa por cento de chance de dar uma cirurgia – ele me explicou —, alguém precisa comandar tudo em meu lugar.

Era fato e eu podia fazer esse trabalho, mas jamais diria isso a ele, preferia que ele tomasse a decisão por si mesmo. Eu conhecia tudo, sabia como administrar e tinha certo respeito dos homens mesmo sendo mulher. Não era muito, mas eu me esforçaria para trabalhar até que Dom Andreas estivesse bem, e ele se recuperaria logo.

— Tem razão – eu concordei na expectativa.

— Vou trazer alguém de fora para fazê-lo até que eu esteja melhor – ele avisou.

Foi como um balde de água fria sobre mim. Foi muita pretensão da minha parte pensar que ele acreditaria que eu estava preparada para o serviço?

— Alguém de fora? – não me contive. — Há tantas pessoas aqui que podem fazer isso...

Ele sorriu compreensivo e bateu sua mão sobre a minha, devagar.

— Sei que você está preparada, é a melhor entre todos – ele disse como se lesse meus pensamentos —, mas não posso colocá-la na linha de fogo.

— Já estou na linha de fogo – retruquei sem pensar.

Era sempre assim, eu acabava questionando-o mesmo que não quisesse. Era mais forte do que eu. Mesmo que me arrependesse depois ou ele ficasse bravo comigo.

— Eu sei, meu bem – ele falou sério e segurou minha mão com firmeza —, mas há certos assuntos que você não pode resolver no meu lugar.

Revirei os olhos tentando me controlar.

— É por que não sou sua filha legítima ou por que sou mulher? – eu o questionei.

— Não fale assim comigo! – ele pediu tentando amenizar a minha raiva —, você sabe como as coisas funcionam!

Eu sabia e suspirei pesadamente. A máfia tinha dessas coisas, um patriarcado pior que a era medieval, onde a voz das mulheres eram pouco ouvidas. Quantas vezes riram de mim? Quantas vezes atirei no joelho de alguém por desdenhar da minha autoridade?

— Não quero discutir o assunto com você – ele prosseguiu —, já tomei minha decisão e estou fazendo isso para protegê-la.

— Não preciso de amparo! – Cruzei os braços e fechei a cara.

— Tire essa carranca da cara – ele mandou —, nós sabemos como vai ser e a minha decisão sempre prevalece. Dê um beijo no seu babbo antes de me deixar descansar.

Forcei um sorriso. Estava contrariada, mas sabia que ele era o capo e eu tinha que confiar em sua decisão, mesmo que isso massacrasse o meu ego e acabasse com o meu orgulho.

Capítulo 2

Quando saí do quarto, Nicoletta estava à minha espera no corredor. Ela sempre fazia isso, tudo nela era bem previsível, bem como as roupas que usava, sempre caras, clássicas e de grife. Ela parecia uma modelo saída de uma revista. Os cabelos muito loiros, os olhos claros, entre o azul e o verde como a mãe dela, Laura. Ela não havia nascido na Itália, e sim em Chicago, mas agia como se fosse uma condessa italiana. Ela era tudo aquilo que sempre desprezei na vida, não por ser rica e bonita, mas por ser desagradável no nível hard.

Avancei pelo corredor em sua direção. Se tivesse um jeito de não falar como ela, como pular a janela ou saltar de uma varanda, eu teria feito. Ela parou diante de mim cruzando os braços sobre a camisa branca de seda presa dentro da calça de cintura alta preta.

— O que ele falou para você? – ela perguntou sem me deixar passar.

Ela era mais alta do que eu. Mas eu poderia derrubá-la facilmente se precisasse. Nicoletta foi criada para ser uma princesa, a futura esposa de um outro chefe da máfia, aquela que cuidaria da família, dos filhos, manteria as aparências se firmando como uma socialite ligada à filantropia. Sempre a vi como a esposa de um senador corrupto ou um presidente dos Estados Unidos sem noção que construiria um muro para impedir imigrantes de entrarem em seu país e depois prenderia crianças em gaiolas. E depois eram os mafiosos que eram cruéis.

— Ele comentou que sua roupa está cafona hoje – eu respondi com cinismo.

Ela estreitou o olhar e fez uma careta.

— Garota patética! – xingou.

Tentei passar por ela, mas me impediu.

— O que você quer? – perguntei impaciente.

— O que foi que ele falou? – ela exigiu saber.

— Se quer tanto saber, entra lá e pergunta para ele. Não sei por que perde seu tempo toda vez tentando me obrigar a falar! – gesticulei enquanto falava —, eu nunca digo!

— Não custa tentar. – Ela ergueu uma sobrancelha. Dei um passo para ela e coloquei o dedo em sua cara.

— Aproveita e conta para ele que você está deixando aquele russo maldito do Ivanov enfiar o pau na sua boca! – eu revelei.

Ela arregalou os olhos quando eu mostrei que sabia.

— Toma cuidado, se o babbo souber que está trepando com os inimigos dele, vai comer o seu rim!

— Cala a boca! – ela avisou e ergueu a mão para me bater. Segurei sua mão no ar.

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