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Capa do romance A Neta Perdida: Vingança

A Neta Perdida: Vingança

Traída por Joana, sua melhor amiga, a jovem é dopada e vendida como noiva para uma família cruel. Sob maus-tratos, ela descobre que foi levada justamente para a vila de seus avós, Sebastião e Clara. Seus captores acreditam que ela é uma órfã indefesa, sem saberem que estão em suas terras de origem. Agora, movida pelo desejo de vingança e pela fúria da humilhação sofrida, ela usará sua verdadeira identidade para destruir aqueles que ousaram escravizá-la.
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Capítulo 3

No dia seguinte, a porta se abriu com um rangido. Era o Zé, trazendo uma tigela de metal com algo que parecia um caldo ralo e um pedaço de pão duro. Ele colocou no chão, como se eu fosse um cachorro.

"Come", ele ordenou, sem me olhar nos olhos.

Eu me levantei da cama, meu corpo ainda protestando a cada movimento. Fui até ele, mas não para pegar a comida. Parei na frente dele e o encarei.

"Eu sei onde eu estou", eu disse, minha voz firme, surpreendendo a mim mesma.

Ele franziu a testa, confuso.

"Tá doida? Tá no meu quarto."

"Não. Eu estou na Vila da Prata. E eu sei quem eu sou. Você e sua mãe cometeram um erro muito, muito grande."

Um lampejo de incerteza passou pelos olhos dele, mas foi rápido. Ele tentou disfarçar com uma risada forçada.

"E quem você pensa que é? A rainha da Inglaterra?"

"Eu sou Maria. Mariinha. Neta do seu Sebastião e da dona Clara."

O nome dos meus avós saiu da minha boca como uma arma. O efeito foi imediato. O sorriso de Zé desapareceu. Ele deu um passo para trás, o rosto pálido. Lá fora, no quintal, ouvi a mãe dele gritando alguma coisa. Outras vozes se juntaram. A notícia da "noiva comprada" devia ter se espalhado.

Zé me olhou, o medo se misturando com a descrença.

"Você... tá mentindo. Você é louca. A moça que te trouxe disse que você não tinha ninguém."

"A moça que me trouxe é uma traidora e uma criminosa, e ela vai pagar por isso. Assim como vocês", eu disse, avançando um passo. "Vocês não sabem com quem se meteram. Meu avô é Sebastião. Minha avó é Clara. Pensem bem no que vocês fizeram."

Minhas palavras pareciam ecoar no pequeno quarto. Zé estava visivelmente abalado. Ele abriu a boca para falar, mas a mãe dele apareceu na porta, o rosto vermelho de raiva.

"O que tá acontecendo aqui? Por que essa vagabunda ainda tá de pé?"

"Mãe...", Zé começou, a voz trêmula. "Ela tá dizendo que é neta do seu Sebastião."

A mulher olhou para mim, os olhos semicerrados. Ela me analisou de cima a baixo, meu cabelo emaranhado, minhas roupas sujas e rasgadas, os hematomas no meu rosto. Então, ela gargalhou. Uma gargalhada alta e debochada.

"Neta do seu Sebastião? Essa aí?", ela zombou, apontando para mim. "Você acha que eu sou idiota? Eu conheço a família do seu Sebastião. Os netos dele são tudo gente fina, da cidade. Não uma coitada suja como você. Ela tá inventando isso pra se salvar, seu burro! Acha que eu não conheço esse tipo de truque?"

"Mas o seu Sebastião teve um filho que foi pra cidade há muito tempo...", Zé argumentou, a dúvida ainda presente. "Pode ser..."

"Pode ser o caralho!", a velha gritou, dando um tapa na cabeça do filho. "A família dele nunca ia deixar uma neta largada por aí. E mesmo que fosse, olhe pra ela! Tá imunda. Isso não é gente da família do homem mais poderoso da região. É uma mentirosa!"

Eu tentei explicar.

"Meu pai se mudou pra capital há mais de quinze anos! Eu não venho aqui desde criança, por isso vocês não me reconhecem! Mas eu sou a filha do Ricardo, filho do seu Sebastião!"

Minha explicação só piorou as coisas. A velha me olhou com ainda mais desprezo.

"Filha do Ricardo? Agora sim que a mentira ficou boa. O filho do homem foi embora daqui e nunca mais olhou pra trás. Virou doutor na cidade grande. Acha mesmo que a filha de um doutor ia andar com uma pé-rapada como a tal da Joana? Acha que ia ser vendida por uns trocados? Conta outra!"

A lógica dela, por mais cruel que fosse, era difícil de contestar para quem não sabia a verdade. Minha situação parecia absurda. A traição de Joana me colocou em uma posição onde a verdade soava como a maior das mentiras.

A frustração e a raiva me sufocaram. Eles não acreditavam em mim. Eles não queriam acreditar. A velha, vendo meu desespero, sorriu com satisfação.

"Viu, Zé? É só uma coitadinha desesperada. Tá tentando se agarrar em qualquer coisa."

Ela veio na minha direção, o olhar endurecido.

"Já que você gosta tanto de inventar histórias, vou te dar um motivo de verdade pra chorar."

Ela me agarrou pelo braço e começou a me arrastar para fora do quarto. Eu me debati, gritei.

"Me solta! Vocês vão se arrepender! Meu avô vai acabar com vocês!"

Minhas ameaças só a deixavam com mais raiva. Ela me jogou no meio do quintal de terra batida. Alguns vizinhos curiosos olhavam por cima de suas cercas. A humilhação queimava meu rosto.

"Essa aqui", a velha gritou para quem quisesse ouvir, "tá se dizendo neta do seu Sebastião! A coitada enlouqueceu de vez!"

Risadas ecoaram pelo quintal. Eu estava sozinha, cercada por rostos hostis e zombeteiros. Em um ato de puro desespero, enchi meus pulmões de ar e gritei o mais alto que pude.

"AVÔ! VÓ CLARA! SOCORRO! SOU EU, A MARIINHA!"

Meu grito foi interrompido por um golpe seco nas minhas costas. Zé tinha pegado um pedaço de pau e me acertado com força. Caí de joelhos, sem ar. A dor era lancinante.

"Eu mandei você calar a boca!", ele gritou, o medo o tornando mais violento.

Ele me ergueu pelos cabelos e me arrastou de volta para o quarto escuro. A última coisa que vi antes da porta bater foi o rosto satisfeito da mãe dele, enquanto os vizinhos se dispersavam, convencidos de que eu era apenas uma noiva louca e problemática. A escuridão me engoliu de novo, e com ela, um sentimento de derrota quase total. Minha única arma, minha identidade, tinha falhado.

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